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Queimadas: o drama no resgate de moradores do Pantanal

Fogo avança sem trégua sobre a fauna, flora e habitantes locais no bioma conhecido como 'Paraíso das Águas'

Por Caio Guatelli e Eduardo Gonçalves Atualizado em 13 ago 2020, 12h00 - Publicado em 13 ago 2020, 11h30

Na quarta-feira, dia 12, o aposentado Benedito Alves da Silva, o Dito Verde, de 79 anos, viu um helicóptero da Marinha pousar em seu quintal. Morador mais antigo da reserva ambiental Sesc Pantanal, ele mora num casebre de pau a pique que estava prestes a ser engolido pelas chamas. Despejando mais de 3.000 litros de água por mangueira e avião, um batalhão de onze homens conteve o fogo, retirou Dito dali e salvou a casa mais antiga da reserva de virar uma pilha de carvão.

Esta era mais uma das tantas operações de combate aos incêndios no Pantanal, que começaram no Mato Grosso do Sul e avançam agora sobre o Mato Grosso deixando uma extensão de mais de 1,2 milhão de hectares destruídos.

A rotina dos combatentes é frenética. À noite, o fogo recua, mas o calor e o vendaval do dia voltam a intensificá-lo da manhã à tarde num ciclo sem intervalos que se repete diariamente. Por todos os lados, se vê uma movimentação intensa de máquinas, tratores, caminhões-pipa, barcos, helicópteros e aviões. Assim como Dito Verde, outras dezenas de moradores da região também precisaram ser evacuados da área. Conforme  os protocolos de operação, a prioridade máxima é salvar vidas, depois patrimônio e em seguida a vegetação.

Cerca de 200 homens da Marinha, Exército, Ibama, Corpo de Bombeiros e brigadistas locais trabalham na Operação Pantantal 2 – a 1 não foi suficiente e o governo matogrossense começou ontem a treinar detentos para atuar no combate às chamas. As queimadas já destruíram cerca de 60.000 dos 108.000 hectares da reserva, que é considerada a maior particular do país.

O efetivo está abrigado num dos maiores hoteis da região, o Porto Cercado, que praticamente todos os dias entra em alerta – nesta quarta, o fogo chegou a 10 metros dos paineis de energia solar que abastece o hotel. Na segunda-feira, dia 11, o prédio precisou ser evacuado às pressas. Das janelas dos quartos, que costuma receber 30.000 hóspedes por ano, é possível ver as enormes colunas de fumaça subindo numa paisagem desoladora.

Conhecido por ser o “Paraíso das Águas”, o Pantanal enfrenta um dos seus períodos mais secos e a previsão é que as chuvas só voltem em setembro. Sem as planícies alagadas, o bioma que é reconhecido pela Unesco por sua rica fauna e flora se transforma um depósito de combustível orgânico. As queimadas iniciadas em julho caminham agora para a sua fase mais crítica em agosto. Em apenas dez dias, o número de focos de incêndio – de 2.170 – já superou o de todo o mês anterior, segundo os dados contabilizados pelo Instituto Centro de Vida (ICV) a partir de imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Diferente das queimadas na Amazônia, que consomem as copas das árvores de 30 metros de altura, no Pantanal as chamas correm de forma rasteira, devorando pequenas árvores e arbustos. Faíscas saltam repentinamente e, com a ajuda do vento, o bioma arde – o barulho da queima de galhos e folhas é inconfundível. A mata espinhosa, o calor e a fumaça sufocante dificultam o trabalho dos brigadistas. Até esta quinta-feira, dia 13, foram derramados quase 2 milhões de litros de água sobre a área, retirada do Rio Cuiabá. E os trabalhos continuam sem perspectiva de fim.

Após ser retirado de sua casa, Dito Verde foi encaminhado ao hotel e, devido ao constante perigo, foi levado depois à cidade de Poconé (MT), próxima à reserva. Ele é uma espécie de atração turística local. Antigo trabalhador das fazendas que foram desativadas para a criação da unidade de conservação há 24 anos, ele conta histórias enquanto toca a sua viola aos turistas, que são levados até a sua casa pelos guias do parque. Agora, ele poderá contar a história do trabalho hercúleo que tem sido feito para salvar o Pantanal das chamas.

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