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Ex-jogador de futebol ligado a bicheiros é peça-chave no governo Witzel

José Carlos de Melo, atual pró-reitor de uma universidade privada na Baixada Fluminense, opera nos bastidores da gestão estadual do Rio de Janeiro

Por Cássio Bruno Atualizado em 8 jun 2020, 19h38 - Publicado em 7 jun 2020, 15h11

Na década de 1980, quando era zagueiro do Itaperuna, ele sonhava com uma carreira de sucesso. Mas, dentro de campo, só vestiu a camisa do inexpressivo clube da Região Noroeste do Rio de Janeiro, hoje na Série C do Campeonato Carioca. Pendurou as chuteiras nos anos de 1990 e nunca ganhou um título como profissional do futebol. Mais de 30 anos depois da frustração nos gramados, a grande jogada de José Carlos de Melo foi na política. Pró-reitor administrativo da Universidade Iguaçu (Unig), instituição privada na Baixada Fluminense, Zé Carlos, como é conhecido, tornou-se peça-chave no governo de Wilson Witzel, que enfrenta denúncias de corrupção. Com atuação discreta no poder, o ex-atleta opera nos bastidores e sua influência vai desde indicações a cargos em secretarias e outros órgãos do Palácio Guanabara até intermediações em contratos milionários, segundo apurou VEJA. E não é só: amigo de bicheiros, o empresário é muito procurado por candidatos em campanhas eleitorais para terem seu apoio nas urnas.

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Como Zé Carlos de Melo chegou a Wilson Witzel? A resposta está em Nova Iguaçu, onde fica o maior e principal campus da Unig. Nelson Bornier (PSC), ex-prefeito da cidade da Baixada, estreitou os laços do pró-reitor, um amigo de longa data, com o pastor Everaldo Dias Pereira, dono do PSC, partido do governador, e com o braço direito dele, Edson Torres. Segundo relatório da Polícia Federal sobre uma investigação de repasses de recursos do partido envolvendo o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB), preso na Lava Jato, e o ex-ministro Geddel Vieira Lima, ambos do MDB, a dupla Everaldo-Torres é sócia em negócios. Os dois sugeriram o nome do ex-zagueiro a Witzel. O ano era 2018. Azarão naquela disputa pós-gestão Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, também presos na Lava Jato, o ex-juiz federal, com discurso pelo fim da roubalheira e surfando na onda Bolsonaro, havia acabado de chegar ao segundo turno contra o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), o favorito.

Já com Witzel sentado na cadeira do Guanabara, Zé Carlos ganhou a confiança do governador embora não tenha assumido qualquer cargo oficialmente. No entanto, o pró-reitor tem passe livre para transitar e operar entre as duas grandes forças dentro do governo: uma delas liderada pelo Pastor Everaldo e a outra pelo empresário Mário Peixoto, preso na Operação Favorito por suspeitas de participação em irregularidades em contratos emergenciais na área da Saúde. Peixoto é ligado ao advogado Lucas Tristão, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais. Tristão foi exonerado recentemente após pressão da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) – os deputados têm em mãos 10 pedidos de impeachment contra Witzel após o escândalo de corrupção, principalmente o que diz respeito à construção de hospitais de campanha para atender pacientes com Covid-19.

O sucesso de Witzel na eleição rendeu bons frutos para Zé Carlos. Um dos exemplos está relacionado à City Works Ambiental. Com sede no bairro Moquetá, em Nova Iguaçu, a empresa tem como sócio oficial Pedro Mário Nardelli Filho. De uma das famílias mais tradicionais da região e diretor de futebol do Bangu, Pedro é muito próximo do pró-reitor e também de Bornier, pai de Felipe Bornier, secretário de Esporte, Lazer e Juventude de Witzel. Só na Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio (Cedae), a City Work ganhou três contratos sem licitação. A publicação saiu nas edições de 12 de junho e 9 de dezembro de 2019 e de 29 de abril deste ano do Diário Oficial. No total, a City Works embolsou 62 milhões de reais para fazer serviços de reparo e manutenção de ramais e ligações prediais do sistema de abastecimento de água e esgoto.

José Carlos, zagueiro do Itaperuna, em um duelo contra o Flamengo, em 1990 Reprodução/VEJA.com

Os negócios da City Works não param por aí. Graças ao empenho de Zé Carlos de Melo a empresa conquistou outro contrato milionário, novamente sem licitação, desta vez com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), vinculado à Secretaria do Meio Ambiente, comandada por Altineu Côrtes (PR). Lá, a City Works abocanhou 2,5 milhões de reais para realizar a limpeza emergencial no sistema lagunar de Jacarepaguá, na Zona Oeste da capital. O sucesso da empreitada foi registrado por Pedro Mário Nardelli Filho nas redes sociais: “Nós, da City Works Ambiental, temos muito orgulho de embarcar nessa missão. Com plena ciência dos problemas que ainda existem, mas com a certeza que a solução está a caminho. Com metas consistentes e melhorias determinadas”, escreveu o empresário iguaçuano.

Embora o CPF de Zé Carlos não apareça nas prestações oficiais de contas de candidatos à Justiça Eleitoral, políticos – de todas as correntes ideológicas – vão em romaria rumo à casa dele desde antes das eleições. As reuniões, regadas a vinho – o pró-reitor é um apreciador da bebida -, ocorrem em sua mansão, no Santa Mônica Jardins, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. No luxuoso condomínio, não há imóveis com valor inferior a cinco milhões de reais. Apaixonado por carros esportivos, o ex-zagueiro do Itaperuna até antes da pandemia marcava seus encontros também no restaurante Fratelli, na Barra. Pelo menos sete políticos confirmaram à reportagem de VEJA que se encontraram com Zé Carlos nesses dois endereços. Eles preferem ficar no anonimato. O pró-reitor da Unig raramente frequenta eventos públicos. Não tem perfil nas redes sociais e nunca é fotografado ao lado de autoridades. Para ele, a discrição é a alma do negócio.

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A regra só é quebrada quando o pedido é de velhos amigos dos tempos de Itaperuna. Na internet, há um vídeo em que Zé Carlos está presente na festa de aniversário, em 2016, do bicheiro Roberto Sued, o Troca-Letra, ex-presidente do clube. No evento, estavam presentes o ex-deputado federal Simão Sessim (PP), primo do contraventor Aniz Abraão David, o Anísio da Beija-flor, além do prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB). O pró-reitor é querido pela família de Anísio. Depois de perder a eleição em 2018, Sessim ganhou de Wilson Witzel o cargo de representante de sua gestão em Brasília. Em 2019, novamente ao lado de Roberto Troca-Letra e do ex-jogador Adriano Imperador, Zé Carlos participou de ação social, com uma doação financeira para uma instituição da cidade. Tudo registrado pela imprensa local.

  • No gabinete de Zé Carlos de Melo na Unig, que oferece pelo menos 17 cursos de graduação, políticos formam fila para conquistar outro quinhão: as tão desejadas bolsas de estudos destinadas a cabos eleitorais e familiares. Para se ter uma ideia, a mensalidade do curso de Medicina custa, em média, 9 300 reais. Um dos campeões de descontos no pagamento é o deputado federal Luiz Antônio Teixeira Júnior, o Dr. Luizinho (PP). Médico formado na instituição e amigo do pró-reitor, o parlamentar já o ajudou a se reunir com aliados. Em 2018, sua coligação, o “Rio quer Paz”, contava com candidatos do DEM, MDB e PTB. Antes de se eleger, Dr. Luizinho ocupou as secretarias de Saúde das gestões Bornier, na prefeitura de Nova Iguaçu, e Pezão, no governo estadual. O deputado tem Anísio da Beija-Flor como um “padrinho”, como costuma chamar carinhosamente o bicheiro.

    Depois que abandonou a carreira de jogador de futebol, Zé Carlos começou a trabalhar no campus da Unig em Itaperuna. Caiu nas graças do ex-deputado federal Fábio Raunheitti (PTB), morto em 2005. Passou por várias funções até assumir o comando da instituição naquele município. Raunheitti, proprietário da Unig, teve um currículo manchado por casos de corrupção. Foi cassado após o episódio que ficou conhecido como o escândalo dos Anões do Orçamento, em 1993. No Congresso, ele votou a favor da legalização do jogo do bicho. Na Alerj, o ex-zagueiro atuou ainda como chefe de gabinete do ex-deputado estadual Fábio Gonçalves, o Fabinho, um dos filhos de Raunheitti. Médico, Fabinho chegou a ficar preso.

    Após a morte de Fábio Raunheitti, parentes iniciaram uma guerra judicial pelo espólio do patriarca. No meio do conflito familiar, Zé Carlos ficou à frente de toda a instituição, que, ao longo dos anos, foi alvo de ações judiciais e denúncias de venda de diplomas. Em meio à crise financeira da Unig, em 2013, a prefeitura de Nova Iguaçu comprou a universidade por 15 milhões de reais por meio de leilão judicial. O dinheiro saiu dos cofres do Instituto de Previdência dos Servidores Municipais (Previni). A operação teve autorização da Câmara de Vereadores. Pelo acordo, a universidade pagaria um aluguel para usar o complexo. À época, o prefeito era Nelson Bornier, o responsável pela chegada de Zé Carlos ao governo Witzel.

    Procurado por VEJA, Wilson Witzel ainda não respondeu.

    Em nota, Zé Carlos informou a VEJA que não mantém contato com o governador Wilson Witzel. Mas, sem citar nomes, admitiu se encontrar com “autoridades públicas” por causa do cargo que ocupa na Unig:  “todo e qualquer contato com autoridades públicas sempre se deu e dará dentro de elevados padrões morais, éticos e legais”, disse. O ex-zagueiro afirmou também ter concedido bolsas de estudos para 4.180 alunos, em 2019, segundo ele, fora do período eleitoral. Mas não revelou a quantidade oferecida nos anos anteriores.

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