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Eleição no Chile pulveriza o centro e mostra que direita tem fatia comum

José Antonio Kast tem 26% das preferências no primeiro turno e espalha pânico entre os que o consideram o “Bolsonaro chileno”

Por Vilma Gryzinski 19 nov 2021, 07h42

Qual a proporção do eleitorado de qualquer país democrático que vota sistematicamente na direita assumida, por identificação ideológica?

Geralmente, entre 20% e 30%. Nos Estados Unidos, os eleitores que se identificam hoje como republicanos são 29% – a proporção varia em torno dessa faixa. A França é uma exceção, possivelmente devido à súbita entrada na arena política de Éric Zemmour.

Ele desbancou Marine Le Pen na condição de principal candidato da direita dura – sendo que nem ainda se declarou candidato efetivamente. Somados seus 17% das preferências com os 16% de Marine, os eleitores que querem uma linha dura em relação a imigração, esmagadoramente de norte-africanos, batem nos 33%.

Zemmour pode estacionar ou disparar. Um fenômeno parecido está acontecendo no Chile. José Antonio Kast – ou JAK, para sintetizar – disparou como o mais votado no primeiro turno da eleição presidencial de domingo, com 26% das preferências.

É apenas um ponto a menos do que o candidato de esquerda, Gabriel Boric. Mas é claro que roubou todas as atenções. Da mesma forma como Jair Bolsonaro foi chamado de “Trump brasileiro” por jornalistas que precisam sempre achar um lugar comum, JAK está sendo chamado de “Bolsonaro chileno”.

Até uma certa semelhança física – são homens altos, longilíneos, de olhos azuis – está sendo explorada. E também uma frase. A de Bolsonaro, sobre a “gripezinha”, nem foi uma comparação original dele. A de Kast – “Se Pinochet fosse vivo, votaria em mim” – é da eleição passada, quando a direita convencional venceu, com o atual presidente Sebastián Piñera.

Transformado em criptonita política, Piñera, da direita civilizadíssima, sem nunca uma palavra fora do lugar, acabou cedendo um espaço que era seu para Kast.

A desconstrução de Piñera, um dos homens mais ricos do Chile que já havia sido presidente e achava que concluiria o segundo mandato consagrado como o político que consolidaria o país como uma economia desenvolvida, não submetido a um impeachment, sem consequências piores, por transações nebulosas num paraíso fiscal, aconteceu no contexto de uma esquerdização galopante.

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Na eleição da Assembleia Constituinte, a saída que Piñera encontrou para estabilizar um país em transe, com protestos que lembravam mais pseudodemocracias falidas, 80% dos votos foram para todo o espectro da esquerda.

O Chile, comparativamente tão estável, tem dessas guinadas. Basta lembrar que Augusto Pinochet convocou o plebiscito de 1988 porque as pesquisas garantiam um apoio maciço da população na continuação de seu governo. Levou uma lavada: 56% votaram por sua saída (mas 44% acharam que ele deveria permanecer à frente do país).

Ao contrário de Salvador Allende, o presidente que se suicidou no Palácio de La Moneda  sob bombardeio golpista§, que havia prometido não levar a esquerda e o castrismo para seu governo, Pinochet cumpriu a palavra e entregou o poder.

Embora as atrocidades cometidas sob seu comando, e expostas em detalhes pavorosos depois da redemocratização, tenham carcomido o apoio que tinha, muitos chilenos entenderam que as bases da economia não deviam ser substancialmente alteradas.

Um dos responsáveis pelos rumos liberais durante a ditadura foi o irmão de JAK, Miguel Kast, que foi ministro e presidente do Banco Central na era Pinochet – morreu precocemente de câncer aos 31 anos.

De família de imigrantes alemães, católico praticante do tipo quase extinto – tem nove filhos -, JAK fala bem e martela um slogan do tipo que gruda: “Atreva-se, Chile”.

O ex-líder estudantil Gabriel Boric, de 35 anos, também fez sua contribuição para a ascensão de JAK: a perspectiva de um esquerdista duro na presidência ajudou a empurrar eleitores indecisos para o campo do antagonista mais viável.

As pesquisas para o segundo turno dão 36% para Kast e 30% para Boric. Vai ser uma campanha e tanto.

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