Clique e assine com até 92% de desconto
Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Como dar um apoio entusiasmado àquilo que nos destrói. Ou: Não contem para o Jabor!

Ai, ai… A Otan se atrapalhou ao impor a “zona de exclusão aérea” e, supondo que alvejava forças terrestres de Kadafi, acabou matando um grupo de rebeldes. Vocês certamente leram a respeito. Isso aconteceu no meio do deserto. Imaginem o que não se dá com civis num bombardeio “cirúrgico”, no meio de Trípoli… Eu sei […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 12h23 - Publicado em 3 abr 2011, 08h19

Ai, ai…

A Otan se atrapalhou ao impor a “zona de exclusão aérea” e, supondo que alvejava forças terrestres de Kadafi, acabou matando um grupo de rebeldes. Vocês certamente leram a respeito. Isso aconteceu no meio do deserto. Imaginem o que não se dá com civis num bombardeio “cirúrgico”, no meio de Trípoli… Eu sei que há erros em guerras, os danos colaterais etc. Mas, que eu saiba, ninguém declarou guerra à Líbia. Trata-se de uma operação para proteger civis, certo? Obama já vai deixando a categoria do patético para se tornar um líder grotesco. Não por causa do erro da Otan em si, claro!

Vamos ali pro Afeganistão e depois voltamos à Líbia. Mais nove pessoas morreram ontem nos protestos contra os EUA. Seriam uma reação à queima de um exemplar do Corão promovida pelos pastores Wayne Sapp e Terry Jones. Uma ova!!! Nego-me a tratar as coisas dessa maneira porque isso significaria considerar que aquela gente está apenas “reagindo” a uma agressão, como se os dois fossem os reais responsáveis pelos atos terroristas. Não!

Isso é análise política à moda Arnaldo Jabor, segundo quem Bush é só um Osama Bin Laden cristão. Obama, não! Obama é um Kant tentando articular a paz perpétua global. Santo Deus! Os tais pastores são delinqüentes, cretinos, idiotas, vagabundos, irresponsáveis, primitivos, toscos, canalhas? Cada um escolha o xingamento que quiser. Ou todos. Mas quem promoveu os atos extremistas no Afeganistão foi o Taliban, não eles. Nos EUA, é permitido queimar a Bíblia, o Corão, a bandeira americana, a Playboy…  Como vimos ontem, é permitido até agradecer a Deus pela morte de soldados americanos no… Afeganistão! E não precisa ser muçulmano para isso. Os lunáticos que o fazem se dizem cristãos!

CERTAMENTE NÃO É A MELHOR COISA A SE FAZER COM A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E COM A LIBERDADE RELIGIOSA. MAS JUSTAMENTE PORQUE EXISTE A LIBERDADE DE SE FAZER O PIOR, NÃO EXISTE UM ESTADO QUE OBRIGA A FAZER O MELHOR.

Continua após a publicidade

Quem não entende o sentido do que vai acima em negrito e maiúsculas — GRITADO, diriam alguns — não sabe o que é democracia. Isso vale nos EUA, no Brasil e, tomara!, valerá um dia no Afeganistão! Se é que eles vão aprender alguma coisa com o Ocidente. Por enquanto, parece que há gente no Ocidente querendo aprender com eles.

No dia em que o Brasil ou os EUA proibirem manifestações como essa, por mais estúpidas que sejam — ou em que só se puderem emitir as opiniões consideradas honradas e boas —, Brasil e EUA estarão mais próximos do que há de pior no Afeganistão, mas o Afeganistão não estará mais próximo do que ainda restar de melhor no Brasil e nos EUA…

São dias estúpidos!

A patrulha politicamente correta tenta nos deixar um pouco mais parecidos com o Afeganistão e se esforça para ignorar as evidências de que a “Primavera Árabe” pode ser apenas o início de um tenebroso inverno. Encerro reproduzindo um trecho da reportagem de VEJA desta semana, de Diogo Schelp, intitulada “Uma causa suspeita”. Leiam com atenção. Mas escondam do Clóvis Rossi ou do Jabor. Ou  o primeiro escreve mais um artigo defendendo um pouco mais de “utopia” no mundo, e o segundo faz uma metáfora nova.

(…)
O governo americano enviou espiões da CIA à Líbia para descobrir quem são, afinal de contas, os rebeldes líbios. Em depoimento ao Senado, o almirante James Stavridis, comandante militar da Otan, deu uma pista: segundo ele, há informações de que membros da rede terrorista Al Qaeda e do grupo libanês Hezbollah estão participando do levante. Outras organizações radicais muito populares entre os habitantes do leste do país, onde se iniciou o movimento anti-Kadafi, são o Grupo Islâmico de Combate Líbio, cujos integrantes lutaram contra os Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, e a Irmandade Muçulmana, com raiz no Egito. No início de março, a reportagem de VEJA visitou um hospital da Irmandade Muçulmana, no Cairo, e encontrou oito rebeldes líbios recebendo atendimento gratuito para cuidar de ferimentos de combate. Em fevereiro, Yusuf ai Qara-dawi, guia espiritual da Irmandade Mu çulmana, decretou uma fatwa obrigando qualquer soldado líbio a matar Kadafi, se surgir a oportunidade – um indício de que o grupo islâmico espera obter dividendos políticos com a que da do ditador.

A Al Qaeda é mais explícita. Na semana passada, o clérigo americano Anwar ai Awlaki, integrante do grupo terrorista no lêmen, divulgou um artigo na internet em que comemorava o fato de os governos do Ocidente não estarem dando a devida atenção à intensa participação de jihadistas nas manifestações que incendeiam o Oriente Médio desde o início do ano. Awlaki deixou claro que os defensores da criação de estados islâmicos só têm a ganhar com o fato de que, na atual fase dos protestos, haja muçulmanos com idéias seculares que conseguem convencer o Ocidente do caráter democrático dos levantes árabes. A Otan, portanto, está dando apoio militar na Líbia a  inimigos do Ocidente. Falta descobrir se eles compõem 5%, 50% ou 99% das fileiras rebeldes.

Continua após a publicidade
Publicidade