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Após tragédia, moradores de prédio que ruiu procuram líderes sem-teto

Ao menos 120 famílias pagavam até 500 reais por mês a um homem chamado Ananias, ligado ao MLSM; ninguém do grupo foi conversar com os desabrigados

Por Da Redação - Atualizado em 2 Maio 2018, 20h09 - Publicado em 2 Maio 2018, 17h56

Um dia depois do incêndio que provocou o desabamento de um prédio no centro de São Paulo, moradores desabrigados procuram pelos representantes do Movimento Social pela Moradia (MLSM), que organizava a ocupação do edifício. Concentrados no Largo do Paissandu, onde passaram a noite em frente ao local da tragédia, ninguém sabe onde está a coordenação do grupo.

Ao menos 120 famílias viviam no local, e, segundo relatos dos moradores, o custo para viver na ocupação podia chegar a 500 reais por mês — a depender do tamanho do espaço ocupado. De acordo com os desabrigados, um homem identificado apenas como Ananias era quem recolhia o dinheiro. Ele não foi mais visto desde a tragédia e seu paradeiro é desconhecido. Apesar da reticência e receio de alguns habitantes da invasão, o perfil de Ananias em uma rede social, mostrado pela reportagem, foi reconhecido por alguns moradores sob a condição de anonimato.

Apresentando-se com o nome “Ananias Mlsm” no Facebook, sua foto de perfil é uma selfie dentro de um carro com bancos de couro e teto solar. Em destaque em sua página, o homem apontado como responsável pela cobrança dos moradores publicou uma foto do Largo do Paissandu com o edifício que desabou durante o incêndio. Em sua página na rede social, Ananias também mostra fotos de edifícios ocupados em endereços no centro de São Paulo e de famílias em apartamentos com paredes danificadas por infiltrações ou divisórias de madeira.

Seu nome completo, Ananias Pereira, ele revela em uma publicação de maio de 2014 em que anuncia uma pré-candidatura a deputado estadual. A empreitada parece não ter ido para a frente: em setembro ele publicou uma mensagem indicando o candidato Gustavo Petta, do PCdoB, para o cargo – ainda pediu votos para o ex-ministro Orlando Silva, também do PCdoB, candidato a deputado federal.

Reprodução/Reprodução

Algumas imagens também exibem algumas regras a que os moradores devem se submeter: homens não podem andar sem camisa; mulheres não podem usar “roupas curtas”; visitantes têm de ser aprovados e não podem dormir no local. Segundo cartazes em uma das invasões, as informações só podem ser passadas pela coordenação do movimento, que também devem ser o destino de qualquer dúvida dos moradores.

Cobrança

“Todo dia 22, eu pagava 250 reais de aluguel. Quem recolhia o dinheiro era a Dona Nil”, diz a vendedora ambulante Fabiana Ribeiro, de 38 anos. Ela morava no prédio havia quase oito anos, com o marido de 24 anos, a filha de 17 e a neta de 2. “Comecei pagando 100 reais, mas o aluguel foi subindo.” Fabiana conta que o dinheiro se destinava à manutenção do prédio. Dona Nil não foi mais vista pelos moradores depois do incêndio.

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As autointituladas lideranças de outros movimentos apareceram no acampamento improvisado na praça em frente ao prédio que pegou fogo. Em uníssono, eles defendem Ananias. O fundador do Movimento do Grito por Moradia, Ricardo Luciano Lima, de 41 anos, afirma que ele estava viajando quando o acidente ocorreu e passou mal. “Não é justo dizer que ele ficava com o dinheiro arrecadado. Ao contrário, ele punha do próprio bolso para ajudar, diz.

Outro morador, um vendedor ambulante que se identifica apenas como Carlos, 46 anos, também desconfia do dinheiro arrecadado. Ele pagava 110 reais por mês, pois dividia o aluguel com um amigo. “A luz e a água eram ‘gato’, então não tem sentido cobrar por isso”, diz. “É crime cobrar por algo que não é seu”.

A reportagem de VEJA entrou em contato com Andrea, que já coordenou uma ocupação do movimento e morou no prédio que desabou. Ela deixou o local em fevereiro, quando se mudou para mais perto do emprego que conseguiu recentemente. Hoje, ela diz não ter mais contato com Ananias, que só conhece em razão do movimento por moradia, mas já trabalhou com ele vendendo comida nas ruas de São Paulo. “A história dele é de muita batalha. É um homem de família, trabalhador. Ele é camelô e vende cachorro-quente na rua. Já viramos muita noite trabalhando.”

Além de gastos com limpeza e portaria, Andrea afirma que as “contribuições” cobradas dos moradores  cobriam despesas com advogados, já que, diz, o movimento não conta com auxílio da Defensoria Pública. Ela afirma nunca ter pedido prestação de contas e que todos os moradores sabiam da necessidade de pagamento.

“Eu precisei da ocupação e me deram abrigo. Eu pagava minha contribuição porque eu sabia que valia a pena. O que dava era certinho para pagar porteiro, faxineira e advogado, porque ninguém trabalha de graça. Eu pagava 250 bem pagos”, conta Andrea.

A ex-moradora reforça que os ocupantes das invasões são trabalhadores e que uma das preocupações é evitar a entrada de viciados em drogas. Por outro lado, reconhece que discussões como a do casal na noite que antecedeu o incêndio podiam ser comuns, sobretudo se alguém estivesse alcoolizado. 

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