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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Por que bancos privados fazem tão pouco contra a pandemia?

Maiores instituições financeiras lucraram R$ 63 bilhões em 2019, mas aparecem muito mal nas iniciativas de doações para a luta contra o coronavírus

Por Marcos Emílio Gomes - Atualizado em 5 Jun 2020, 11h27 - Publicado em 6 Apr 2020, 17h18

Os três grandes bancos privados que operam no Brasil lucraram 63 bilhões em 2019, 18% mais do que no ano anterior. O Itaú, líder do ranking em dinheiro, teve lucro líquido de 26,6 bilhões, com crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. O Bradesco aumentou seus lucros em 18,32%, com um acumulado de R$ 22,6 bilhões. O Santander também teve percentual de lucro maior do que o do Itaú, com 16,6%, somando R$ 14,2 bilhões. Os números apareceram na primeira quinzena de fevereiro e há algumas divergências quanto a esse total. Pode ser que o acumulado dos três bancos seja R$ 5 bilhões maior do que essa conta. Depende de critérios que não vêm ao caso.

O total de lucro dos três bancos no ano passado é equivalente ao volume de recursos que o ministro Paulo Guedes citou como patamar de partida dos gastos para aliviar problemas dos trabalhadores informais sufocados pela paralisia na economia. Com R$ 63 bilhões é possível comprar 900 mil respiradores iguais aos que o governo da Bahia encomendou na China e perdeu quando foram retidos no aeroporto de Miami. O valor também permitiria comprar equipamentos e kits de análise rápida desenvolvidos pelas universidades britânicas de Surrey, Brunel London e Lancaster suficientes para testar toda a população brasileira – talvez por duas vezes. É claro, porém, que o lucro dos bancos referentes a 2019 tem de ser distribuído aos acionistas e não pode ser usado para financiar programas contra a pandemia.

Quando o assunto são as contribuições para esse desafio, os três bancos não têm muita coisa a mostrar. Quase nada, na verdade. Juntos, eles racharam com a Vale uma contribuição de R$ 80 milhões para a compra de 5 milhões de testes rápidos e há notícia de que estão investindo outros R$ 50 milhões em máscaras de tecido adquiridas de microempresários do Brasil. O dinheiro para financiar a aquisição de testes foi dado apenas depois que o quase ex-ministro Luiz Henrique Mandetta fez um apelo pela doação.

O Itaú anuncia na sua página na internet ter reservado R$ 150 milhões para compra de equipamentos médicos como respiradores, cestas de alimentação e kits de higiene para comunidades vulneráveis. Esse dinheiro, na verdade, sai dos cofres da Fundação Itaú, onde entra carimbado para ações sociais e tem contrapartida de incentivos fiscais. O valor equivale a 0,56% do que o banco lucrou no ano passado.

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Quanto a Bradesco e Santander, não há notícia de outras doações. Pelo contrário, buscando informações sobre as instituições bancárias, acha-se o texto publicado pelo site de Exame no dia 16 de março revelando que os juros que vinham sendo praticados em 2020 para cheque especial e capital de giro de empresas são maiores do que há dois anos, quando a Selic era o dobro do que é hoje. No dia 20, o Banco Central permitiu que as instituições resgatassem R$ 49 bilhões de seus depósitos compulsórios para aumentar a oferta de crédito no mercado e criar condições de socorro diante da semiparalisia econômica. Também houve redução de meio ponto na taxa Selic.

Itaú e Bradesco informaram que repassariam a diminuição para suas operações de crédito. Como as taxas cobradas pelos bancos dependem dos chamados perfis dos clientes e do nível de relacionamento – que significa gasto com seguros, cartões, pacotes de conta corrente, emissão de boletos e diversas outras maneiras de faturar com recursos que são do próprio correntista -, descobrir a tal redução é um mistério inextricável.

Enquanto empresas estão fechando acordos para bancar parte dos salários de funcionários mesmo com paralisação de suas atividades, têm queda de até 100% no seu faturamento e amargam cancelamentos de vendas e formação de estoques que em alguns casos são perecíveis e vão para o lixo, os bancos oferecem em suas páginas de internet dedicadas ao coronavírus “soluções e iniciativas” (Itaú) “para cuidar de todos” (Bradesco) e “superar esse momento” (Santander).

Na prática, há uma parte de agências fechadas, embora existam operações que têm de ser feitas presencialmente; o horário de atendimento foi reduzido, incluindo nos serviços telefônicos, que passaram ainda por diminuição de pessoal; e foi criada uma hora de atendimento exclusiva para idosos, que costumam ser maioria nas agências e agora se alinham na fila logo cedo para usufruir do “benefício”.

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Os bancos estão oferecendo renegociações e adiamentos de prazos de pagamentos, empréstimos de capital de giro com carência ou taxas que dizem ser favoráveis aos clientes e crédito para cobertura de pagamentos de salários com as mesmas características. Um empresário conta que o banco ofereceu, como deferência, um empréstimo emergencial de R$ 150 mil para ser pago em 48 vezes, com 3,94% de taxa de juro ao mês – mais do que uma Selic anual.

Outro cliente, com a queda nos juros anunciada pelo Banco Central, ligou para renegociar seu financiamento imobiliário. Na quarta ligação, depois de 40 minutos de espera, recebeu a informação de que terá retorno a respeito dentro de um mês e que não tem direito ao adiamento de 60 dias anunciado pela instituição. Para liberar o uso de um aplicativo de celular que precisou ser reinstalado no sábado passado, um correntista esperou até as 9h desta segunda-feira, quando o serviço recomeçaria. Foi atendido depois de 15 minutos de espera e recebeu a informação de que talvez a operação ainda demandasse uma ida ao banco.

Há uma campanha com anúncio na TV de banco vendendo seguro de saúde com desconto para profissionais do setor, ou seja, uma tentativa de aumentar sua carteira faturando clientes num momento como esse. Existem correntistas reclamando de cobranças de taxas das quais estiveram isentos a vida toda e qualquer um que tenha endereço de e-mail está sujeito ao assédio absurdo de corretores ligados a um banco vendendo planos contra o Covid-19, “sem carência”.

Uma das maiores iniciativas relacionadas à mobilização contra a pandemia é coordenada pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Na campanha anticoronavírus foram arrecadados até as 15h30 de hoje, dia 6 de março, quase R$ 900 milhões. Entre 44 doadores listados, estão apenas oito instituições financeiras ou conglomerados que têm banco. Safra, BTG Pactual, BV, Nubank, Votorantim e XP integram a lista, ao lado das fundações Mapfre e Itaú, esta com aqueles R$ 150 milhões já citados. É possível acompanhar a evolução dessas doações neste link. Há associações empresariais listadas também, mas a Febraban não aparece entre elas.

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A curiosa, na verdade dolorosa, diferença entre o que os bancos lucram e representam na economia e o que estão dispostos a oferecer à sociedade neste momento não é, pelo menos, um fenômeno exclusivo do Brasil. Segundo notícia do site Financial London publicada dia  18 de março, gigantes mundiais das finanças tinha acumulado em doações o equivalente a U$ 160 milhões. O J.P. Morgan entrava nessa conta com U$ 50 milhões – 0,14% do que lucrou em 2019.

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