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Venda de cloroquina sobe 40% em maio, mês em que Bolsonaro mudou protocolo

Segundo levantamento da consultoria InterPlayers, feito com exclusividade para VEJA, o aumento foi constante ao longo do mês; regra foi alterada no dia 20

Por Mariana Zylberkan Atualizado em 3 jun 2020, 18h59 - Publicado em 3 jun 2020, 18h42

A venda de cloroquina e hidroxicloroquina nas farmácias teve um aumento de 40% ao longo de maio, mês em que o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) mudou o protocolo do Ministério da Saúde para uso do medicamento e passou a recomendá-lo para pacientes com sintomas iniciais de coronavírus.

Segundo levantamento da consultoria InterPlayers, feito com exclusividade a pedido de VEJA, o aumento no percentual foi constante ao longo do mês e a partir da segunda quinzena chegou próximo do patamar de vendas registrado no início da pandemia. Em 20 de maio, o ministro da Saúde substituto, general Eduardo Pazuello, alterou as recomendações a mando de Bolsonaro e estendeu a administração para pacientes em estágios iniciais da doença. Antes, o recomendado era que a cloroquina fosse usada em ambiente hospitalar em pacientes graves devido ao risco de arritmia, principalmente, em idosos. Ainda não há estudos científicos que embasem a efetividade do medicamento no tratamento para coronavírus.

A insistência de Bolsonaro em flexibilizar o uso da cloroquina culminou no pedido de demissão do então ministro da Saúde Nelson Teich após menos de 30 dias no cargo. A queda de braço também influenciou na demissão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Teich atribuiu sua saída à recusa de assinar o novo protocolo.

O aumento das vendas em maio ocorre após um pico registrado pela InterPlayers na semana de 20 de março, quando Mandetta decretou estado de calamidade pública no país em função do coronavírus. Foi a partir dessa data que os estados de São Paulo e Rio de Janeiro deram início à quarentena. Neste mesmo período, a consultoria registrou aumento de 114% na intenção de compra desse tipo de medicamento. Em seguida, houve queda no fim de abril após o ministério passar a exigir a apresentação de receita médica para a compra do medicamento. Além disso, segundo a Interplayers, outra causa para a retração foi a dificuldade da indústria em obter os insumos no concorrido mercado internacional.

Segundo o Ministério da Saúde, foram distribuídas 2,9 milhões de caixas de cloroquina aos estados desde o início da pandemia, aproximadamente um terço de outro medicamento usado no tratamento do coronavírus, o Tamiflu, que chegou a 8,4 milhões unidades distribuídas. Atualmente, o ministério dispõe de 1,4 milhão de comprimidos em estoque, quantidade semelhante à disponível antes da mudança no protocolo.

O ex-ministro Mandetta atribuiu o aumento de mortes em casa em Manaus, epicentro da epidemia em números relativos, ao uso da cloroquina. Usado tradicionalmente para tratar malária, entre outros doenças, o remédio é comum na região amazônica e de fácil acesso. A corrida pela cloroquina fez o preço dos comprimidos quase triplicar em Manaus, segundo o prefeito Arthur Virgilio (PSDB). A mesma alta foi percebida em outras regiões do país, dificultando o acesso a portadores de artrose, uma das doenças crônicas tratadas com o medicamento.

  • No sábado 30, procuradores em São Paulo, Sergipe, Rio de Janeiro e Pernambuco pediram ao Ministério da Saúde a suspensão do protocolo que recomenda o uso da cloroquina em pacientes com sintomas leves. No pedido enviado à 1ª Câmara de Revisão e Coordenação do Ministério Público Federal, os procuradores alegaram que o novo protocolo foi divulgado sem respeitar o processo legal de registro dos medicamentos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Não foi feita também, segundo eles, a avaliação necessária do sistema de incorporação de tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS).

    Os procuradores também argumentam que o protocolo exige exames que comprovem a infecção por coronavírus para a administração de cloroquina fora de ambiente hospitalar, mas, segundo a recomendação, os testes só têm sido feitos em pacientes em estado grave, o que contradiz a própria recomendação. “A desigualdade na assistência não está no acesso à atenção medicamentosa, mas sim no acesso aos exames que permitem a confirmação precoce da Covid-19 e, consequentemente, o início precoce dos cuidados e tratamento dos pacientes, antes do agravamento, com a realização dos exames laboratoriais e complementares para o controle do tratamento e evitar as reações adversas que podem levar até a morte”, disseram os procuradores no documento.

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