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Carta ao Leitor: O público e o privado

Nas últimas quatro semanas, jornalistas da sucursal de VEJA em Brasília lidaram de perto com esses dois universos

É tradição do jornalismo brasileiro preservar a intimidade de políticos e autoridades. Os jornalistas encarregados da cobertura do poder costumam ter contato com histórias sobre relações extraconjugais, filhos fora do casamento e brigas domésticas em palácio — mas nada disso é exatamente assunto de interesse público. VEJA, assim como outros órgãos de imprensa, tem por princípio noticiar apenas aquilo que, embora nascido no universo privado, seja claramente do interesse dos contribuintes e eleitores. Se um presidente da República tem uma relação conjugal heterodoxa, é uma questão privada. Se usa dinheiro público para pagar despesas de sua vida íntima, é assunto de todos os cidadãos — e, nesse caso, é dever da imprensa noticiar.

Nas últimas quatro semanas, os repórteres Hugo Marques e Nonato Viegas e o editor Thiago Bronzatto, todos os três da sucursal de VEJA em Brasília, lidaram de perto com o público e o privado. Eles souberam que na 1ª Vara de Família do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro estava arquivado um processo que revelava um lado desconhecido do presidenciável Jair Bolsonaro. “Fatos surpreendentes”, segundo a fonte dos jornalistas. Vasculhando os cadastros oficiais, Marques localizou o documento. Era o processo da separação litigiosa de Bolsonaro e sua então mulher, Ana Cristina. Com o material em mãos, os três fizeram entrevistas, cruzaram dados, checaram papéis e, num trabalho criterioso, desprezaram tudo o que fosse da relação privada do ex-casal, jogando luz apenas sobre os aspectos de interesse público. A reportagem publicada nesta edição é o resultado desse cuidado.

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Em 5 de outubro, a Constituição brasileira completa trinta anos de existência. Em vez de rememorar a saga da Assembleia Constituinte e inventariar as mudanças promovidas ao longo dessas três décadas, VEJA traz uma análise voltada para o futuro. Texto do jornalista Eduardo Oinegue faz um mergulho nas dificuldades de modernizar a Carta e nos entraves que ela representou para o funcionamento dos três poderes. Artigo do ex-ministro Maílson da Nóbrega mostra, numa exposição exaustiva, a lista de disparates que o texto constitucional deixou passar.

Em ambos, fica evidente que uma reforma constitucional é um imperativo urgente para o Brasil, caso o país queira crescer e modernizar-se.

 

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602