O alemão que se dedica a recontar a história do Brasil da época da colonização
O escritor Detlef Günter Thiel se especializou em obras sobre Hans Staden, autor do primeiro grande-best seller sobre o país
Em 1525, há exatos 500 anos, portanto, nasceu na cidade de Homberg/Efze, na Alemanha, o personagem responsável por escrever o primeiro best-seller a respeito do Brasil. No livro Verdadeira história de uma terra de selvagens nus e canibais chamada Brasil, publicado na Europa em 1557, o autor descreve duas passagens pela terra recém-descoberta. A segunda viagem foi mais impressionante e dramática, com o relato dos apuros que ele viveu ao ser capturado por integrantes da tribo dos tupinambás enquanto trabalhava como artilheiro de um forte na região do canal de Bertioga, em São Paulo.
Durou nove meses o cativeiro junto a seus algozes, que cultivavam o hábito de devorar inimigos derrotados. Staden escapou por pouco dos canibais (franceses negociaram a soltura dele) e a história publicada, em edição acompanhada de ilustrações de animais e plantas, além de descrições de rituais indígenas e de costumes exóticos, tornou-se um clássico.
Nascido em Berlim, o escritor e arquiteto Detlef Günter Thiel é hoje um dos principais responsáveis por manter viva a memória do conterrâneo, com três livros publicados no Brasil a respeito dele, todos pela Flor do Tempo Editora. No ano passado, a obra Hans Staden: sua alma, minha alma? Sobre lansquenetes e outros aventureiros foi publicada em duas versões. Em 2025, de forma a comemorar os 500 anos do nascimento do aventureiro, publicou Hans Staden viajante no Tempo, uma interessante versão em HQ sobre a famosa saga.
Gunter fala português fluentemente, idioma que aprendeu quando trabalhava por aqui no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, IPT, em São Paulo. Ele nada sabia sobre a saga de Hans Staden até construir sua casa de praia em Bertioga, no começo da década de 80. Ali, visitou o Forte São João, justamente o local onde Staden trabalhou como artilheiro. Comprou depois o livro do conterrâneo e nunca mais parou de estudar o assunto. “Lendo a obra, fiquei espantado. Comparada à atual paisagem de Bertioga, fora algumas construções, nada mudou em 450 anos”, conta.
Na entrevista a seguir, Gunter fala mais sobre o seu trabalho e a importância da história de Hans Staden:
Como tem sido a repercussão de seu trabalho sobre Hans Staden no Brasil e na Alemanha? Hans Staden só ficou conhecido em sua cidade natal de Homberg/Efze e na cidade onde ele faleceu, Wolfhagen. As duas cidades batalham para fazer o Hans Staden mais conhecido, mas não é um trabalho fácil.
No Brasil, Monteiro Lobato ajudou a popularizar Hans Staden com a versão da história dele para o público infantil. O que o senhor acha dessa obra? Lobato escreveu As aventuras De Hans Staden dando vida brasileira a essa história, com ajuda da querida avó Dona Benta e seus netinhos – a nação brasileira inteira ama a Dona Benta! Este livro brasileiro é “culpado” pelo fato de o Brasil conhecer melhor Hans Staden do que a própria Alemanha. O livro de Monteiro Lobato termina com Dona Benta contando: “Hans regressou à sua pátria, onde escreveu o livro em que conta estas histórias, livro precioso para nós, porque foi o primeiro publicado a respeito de coisas do nosso país”. Quando a Dona Benta fala essas últimas palavras, meu livro sobre Hans Staden dá continuidade a essa história – sem interrompê-la – com a cena do Hans Staden sentado na mesa, escrevendo suas últimas palavras para seu livro, o da Verdadeira história.
Na sua opinião, como Hans Staden conseguiu escapar dos tupinambás? No livro, ele conta que bateu o pé para mostrar aos tupinambás que ele não era um inimigo português. Ele tinha cabelos ruivos e nenhum português tem cabelos ruivos – são todos morenos! Na dúvida, os tupinambás deixaram Hans Staden vivo, como se fosse um membro da tribo. No final, reclamaram que haviam tratado Staden como se fosse um filho próprio, de acordo com um cacique dos tupinambás! Os franceses libertaram o Hans Staden tinham planos: eles estavam se preparando para fundir a França Antártica no Rio de Janeiro e o líder dos franceses, Nicolas Durand de Villegagnon, que tocou este projeto na França, precisava de informações sobre o Brasil fornecidas pelo Hans Staden. Eles tiveram uma conversa na cidade de Honfleur em 1555! Podemos dizer que as informações do Hans Staden dadas em Honfleur em 1555 ajudavam nas medidas de preparação de viagem dos franceses para fundir mais tarde a França Antártica! Hans Staden estava sempre no pulso da história mundial e as personagens importantes da época do século XVI!!
Em suas pesquisas, qual foi até agora a descoberta mais significativa sobre esse personagem histórico? Meu livro “Hans Staden: sua alma – minha alma?” conta as aventuras do Hans Staden no período em que ele voltou em 1555 à casa de seus pais em Homberg/Efze, Alemanha, até ao seu falecimento em 1576. Este relato tem novidades que eram desconhecidas no Brasil. Depois do lançamento dessa obra, em Lisboa, eu fui pesquisar no museu Torre do Tombo em 24 de abril de 2018 e achei a carta do capitão Penteado com quem o Hans Staden fez sua primeira viagem ao Brasil em 1548 – uma sensação! Pela carta do capitão Antônio Martins Penteado ao El Rei João III, do 30 de julho de 1648, sabemos pela primeira vez o nome completo do Antônio Martins Penteado – um belo resgate, não? Quando escrevi meu livro sobre Hans Staden, confesso que não sabia quem era o Monteiro Lobato e muito menos quem era a Dona Benta! Mesmo assim o destino que meu texto acabasse se encaixando perfeitamente no texto do Monteiro Lobato. Coincidência? Como autor, não somente recontei a história do Brasil, mas tratei também de completá-la, contando novidades históricas que não eram conhecidas até então no Brasil.
Tem outros projetos em mente relacionados a Hans Staden para os próximos anos? No ano que vem quero que as cidades de Ubatuba, Homberg/Efze e Wolfhagen assinem contratos para formalizar o intercâmbio entre elas, um projeto que estou tentando realizar com meu amigo Charles Medeiros, de Ubatuba. Ele, para a parte brasileira e eu, na parte alemã.





