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Por R$ 20 mil, policiais do Rio não prenderam irmão de chefe de milícia

E agora, dois anos depois, Polícia Civil faz operação para apreender bens e imóveis dele

Alvo de operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrada nesta quinta-feira, 15, o miliciano Luis Antônio da Silva Braga, o Zinho, foi detido pela corporação durante algumas horas há pouco mais de dois anos, em janeiro de 2017. Zinho é irmão de Wellington da Silva Braga, o Ecko, atual líder da Liga da Justiça, milícia que atua na Zona Oeste da capital fluminense. Flagrado cometendo crime ambiental e mesmo com um mandado de prisão em aberto por participação em organização criminosa, pagou R$ 20 mil em propina para os policiais civis que o levaram. E segue foragido.

Relatório produzido pelo setor de inteligência da extinta Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro, obtido por VEJA, revela os detalhes daquele acerto, e mostra como a policiais civis agiram para não prendê-lo.

O documento está nos autos da segunda fase da Operação Quarto Elemento, deflagrada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em agosto do ano passado para desarticular uma quadrilha de policiais que se organizava para identificar criminosos e extorqui-los. Foram presas 43 pessoas.

No caso de Zinho, o flagra se deu enquanto ele cometia um dos crimes mais lucrativos para milícias fluminenses: a exploração irregular do solo, para posterior venda de lotes ou construção de prédios irregulares. No dia 06 de janeiro de 2017, uma equipe da 36ª DP passou por um terreno na altura do bairro de Paciência e estranharam a presença de um Porsche Cayenne – veículo cujo modelo mais barato custa 420 mil reais – em um terreno em que máquinas estavam revirando o solo.

Lá encontraram Zinho, irmão de Ecko e de Carlinhos Três Pontes, então chefe da Liga da Justiça, morto em agosto de 2017. À época, Zinho já era condenado a mais de 16 anos de prisão por participar da milícia, e tocava a empresa de terraplanagem, a Macla Extração de Comércio de Saibro, usada pela milícia para prática de crimes como extração ilegal de areia e barro, bem como loteamentos irregulares.

Levado para delegacia, Zinho negociou por cerca de três horas com o policial civil Ricardo da Costa Canavarro, conhecido como Ricardinho. Mesmo alertado pelo miliciano que a quadrilha já pagava propina mensal para 36ªDP, Ricardinho não desistiu e inventou que Zinho era alvo de outra investigação, como forma de conseguir aumentar o valor da “fiança”. No fim das contas, conseguiu 20 mil reais, que foram divididos entre ele e mais quatro policiais – incluindo dois delegados, Thiago Luís e Rodrigo Santoro.

Pouco depois da “prisão” de Zinho, informantes da milícia entraram em contato com Delmo Fernandes, policial civil que tinha participação ativa no esquema de corrupção. Assustado com a repercussão da captura do miliciano dentro da própria Polícia Civil, ele enviou mensagens de áudio para Ricardinho:

Delmo (12:04hs): Olha só, acho melhor cara, olha só “compade”, antes de você fazer qualquer coisa com relação a algumas, ai cara, tú tem que falar comigo! Entendeu RICARDINHO? Se não essa porra vai dar..

Delmo (12:04hs): Entendeu “compade”? Tem que falar, tem que resolver essa porra aqui, que está um disse me disse, toda hora fica nego me ligando ai, essa porra vai acabar dando problema. Entendeu? Acho melhor a gente…

Delmo (12:04hs): Organizar isso aí, que isso ai é capaz de dar problema. Quem, qual foi o problema aí, cara, o que vocês pegaram aí?

Delmo (12:05hs): É, mas tem que ver isso “compade”, tem que ver isso aí, isso aí, isso ai vai dar problema, cara, eu acho melhor… Entendeu? Toda hora ligando, essa porra acabar vai acabar dando merda ai, sabe que essas porras dão…

Delmo (12:07hs): Pô cara, fala para os seus amigos aí, teus informantes aí que eu quero é prisão, cara, agora é, porra, essas “caozadas” aí meu parceiro só trás problema. Entendeu? E daqui a pouco nego está arrumando pica para gente aí.

Delmo (12:07hs): … bem o que aconteceu lá, lá, lá na 34DP. Entendeu?

Delmo (12:07hs): Você tá arrolando geral aí , daqui a pouco você está arrumando pica aí.

Delmo (12:09hs): Vou ter que travar, RICARDINHO. Entendeu? Vou ter que travar esse tipo de trabalho. Entendeu? Isso aí, meu irmão, é só dor de cabeça, parceiro, só dor de cabeça. Entendeu? No final é uma merre…

Delmo (12:09hs): Merreca do caralho, e é só dor de cabeça parceiro, se for assim vou ter que travar esse tipo de trabalho.

O relatório também mostra que, conscientes da importância do preso, os policiais da 36ªDP agiram para tirar o nome de Zinho dos registros: alteraram duas vezes o registro da ocorrência e apagaram do sistema o depoimento em que o miliciano admitia envolvimento com a exploração irregular do terreno em que foi abordado.

Ricardinho, Delmo e os outro policiais foram presos no âmbito da Operação Quarto Elemento. Mas Zinho e Ecko, líderes da Liga da Justiça, continuam soltos.