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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A eucaristia macabra de Lula, que está mais para bode do que para cordeiro de Deus

Lula, vocês devem ter visto hoje nos jornais, disse que veio para ficar. A Folha busca paralelos entre seu discurso nos últimos dias e a carta-testamento de Getúlio Vargas. Existe mesmo, guardadas as diferenças de estilo e coragem pessoal — o que não quer dizer grandeza política. Se Lula tivesse caído, jamais se mataria, é […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 23h14 - Publicado em 12 set 2006, 11h25
Lula, vocês devem ter visto hoje nos jornais, disse que veio para ficar. A Folha busca paralelos entre seu discurso nos últimos dias e a carta-testamento de Getúlio Vargas. Existe mesmo, guardadas as diferenças de estilo e coragem pessoal — o que não quer dizer grandeza política. Se Lula tivesse caído, jamais se mataria, é claro. Só mesmo num país onde Frei Betti é filósofo, junto com Marilena Chaui, um ditador que torturou e matou é considerado herói. Carlos Lacerda, que nunca matou ninguém, é bandido. Era golpista, isso é verdade. E Getúlio? Mas sigamos. O que escapou aos jornais é que Lula agora mira em figura histórica de maior relevo. Já não bastam Getúlio, Juscelino ou Jango. Leiam este trecho da fala do Apedeuta num comício ontem, em Goiânia: “Qual é o orgulho que eu tenho? É que hoje vocês têm consciência de que qualquer um de vocês está preparado para governar este país. Cada um de vocês é uma célula do meu corpo, cada um de vocês é uma gota do meu sangue”. Cristo ofereceu simbolicamente pão e o vinho, o corpo e o sangue, sacrificando-se por nós. Nessa eucaristia macabra do Babalorixá de Banânia, também ocorre a transubstanciação, um pouco às avessas, é verdade. Cristo, por metonímia, ofereceu-se em sacrifício em nome da eterna aliança com a humanidade. Lula, que certamente se julga mais esperto, já se vê, digamos, transubstanciado. O povo já o tem incorporado. Ele não é o cordeiro de Deus oferecido em sacrifício, não. Ele está mais para o bode, um bode da exultação ou um bezerro de ouro. Essa fala expõe ainda mais a grandeza e a necessidade da carta de FHC. Ela serve também como advertência do que pode vir. Imaginem se o tucano, quando no poder, falasse algo ligeiramente parecido com isso. O mundo desabaria. Sei que a hipótese é absurda porque é outra a sua natureza, é outro o seu entendimento de política. O máximo de ousadia a que se propunha o ex-presidente era dizer que política é um processo. Quando falou que se tratava de exercitar a “utopia do possível” — certamente um paradoxo, mas que dá conta de que aquele que está no poder não faz tudo o que quer (e é bom que não faça mesmo) —, foi alvo da crítica política botocuda. Clovis Rossi dizia então: “Pô, o possível qualquer um faz!” Santo Deus! Agora temos aí o Estimado Líder, diluído, corpo e sangue, no povo. Se Lula for reeleito, o Brasil viverá grandes emoções. Podem apostar.
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