Okky de Souza: Elegância e profundidade
O jornalista morreu no domingo 6, em São Paulo, aos 73 anos
De olhar doce e fala mansa, Okky de Souza — abreviatura cool para o bem mais formal Octavio Chaves de Souza, ambos apropriados para sua dupla cidadania, brasileira e britânica — começou a construir no Rio de Janeiro dos anos 1970 uma carreira prolifica e brilhante dentro do jornalismo brasileiro, partindo da imprensa musical independente carioca para, mais tarde, vir a integrar por mais de três décadas a equipe de VEJA. Dono de profundo conhecimento e com o faro de repórter detalhista, no decorrer de quase meio século de atividade Okky soube detectar tendências e apontar os caminhos do pop e do rock feitos no Brasil e no mundo durante períodos de enorme efervescência cultural.
Seus primeiros passos profissionais se deram na versão brasileira da Rolling Stone que circulou entre 1972 e 1973. Em seguida, mudou-se para o fascículo Rock, a História e a Glória e, quando aquele projeto naufragou, na segunda metade da década de 1970, rumou para a revista POP, editada em São Paulo pela Editora Abril. Pioneira na cobertura cultural do país, a publicação se valeu da cabeça aberta e dos ouvidos afinados do jornalista, que enxergava a produção de textos sobre entretenimento como algo que deveria ser leve, popular, divertido, imediato, mas profundo — lições que este que vos escreve teve o prazer de aprender trabalhando com o próprio Okky naquela revista.
Ele coordenou a POP até 1981, antes de ser contratado por VEJA, na editoria de artes e espetáculos. Era capaz de escrever tanto para leitores tão letrados como ele quanto para o público que buscava dicas e orientações que ajudassem a distinguir o joio do trigo musical em meio a uma selva cada vez mais densa de novidades. Nas críticas a shows e em lançamentos de álbuns, quando julgava necessário, era mordaz e implacável, mas sem jamais perder a elegância. Além disso, capturou ao longo da carreira entrevistas reveladoras com um elenco de artistas que vai de Mick Jagger e Tina Turner a Menudo e Rita Lee — à qual nomeou Rainha do Rock numa matéria de capa histórica de VEJA, em 1983, na qual destacava o abrasileiramento pelo qual passava o rock, muito graças a ela.
Transitando pelo meio, flertou também com a produção musical. Chegou a compor canções, entre elas Sol do Meio-Dia, parceria com Guilherme Arantes, de 1982. Ficou tão próximo de Roberto Carlos que conquistou a confiança do Rei e foi até nomeado pelo cantor para escrever sua biografia autorizada — projeto que, infelizmente, não se concretizou.
Em VEJA, assinou e supervisionou matérias sobre assuntos bem diversos de seu campo inicial de interesse, incluindo ciência, religião e meio ambiente. Finalizou sua passagem pela revista em 2015, como editor-executivo. Okky morreu no domingo 6, em São Paulo, aos 73 anos, de parada cardíaca.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012







