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Rio Grande do Sul Por Veja correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens gaúchos. Por Paula Sperb, de Porto Alegre

Sem marketing, livro de editora gaúcha é o mais vendido do Brasil

"Sapiens: uma breve história da humanidade" ocupa o primeiro lugar da lista de não-ficção desde maio

Por Paula Sperb - Atualizado em 6 nov 2017, 12h33 - Publicado em 6 nov 2017, 12h29

Sem campanha de marketing e editado no Rio Grande do Sul pela L&PM, “Sapiens: uma breve história da humanidade” já vendeu mais de 230 000 cópias no Brasil e está no topo da lista dos livros de não ficção mais vendidos de VEJA desde maio deste ano. Antes, enquanto não estava em primeiro lugar, a obra já figurava entre os dez mais vendidos de sua categoria desde o ano anterior. São 50 semanas na lista dos dez mais comprados apenas com a divulgação “boca a boca”.

Escrito pelo professor israelense Yuval Noah Harari, o livro de 459 páginas conta a história da humanidade com informações de pesquisas científicas que incluem diferentes campos do conhecimento como antropologia, biologia e até economia. A obra é extensa e custa 59,90 reais, valor que não é exatamente barato para o bolso do brasileiro. Tudo isso faz do livro um fenômeno. “Além do número de páginas, ele trata de um assunto tido como árido. Se a gente tivesse a fórmula do sucesso, seria maravilhoso. A gente não tinha noção do resultado”, contou a VEJA o editor Ivan Pinheiro Machado. Ele é o “PM” do nome da editora que fundou há mais de quarenta anos em Porto Alegre ao lado do também editor Paulo Lima, o “L”.

“O grande mérito do “Sapiens” é a maneira empolgante de contar a história. É quase um thriller sobre como o Homo sapiens se sobrepôs às outras espécies de humanos que havia e como restou apenas ele. É uma aula sobre o básico da humanidade. Tem tanta informação que a pessoa termina o livro saciada, no melhor no sentido, por causa do volume de informação sobre história, vida, civilização. Tudo é contado de uma forma que faz com que as pessoas consigam entender”, explica Machado.

Os direitos autorais para publicação do livro foram adquiridos pela L&PM na Feira de Frankfurt, na Alemanha, mas a obra ainda não era um sucesso mundial. “Uma amiga nossa que trabalha em Israel (país do autor) contou que deveríamos ficar de olho. A gente se interessou e pediu para pessoas especializadas na área de antropologia e história avaliassem. Todos foram unânimes em dizer que era um livro especial”, contou Machado à reportagem.

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Exemplar de Sapiens ao lado d alista dos dez livros mais vendidos de VEJA desta semana Paula Sperb/Divulgação

No Brasil, o livro foi impresso no início de 2015. Atualmente, o livro já foi traduzido para 45 línguas e foi recomendado por figuras como Barack Obama, Mark Zuckerberg e Bill Gates. “A gente trabalha diferente. A gente tem o mérito de descobrir os livros e a dificuldade de manter. As editoras multinacionais sempre vão em cima daqueles que conseguiram o sucesso”, comenta Pinheiro. O segundo livro de Harari, “Homo Deus”, foi publicado pela editora Cia. das Letras. A L&PM chegou a fazer um lance para adquirir os direitos da obra, mas perdeu para a Cia. das Letras, que tem como acionista o grupo internacional Penguin Randon House. “Não tinha condições de concorrer, ofereceram um monte de dinheiro para publicar”, comenta o editor gaúcho sobre o segundo livro do escritor.

Embora não esteja “caçando” sucessos comerciais, a L&PM tem diversas histórias de livros que ocuparam o primeiro lugar da lista dos dez mais vendidos desde o início da sua atuação, em 1974. “O Ballet Proibido”, do então senador gaúcho Paulo Brossard, foi publicado em 1976 com o discurso do político contra a proibição da transmissão de uma apresentação do Ballet Bolshoi, da Rússia, na televisão. “Driblamos a censura publicando os discursos que já estavam nos anais do Senado”, relembra Machado. Dois anos depois, outro best seller: as memórias do general Olympio Mourão Filho sobre a ditadura militar. “Vendeu como Sapiens”, compara o editor.

A trajetória da L&PM também contou com “coincidências” que impulsionaram a venda dos livros. Certa vez, nos anos 1970, Luis Fernando Veríssimo disse a Ivan Pinheiro Machado que havia um escritor “muito engraçado”: Woody Allen. Ruy Castro foi chamado para traduzir “Cuca Fundida”. Em seguida, o filme “Noivo Nervoso, Noiva Neurótica”, de 1977, levou quatro estatuetas do Oscar com cinco indicações e o livro publicado pela L&PM foi novamente o número um. O próprio Luis Fernando Veríssimo, que recomendou a tradução de Woody Allen, foi o mais vendido na L&PM com o “Analista de Bagé”, de 1981, que esgotou a primeira edição em um dia.

Atualmente, a L&PM tem como estratégia os livros de bolso, chamados de “pocket” com um catálogo de estilos variados. “Temos textos leves como Maurício de Sousa, mas tem o núcleo pesado com Franz Kafka e Sócrates”, exemplifica Machado. Para o editor, “Sapiens” se enquadra no “núcleo pesado”. “O livro cabe como uma luva nesse tipo de leitura séria. É profundo, mas tem o mérito de prender o leitor, transforma a história em uma aventura, um suspense com muita informação”, define.

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