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Problemas com drogas e na Justiça: o histórico dos pais da menina capixaba

A mãe está desaparecida e o pai, preso por homicídio; tio condenado por tráfico foi denunciado pelo estupro da criança

Por Eduardo Gonçalves 22 ago 2020, 10h44

A história da garota capixaba de 10 anos, que foi estuprada e engravidada por um parente, é uma soma de várias tragédias brasileiras. De família humilde, ela foi criada pela avó paterna, a sua principal tutora, com quem tem uma ótima relação, conforme depoimentos de conhecidos. Ela é descrita como uma mulher simples e batalhadora, que vende coco e bebidas numa praia em São Mateus, no Norte do Espírito Santo. Nos últimos meses, com o litoral vazio por causa da Covid-19, a família se manteve financeiramente graças ao auxílio emergencial pago pelo governo.

Na última semana, a avó chegou a passar mal com a pressão de grupos religiosos, que queriam convencê-la a se posicionar contra a decisão do aborto – autorizado pela lei e pela Justiça. Ela frequenta uma igreja evangélica da região, mas não foram os seus “irmãos em Cristo” que a pressionaram – e, sim, um grupo de fora liderado por um pré-candidato do PSL a vereador em São Mateus (ES), que tem como bandeira pautas conservadoras e se diz apoiador da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos).

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A mãe da menina está desaparecida e não consta nem na certidão de nascimento dela – conhecidos dizem que ela é moradora de rua e usuária de drogas e pode já ter morrido. Já o pai está preso desde 2014, cumprindo uma pena de 16 anos pelo assassinato de um vizinho, com quem teria se desentendido. Ele não foi o autor dos disparos que mataram a vítima, mas teria participado do crime, segundo as investigações policiais. Com bom comportamento, o pai completou o ensino médio na prisão e está prestes a ir para o regime semiaberto. Segundo a sua advogada, Elisa Joana Pereira da Silva, ele ficou “transtornado” ao saber da notícia do estupro – foi ela que lhe contou no presídio. Ainda mais porque o irmão do acusado do abuso era até pouco tempo seu vizinho de cela.

O principal suspeito de violentar a menina era casado com a irmã do pai – portanto, tio da criança – e tem dois filhos pequenos. Ele também tem antecedentes criminais: foi pego junto com o irmão vendendo trouxas de maconha nas ruas de São Mateus. Pegou 9 anos de prisão por tráfico de drogas, escapou durante uma “saidinha de fim de ano”, foi recapturado e ficou encarcerado até 2018 – desde a liberdade, estava desempregado e fazia bicos ajudando a família da garota no comércio ambulante na praia.

É importante destacar, no entanto, que os casos de abuso sexual contra crianças não ocorrem só nas camadas mais pobres da população, mas em todos os estratos sociais. “Já prendi muitos abusadores em bairros ricos de Vitória. Nós só vemos com menos frequência porque a rede privada de saúde não costuma acionar a polícia da mesma forma que a rede pública”, diz o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos), que foi titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.

  • O estado do Espírito Santo é marcado por histórias trágicas de abusos de vulnerável. Na praia de Camburi, em Vitória, há um memorial erigido para lembrar da história da menina Araceli Crespo, de 13 anos, que foi drogada, estuprada e morta em 17 de maio de 1973 – os principais suspeitos eram da elite da sociedade capixaba e ninguém foi punido pelo crime. Na data da sua morte, o Congresso instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

    Apesar do monumento e da data, o Espírito Santo registrou um estupro de criança por dia em 2020. Nos sete primeiros meses foram 259 casos. O número é menor do que o registrado no mesmo período do ano passado, 423, mas a redução pode estar relacionada à subnotificação. Como os predadores sexuais geralmente são familiares, casos de abuso sexual costumam ser detectados nas escolas, que estão fechadas desde abril por causa da pandemia de Covid-19.

    Nesta semana, surgiu outra história escabrosa: uma garota de 13 decidiu procurar a polícia acompanhada da mãe para relatar que foi estuprada entre 2015 e 2018 por um tio, um tenente-coronel reformado da Polícia Militar de Minas Gerais. Ela declarou ter ganhado coragem para denunciar a experiência traumática após ver a repercussão do caso da menina capixaba.

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