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Fantasias da Grande Rio seriam entregues daqui a 15 dias

Escola guardou todas as roupas do desfile na Cidade do Samba para protegê-las das chuvas de verão, que costumam provocar enchentes na Baixada Fluminense

Por Cecília Ritto 7 fev 2011, 17h41

“Largo o emprego, largo tudo pela escola. Não fui ao trabalho hoje. E, se me mandarem embora, vou ficar satisfeito porque poderei vir todos os dias ajudar a minha agremiação. Se cortar meu braço, sai verde e vermelho. É Grande Rio no coração”, diz Wagner Ramos, ritmista da escola de Duque de Caxias

“Falta o chão”. É assim que o presidente da escola de samba Grande Rio, Helinho de Oliveira, define o momento. A tristeza compartilhada entre os integrantes da agremiação ocupou a Cidade do Samba, atingida por um incêndio na manhã desta segunda-feira. Quando se pensa, então, que a perda de todas as fantasias e alegorias foi por causa de um excesso de precaução, a dor parece maior. “Deixamos para entregar as fantasias com 15 dias (antes do desfile), por causa das enchentes, que todo mundo sabe que acontece na Baixada (onde fica a Grande Rio). Corremos da água lá, o fogo pegou a gente aqui”, lamenta Helinho.

Incêndio atinge a Cidade do Samba, no Rio de Janeiro. Na foto, o integrante da Grande Rio  Wagner Ramos
Incêndio atinge a Cidade do Samba, no Rio de Janeiro. Na foto, o integrante da Grande Rio Wagner Ramos VEJA

A palavra de ordem agora é colaboração. Na luta contra o relógio, para tentar refazer o que demorou quase um ano para ficar pronto, os devotos de cada escola foram à Cidade do Samba ver o tamanho do desastre e oferecer ajuda para recomeçar os trabalhos. “Largo o emprego, largo tudo pela escola. Não fui ao trabalho hoje. E, se me mandarem embora, vou ficar satisfeito porque poderei vir todos os dias ajudar a minha agremiação. Se cortar meu braço, sai verde e vermelho. É Grande Rio no coração”, diz o ritmista da escola de Duque de Caxias Wagner Ramos, que toca agogô. Há três meses, ele tatuou o símbolo da Grande Rio com a frase “bateria invocada” no braço esquerdo. E faz uma das poucas promessas que poderá ser cumprida: “Agora, a bateria será ainda mais invocada”.

A primeira porta-bandeira da escola, Squel Jorgea, estava atônita. “Passei o meu sábado todo aqui na Cidade do Samba. Fiquei das 10h às 20h. Vi a minha roupa, fiz teste de maquiagem e de cabelo. Estou apavorada.” Das três escolas atingidas, a Grande Rio é a que passa por maior sofrimento. A escola prometia um desfile digno de primeiro lugar, com o enredo em homenagem a cidade de Florianópolis, chamado ‘Y-Jurerê mirim- A encantadora Ilha das Bruxas (Um conto de Cascais)’. A escola amargou três vices campeonatos- 2006, 2007 e 2010- e esperava livrar-se da pecha de “quase campeã” em 2011.

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Incêndio atinge a Cidade do Samba, no Rio de Janeiro. Na foto, Dona Neide Chavez da Portela, emocionada com a tragédia
Incêndio atinge a Cidade do Samba, no Rio de Janeiro. Na foto, Dona Neide Chavez da Portela, emocionada com a tragédia VEJA

Mesmo quem não prometia um carnaval tão esplendoroso, como é o caso da Portela, chorou ao ver ser destruído em dez minutos todo o esforço dedicado ao desfile. A coordenadora da ala das passistas da escola de Madureira, Nilce Fran, chorava pelas fantasias de suas garotas. As 120 passistas sairiam de índias, mas não sobrou nada. “A Portela não vai disputar o carnaval, nós temos essa convicção. Mas vamos passar pela avenida com dignidade e respeito”, fala Nilce, tentando conter o choro.

Mutirão – Na Portela, os componentes falam em mutirão para refazer as cerca de 2800 fantasias queimadas. “A família portelense é guerreira”, argumenta Nilce. Neide Chávez, de 67 anos, desfila há 38. E disponibilizou as mãos para costurar e refazer os adereços. “E quem não sabe aprende”, dá o recado. O esforço para manter a confiança não durou muito. Nilce, que carrega a cor de sua escola até nas sobrancelhas, marcadas por um forte lápis azul, encerrou a conversa desolada. “Estou triste. É começar tudo do nada. Vamos ter de lutar.”

A desventura na Cidade do Samba também contagiou o compositor da União da Ilha Carlos Augusto Oliveira, que perdeu para o fogo duas mil fantasias e um carro alegórico. Já foram doadas para a Ilha 30 máquinas de costura, o que é considerado providencial pela escola, uma vez que todo o maquinário foi danificado. O lixo que havia sido jogado fora da agremiação já foi revirado e coletado para virar fantasia. O trabalho ainda será grande. Mas o que emociona Carlos é o sofrimento dos amigos da Grande Rio.

“Quando começamos a tirar os carros alegóricos de manhã, vimos o presidente da Grande Rio, Helinho de Oliveira, desesperado porque não podia entrar no barracão. Nós achávamos que os incêndios estavam banidos do carnaval. Achei que isso seria impossível de acontecer. Mas não era”, diz o compositor para acrescentar: “Estou chorando pela Grande Rio. Gosto de carnaval. A disputa é só na avenida. Carnaval é coisa de família.”

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