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Trilogia ‘Rua do Medo’: Netflix usa algoritmo para criar terror nostálgico

Filmes da nova franquia, que estão entre as atrações mais assistidas da plataforma na última semana, são feitos na medida para fãs de sucessos dos anos 1990

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 21 jul 2021, 18h51 - Publicado em 21 jul 2021, 17h41

Novo sucesso da Netflix, a trilogia Rua do Medo – cujo terceiro filme estreou neste fim de semana – conseguiu um feito notável. Todos os três títulos entraram na lista das atrações mais assistidas da plataforma nas últimas semanas. Mérito da qualidade cinematográfica? Não. O mérito vem dos algoritmos a serviço da nostalgia.

Mais uma vez, a Netflix reciclou uma estratégia que vem dando certo desde a série House of Cards: analisar o que os dados de audiência da plataforma indicam para produzir um produto feito sob medida para certa parcela dos espectadores. Há dez anos, a gigante do streaming observou que o público gostava de maratonar séries políticas (o chamado binge watching) e também gostava de filmes de Kevin Spacey dirigidos por David Fincher. Junte-se todos esses elementos e em 2013 veio a premiada House of Cards (inaugurando, inclusive, a prática de divulgar todos os episódios de uma só vez – ideal para maratonar). Em 2016, mais um golaço. A série Stranger Things explorava o interesse pelos anos 1980 ao contar uma história idílica repleta de referências a filmes clássicos como Goonies e Conta Comigo. 

  • Agora, em 2021, a aposta é em filmes do tipo slasher, que fizeram muito sucesso nos anos 1990. Ao notar, por meio de seus algoritmos, que o público gostava de filmes na linha de Pânico, Sexta-feira 13 e Halloween, que têm várias continuações e assim permitem também o binge watching – a Netflix repetiu a estratégia: juntou todas essas referências em Rua do Medo e lançou os três filmes com uma diferença de uma semana entre eles. Vale lembrar que a diretora de Rua do Medo, Leigh Janiak, é esposa um dos showrunners de Stranger Things, Ross Duffer, e que os filmes são baseados nos livros de R. L Stine, autor de Goosebumbs. Sucesso garantido. 

    Mas, com um roteiro sofrível (para não dizer dispensável) e atuações medianas, algo está muito errado quando o principal motivo de interesse por um filme não é da história em si, mas uma boba listagem de referências aos filmes que o inspiraram. Isso explica a falta de qualidade da produção e suas entediantes repetições de clichês, em cenas calculadas para causar sustos gratuitos. Perde-se um logo tempo em discussões inócuas como “esse vilão é uma referência ao filme tal”, em vez de se propor algo totalmente novo.

    A tática de se deixar levar pelos insights que seu algoritmo lhe proporciona sem dúvida é boa para a Netflix, pois ficou provado que isso se reflete em audiência fácil. Mas é ruim para produção cinematográfica como um todo. A sensação é de estar sempre preso em uma bolha de referências antigas que se retroalimentam, sem nunca entregar algo original. A tendência, inclusive, já é observada na TV aberta, em novelas como Totalmente Demais ou Verão 90, que a Globo produziu baseada em pesquisas qualitativas. O sucesso de Rua do Medo mostra que, para o bem e para o mal, a influência dos algoritmos nas produções culturais veio para ficar. Não duvide se a próxima grande produção da plataforma vier, sei lá, das insuportáveis comédias românticas dos anos 2000. Vai saber… Quer dizer: os algoritmos sabem.

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