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Copa 2018: o futebol é para nós o que o cinema é para os gringos

Se os americanos têm o Oscar, temos o Brasileirão; se têm John Wayne, temos Pelé; se têm uma Pauline Kael, temos um Mário Filho e um Nelson Rodrigues

Por Maicon Tenfen Atualizado em 15 Maio 2018, 15h48 - Publicado em 15 Maio 2018, 13h48

Não sei se alguém já fez essa comparação, mas a introdução do futebol no Brasil se deu no mesmo período da introdução do cinema nos Estados Unidos. Duas artes coletivas que, ao longo de um século e pouco, tiveram poder para representar os maiores países do norte e do sul da América. Se lá, desde Los Angeles e Hollywood, os ianques construíram uma indústria bilionária através das câmeras, aqui, a partir do Rio e do Maracanã, construímos uma indústria bilionária através das chuteiras.

Como costuma acontecer com os filmes americanos, o futebol é a nossa bandeira, a nossa poesia de exportação, o lixo e o luxo das nossas instituições. Ao nosso desenxabido cinema, podemos contrapor o amadorismo com que os sobrinhos do Tio Sam jogam “soccer”. Se eles têm a entrega do Oscar, temos a final do Brasileirão; se têm John Wayne, temos Pelé; se têm uma Pauline Kael, temos um Mário Filho e um Nelson Rodrigues. Para resumir com menos euforia, quando o assunto é futebol possuímos a mesma soberba imperialista que costumamos criticar nos gringos.

Frequentemente acusamos a Casa Branca de usar o cinema em benefício da política externa americana. O mesmo se pode dizer das relações entre a CBF e o Palácio do Planalto. Quando a seleção brasileira visitou o Haiti, por exemplo, foi como se Chaplin tivesse ressuscitado para dar autógrafos às vítimas de uma tragédia. Ainda que Lula tenha sido o mais boleiro dos nossos presidentes, não é de hoje que o governo trabalha na retaguarda do futebol. Getúlio Vargas foi o primeiro a compreender a importância do esporte e a necessidade de usá-lo a seu favor.

Mas esse estranho consórcio, futebol e política, só teve a sua prova de fogo na Copa de 1970. Identificada com a ditadura militar, a seleção brasileira atraiu a antipatia de muita gente que resolveu torcer pela derrota. Conforme o campeonato avançava, porém, todos foram virando a casaca e, no dia da grande final contra a Itália, estavam loucos para gritar a vitória. Isso significa que o futebol venceu, e venceu porque é arte, porque o texto se mostrou mais importante que o contexto, e os gols, mais eloquentes que os discursos.

Não fosse assim, poucos estariam participando dessa apoteose causada pela lista do Tite. A seleção pode perder de 7 a 1, pode desaparecer no meio do seu “quadrado mágico”, pode entregar uma final de mão beijada para a França — que diabos aconteceu naquele vestiário em 98? —, que todo mundo volta a fechar os olhinhos e gritar na véspera da próxima Copa. Os americanos revelam a sua infantilidade patrioteira no cinema? Então vamos observar a forma como os brasileiros rilham os dentes, vibram com os lances de uma possível conquista, explodem de euforia e então morrem miseravelmente sob o gol do adversário.

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