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Um ícone que se vai

O Hotel Novo Mundo, que já foi ponto de encontro de políticos, jogadores e artistas no Rio de Janeiro, é vencido pela crise no setor e fecha as portas

Por Jana Sampaio e Maria Clara Vieira - 22 mar 2019, 07h00

O tiro disparado no Palácio do Catete no dia 24 de agosto de 1954, uma terça-feira, ecoou para além das paredes da então sede do governo executivo, no Rio de Janeiro, e provocou comoção em um prédio vizinho. O suicídio de Getúlio Vargas repercutiu como uma bomba no Hotel Novo Mundo, do outro lado da rua, uma espécie de segunda casa de políticos e famosos na capital federal. Ícone da hotelaria carioca, ao lado do Glória e do Copacabana Palace, o Novo Mundo, nos tempos áureos, recusava hóspedes com frequência porque todos os quartos estavam ocupados. Agora, suas portas, ladeadas por dois leões de bronze, serão fechadas. Na segunda-­feira 25, ele entrará para a estatística de mais de uma dúzia de hotéis da cidade que encerraram as atividades desde o fim da Olimpíada, em 2016, com dívidas acumuladas por falta de movimento.

O Hotel Novo Mundo foi fundado em 1950, a pedido do presidente Eurico Gaspar Dutra, que queria ter perto do Catete um lugar para hospedar quem o visitava. Em troca, ofereceu aos imigrantes espanhóis Gumercindo e Vitor Fernandes, sócios no empreendimento, incentivos fiscais por dez anos. O Aterro do Flamengo ainda não existia e os quartos da frente se debruçavam sobre o mar, com vista desimpedida para o Pão de Açúcar. A inauguração em plena Copa do Mundo no Brasil fez com que lá se hospedassem inúmeras delegações esportivas e de jornalistas.

O funcionário mais antigo da casa, Antônio Martins Lourenço, o “seu Martins”, de 83 anos, conta que atendeu muitos presidentes, primeiro como auxiliar de limpeza, depois no bar, onde se tornou chefe de equipe. Juscelino Kubitschek hospedou-se várias vezes no hotel. João Goulart, quando era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, frequentava assiduamente a boate. Lula e Leonel Brizola discutiram lá o apoio do ex-governador ao petista contra Fernando Collor no segundo turno da eleição de 1989. “O hotel estava em reforma, e Lula teve de passar por cima de algumas tábuas”, recorda Martins. O cantor Cauby Peixoto morou durante quatro anos em um apartamento do Novo Mundo. “Lembro de ele sair com um cassetete na mão, dizendo, em tom de brincadeira, que era para não ser agarrado pelas fãs que o esperavam na portaria”, rememora.

Herança da Copa de 1950, o hotel também se tornou uma extensão do estádio do Maracanã, hospedando os principais times de fora. Entre os craques habitués estava Pelé — foi lá que ele comemorou duas de suas façanhas, a Copa de 1958, ao chegar da Suécia, e o milésimo gol, em 1969. No saguão, uma placa dourada homenageia o rei. “Quando ele ia jogar no Maracanã, me levava para assistir”, diz Martins. “Na volta, eu lhe servia suco no bar. Álcool, ele não bebia.”

ÁUREOS TEMPOS - Hóspedes famosos: Pelé, frequentador que ganhou uma placa no saguão do Novo Mundo, e Cauby Peixoto (à dir.), que morou por quatro anos em um de seus apartamentos Fotos: Acervo hotel Novo Mundo/.

Com a mudança da capital para Brasília, em 1960, o Novo Mundo deixou de hospedar políticos e sentiu o baque — baixou de cinco para quatro estrelas. Recuperou o prestígio nos anos 1980, graças à Rede Manchete, cuja sede era bem ali do lado. O hotel passou a hospedar os artistas que estavam em cartaz no teatro e nos programas da emissora e se tornou a primeira casa carioca da apresentadora Angélica quando, ainda criança, contratada pela Manchete, ela se mudou com a mãe para o Rio. “O hotel me deu sorte. Todos os planos que fiz lá se realizaram”, disse Angélica a VEJA. O estilista Clodovil Hernandes pensou em fazer do Novo Mundo sua casa no Rio, mas chateou-se quando foi impedido de decorar o quarto com seus móveis. Pelo bar passaram Miguel Fala­bella, que lá se reunia com sua turma, e Martinho da Vila, que às vezes dava uma canja. Em 1999, a Manchete acabou e a ocupação do hotel voltou a encolher — para nunca mais se recuperar por completo.

Bem antes de o Novo Mundo fechar as portas, seu vizinho ainda mais estrelado, o Hotel Glória, teve fim, com perdão do trocadilho, inglório. Fundado em 1922, ele chegou a competir estrela a estrela com a joia máxima, o Copacabana Palace (ainda na ativa, com prestígio intacto). Mas, afetado pela decadência do Centro do Rio, o Glória estava em declínio acelerado quando, em 2008, foi comprado pelo empresário Eike Batista, que prometeu investir 200 milhões de dólares e fazer dele o primeiro hotel seis estrelas da América Latina. O projeto, como tudo em que Eike pôs a mão, naufragou. O fundo árabe Mubadala, seu ex-sócio e hoje credor, assumiu o Glória em 2016 para fazer um prédio “meio residencial, meio hotel” — sem previsão para o início da reforma.

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), o setor amarga uma grave crise no Rio desde 2016, ano da Olimpíada, quando a rede hoteleira saltou de 29 000 para quase 60 000 quartos. “Dobramos a oferta e não houve demanda, porque o calendário de eventos esperado para depois dos Jogos não se concretizou”, diz Alfredo Lopes, presidente da entidade. Em seguida, o estado quebrou e o movimento hoteleiro alavancado pelas indústrias — já muito afetado pelo encolhimento da Petrobras — desabou. “O que segurava a ocupação durante o ano eram os encontros corporativos. A derrocada econômica acabou com eles”, afirma Lopes. Em junho do ano passado, a rede hoteleira do Rio atingiu seu ponto mais baixo: só 46% dos quartos estavam ocupados. Para o veterano Martins, o anúncio do fechamento do Novo Mundo “foi o pior dia da vida”. O setor hoteleiro carioca deve ter sentido coisa parecida.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2019, edição nº 2627

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