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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Persistência é a chave 

Empresários otimistas

Por Beth Cataldo - Atualizado em 30 jul 2020, 19h14 - Publicado em 28 dez 2019, 09h00
Os índices de confiança dos empresários e consumidores mostram que a economia brasileira chegou ao final deste ano cercada pelo mesmo ambiente de otimismo que apresentava há pouco mais de um ano, quando o novo presidente eleito se preparava para tomar posse. Naquela altura, o governo Bolsonaro era apenas uma projeção baseada em promessas de campanha. Agora, a onda de otimismo tem uma base mais realista e palpável.

Um dos termômetros mais seguros para essa avaliação é o Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) que reflete o ânimo da iniciativa privada em um setor particularmente penalizado nos últimos anos por um desempenho sofrível. Calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice do último mês de novembro é praticamente equivalente ao resultado registrado no mesmo mês do ano passado: 62,5 e 63,2, respectivamente. Sempre que ultrapassa o patamar de 50 pontos, o Icei indica confiança do empresariado.

A curva formada nesses doze meses acompanha os percalços enfrentados para a travessia do primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, quando predominou na agenda econômica a reforma da Previdência, em meio aos desencontros políticos que geraram instabilidade e incerteza. Em maio deste ano, o Icei chegou ao nível de 56,5 pontos, cravando a marca de quatro meses seguidos de queda na pontuação. Ainda assim o resultado ficou um pouco acima da média história de 54,5 pontos anotada no índice.

Esses números indicam que, mesmo no pior momento do nível de confiança dos empresários da indústria depois da posse do governo atual, o Icei manteve-se em terreno positivo. É um quadro bem diferente do pessimismo agudo que predominou entre os empresários do setor nos anos do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, a partir de 2013 até o impeachment que a afastou do cargo. Naquele período, o Icei chegou a bater em 36,4 pontos, em novembro de 2015 – muito abaixo, portanto, da média histórica do índice e da fronteira que mede a confiança dos empresários.

Cenário

A perspectiva positiva que anima a iniciativa privada neste momento é corroborada pelas estimativas para o próximo ano divulgadas pela CNI nesta terça-feira (17), com destaque para a projeção de crescimento de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Nessa linha, o PIB industrial deve se elevar em 2,8% enquanto os investimentos – cruciais para a expansão da atividade – podem crescer 6,5%. A avaliação da entidade é que haverá crescimento mais sólido nos próximos 12 meses.

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O cenário benigno completa-se com a previsão de que a taxa de inflação fique em torno de 3,7% em 2020, abaixo da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) pelo quarto ano consecutivo. A Selic, depois de renovar o piso histórico de forma também sucessiva, deve ser mantida na faixa de 4,5% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), de acordo com o documento divulgado pela CNI. O contraponto é a modesta previsão de melhoria no índice de desemprego, que deve cair de 11,9% para 11,3% na média anual.

Os dados sobre mercado de trabalho, em que pesem as previsões de aumento no rendimento médio real da população e na massa salarial, são os mais desconfortáveis para o governo do ponto de vista político. A permanência de largos contingentes de desempregados desafia o governo a conviver com a insatisfação de segmentos também amplos da sociedade ao longo do ciclo de recuperação da economia – o nível de emprego é justamente o último indicador a ser retomado nesses processos. Não por acaso, a oposição aposta nesse ponto para acirrar o embate com o governo e desgastar a política econômica oficial.

O ritmo da recuperação será ditado também pelos riscos que se apresentam ao comportamento da inflação, outro aspecto decisivo para a popularidade dos governantes. Ainda nesta terça-feira, a ata divulgada pelo Banco Central sobre a última reunião do Copom adotou um tom cauteloso em relação ao patamar da Selic, levando em conta que o atual grau de estímulo monetário “atua com defasagens sobre a economia” em um contexto de “transformações na intermediação financeira”. Somados, esses fatores podem “elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária”.

Na linguagem cifrada em que as atas do Copom costumam ser redigidas, é possível dizer que o recado foi bastante claro desta vez, tanto que provocaram a rápida elevação das taxas de juros dos títulos públicos negociados no Tesouro Direto. A leitura do mercado financeiro, portanto, é que não se deve esperar novos cortes mais agressivos na taxa básica diante da postura cautelosa adotada pelo Banco Central. Nesse fio da navalha, a condução da política monetária será um dos principais focos de atenção em 2020, condicionando a ambição da aceleração econômica à contenção da inflação dentro dos limites das metas fixadas.

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Mantra

A ata do Copom e o documento da CNI com as projeções para o próximo ano reforçam, por fim, o diagnóstico que se tornou um mantra nessa virada de ano: é preciso persistir na agenda de reformas para que seja possível construir um horizonte positivo e duradouro para a economia brasileira. Nas palavras do Banco Central, o risco de elevação da inflação se intensifica no caso de deterioração do cenário externo para economias emergentes ou “eventual frustração em relação à continuidade das reformas e à perseverança nos ajustes necessários na economia brasileira”.

Para a CNI, mesmo que as expectativas em relação a 2020 comecem em alta, “reformas adicionais precisam ser realizadas para conter, de forma definitiva, o crescimento do gasto público e promover um equilíbrio fiscal duradouro, sem o qual não se alcança o crescimento sustentado”. Na conclusão da entidade, “é fundamental continuar com a marcha das reformas, sobretudo as que visam a eliminação dos entraves que dificultam ou impedem o investimento produtivo”. Nesse ponto, o foco principal é a reforma tributária.

Beth Cataldo é jornalista do site Capital Político (capitalpolitico.com)

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