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Ricardo Rangel

É hora de votar o impeachment

No desmonte da democracia, Jair Bolsonaro não para

Por Ricardo Rangel Atualizado em 25 jun 2021, 11h05 - Publicado em 25 jun 2021, 06h00

Com as denúncias em torno da vacina Covaxin, Jair Bolsonaro enfrenta sua maior crise até agora. Em um país normal, sua queda seria certa, mas o Brasil não é um país normal, a queda já foi considerada certa antes e ele sobreviveu. O que acontece se sobreviver a mais esta crise?

Jair Bolsonaro não é apenas um radical, é um antidemocrata, acredita não apenas que as pessoas não são iguais, mas que os inferiores (mulheres, homossexuais, negros, pobres, índios) devem se submeter. Com a exceção das mulheres, que teriam a função de satisfazer sexualmente o homem e de procriar, melhor seria que desaparecessem.

Não diz isso com clareza, porque perderia voto, mas já deu incontáveis declarações mostrando que despreza e odeia minorias e, no poder, passou a atacá-­las. A Fundação Palmares persegue a cultura negra. A Funai não defende índios, o Ibama e o ICMBio acobertam desmatadores, grileiros e garimpeiros em terras indígenas. Bolsonaro liberou armas para milícias e as encoraja a matar pretos e pobres nas favelas.

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Bolsonaro vê quem pensa diferente como um inimigo a ser destruído: não há dinheiro para a cultura ou a ciência, o Inpe foi amordaçado, o IBGE foi asfixiado, as universidades estão para fechar, a perseguição à imprensa é permanente, assim como a demonização da esquerda e dos liberais. Até aliados, se não se submetem, são tratados como traidores e descartados.

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“Se o presidente for reeleito em 2022, o Brasil se tornará uma nova Venezuela em poucos anos”

No desmonte da democracia, Bolsonaro não para. O advogado-geral da União, cooptado com a promessa de uma vaga no STF, quer julgar civis em tribunais militares. A reforma administrativa pretende criar 84 000 cargos de livre nomeação, um exército de cabos eleitorais bolsonaristas. A Polícia Federal persegue os delegados independentes e reúne indícios de araque para dar respeitabilidade à tese fictícia da fraude eleitoral, pretexto para melar a eleição do ano que vem. Uma investida nova todo dia.

Cooptado por verbas escusas, o Congresso não aprova o impeachment; o procurador-geral da República, cooptado por recondução ao cargo e futura vaga no STF, não denuncia o presidente. Só o TCU, o STF e a imprensa ainda funcionam, mas com dificuldades.

Só não vê o que está acontecendo no Brasil quem é cúmplice.

Se Bolsonaro, com a ajuda cúmplice de Arthur Lira, do Centrão e de Augusto Aras, sobreviver ao escândalo da Covaxin, poderá sair mais forte do que estava antes. Com a fragmentação do centro e a rejeição a Lula, não é impossível que seja reeleito no ano que vem. Se Bolsonaro for reeleito em 2022, o Brasil se tornará uma nova Venezuela em poucos anos. No Brasil de BolsoChávez, não haverá deputados, nem senadores, nem procuradores-gerais, nem ministros do Supremo. Mas haverá cadeia para muita gente.

É hora de a Câmara sair de seu torpor, recuperar o espírito de Ulysses Guimarães e cumprir com seu dever de votar o impeachment. É hora de o procurador-geral da República sair de seu sono letárgico, salvar o que resta de sua reputação e cumprir seu dever de denunciar o presidente ao Supremo Tribunal Federal.

Publicado em VEJA de 30 de junho de 2021, edição nº 2744

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