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Mário Peixoto tinha mais poder que Pastor Everaldo no governo Witzel

Em delação premiada, Edmar Santos, ex-secretário estadual de Saúde do Rio, detalha esquema no Palácio Guanabara

Por Cássio Bruno, Sofia Cerqueira, Ricardo Ferraz, Jana Sampaio - 28 ago 2020, 16h25

O acordo de delação premiada de Edmar Santos, ex-secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, ocorreu antes de sua prisão, em 10 de julho. Segundo a Procuradoria Geral da República (PGR), o depoimento de Santos foi gravado entre 24 e 26 de junho. As reuniões tiveram participação de membros da PGR e de agentes da Polícia Federal. Nos encontros, o ex-secretário contou detalhes da suposta organização criminosa montada no coração do governo Wilson Witzel para desviar dinheiro público. Santos revelou, por exemplo, que o esquema foi montado ainda em 2018, antes de Witzel ser eleito. Após a vitória nas urnas, afirma Edmar Santos, outras secretarias estaduais, além da Saúde, foram alvos de loteamento dos integrantes dos três grupos que operam dentro do Palácio Guanabara.

Edmar Santos relatou que a estrutura da corrupção estava dividida pelos seguintes grupos: o do empresário Mário Peixoto, preso na Operação Favorito e principal fornecedor de mão-de-obra terceirizada no governo; a do pastor Everaldo Dias Pereira, presidente nacional do Partido Social Cristão (PSC), legenda de Witzel; e de José Carlos de Melo, empresário, ex-pró-reitor Administrativo da Universidade Iguaçu (Unig) e ex-jogador de futebol. Everaldo foi preso nesta sexta-feira, 28. VEJA teve acesso à delação de Edmar Santos. O ex-secretário descreveu assim a influência de cada um deles:

“Que é o grupo (de Mário Peixoto) o mais importante e que detém mais poder no Estado; Que Wilson Witzel atribui a sua vitória eleitoral a Mário Peixoto; que a interlocução de Witzel com Peixoto se dava por meio de Lucas Tristão (ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e também preso nesta sexta-feira), que era pessoa de confiança de ambos; que, segundo relatos de Edson Torres (operador financeiro de pastor Everaldo), duas pastas tinham muita influência de Mário Peixoto: Educação e Ciência e Tecnologia; que o secretário de Educação é Pedro Fernandes e, o de Ciência e Tecnologia, Leonardo Rodrigues”, diz um dos trechos do documento.

Em seguida, Edmar Santos fala sobre o grupo liderado por pastor Everaldo na hierarquia: “Que o segundo grupo é o do pastor Everaldo; que os grupos de pastor Everaldo tem equivalente importância ao grupo de Mário Peixoto; que ambos tem acesso direto ao governador; que quanto às vantagens ilícitas, o grupo de Mário Peixoto é maior que o do pastor; que o grupo do pastor Everaldo tem forte influência na Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto), Detran (Departamento de Trânsito) e Saúde”.

Em 7 de junho, VEJA  revelou com exclusividade a influência de José Carlos de Melo no governo Witzel. No depoimento, Edmar Santos confirmou o poder do ex-zagueiro do Itaperuna, time que disputou a Série C do Campeonato Carioca este ano.

“José Carlos fazia parte do grupo de Mário Peixoto mas ao longo do tempo ele se distancia; Que José Carlos conseguia transitar tanto com o grupo de Mário Peixoto quanto com o grupo do pastor Everaldo; Que Peixoto e Everaldo viviam em constante tensão; Que José Carlos tinha algumas características próprias, como não ter empresas que prestassem serviço ao Poder Público; Que José Carlos atuava apenas fazendo o ‘agenciamento’ de diversas empresas junto ao Governo e recebendo valores em razão dessa intermediação; que o colaborador sabe citar como exemplo a contratação da empresa que retirou as algas da Cedae no episódio conhecido como GEOSMINA; Que José Carlos possuía grande quantidade de dinheiro em espécie, o que era um diferencial com relação aos outros grupos; que a terceira característica importante de José Carlos de Melo era que ele há algum tempo investia em deputados, tendo uma base de 10 a 12 deputados estaduais na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio)”.

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