Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Letra de Médico Por Adriana Dias Lopes Orientações médicas e textos de saúde assinados por profissionais de primeira linha do Brasil

Restrição calórica e jejum intermitente funcionam, afinal?

Estratégias alimentares que pregam a redução da quantidade de calorias consumidas têm sido associadas ao aumento da longevidade

Por Paulo Zogaib 13 out 2017, 12h00

Em 1962 o professor Christian de Duve (prêmio Nobel), identificou um processo denominado autofagia (do grego auto = próprio e phagein = comer). Em 1990, o professor Yoshinori Ohsumi iniciou seus estudos sobre a autofagia e ao longo do tempo elucidou seus mecanismos em leveduras e mostrou que uma maquinaria sofisticada do mesmo tipo é usada pelas células do corpo humano, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2016.

Autofagia e apoptose: a auto-limpeza do organismo

De forma simplificada, a autofagia consiste num processo de limpeza que o próprio organismo faz, eliminando estruturas celulares velhas ou defeituosas. As nossas células estão em constante modificação. Somente de proteínas, durante um dia, precisamos reciclar de 200 a 300 gramas. É claro que não ingerimos essa quantidade e é graças a autofagia que podemos reutilizar algumas de nossas próprias proteínas.

Em 1972 os cientistas Kerr, Wyllie e Curie apresentaram a apoptose (do grego apoptosis, apo = de, desde e ptosis = queda), numa referência à queda das folhas das árvores no outono. A apoptose é um tipo de morte celular programada, evitando que a célula se torne velha e doente, e estimulando a renovação celular.

Portanto, o organismo pode eliminar somente as estruturas celulares ruins (autofagia) ou mesmo a célula inteira (apoptose), mantendo a saúde celular e evitando o aparecimento de doenças e o próprio envelhecimento.

Falhas no processo

Infelizmente esses processos não funcionam perfeitamente e por isso adoecemos e envelhecemos. Sabemos que hábitos saudáveis, como uma dieta equilibrada, exercícios físicos, diminuição do stress, evitar o fumo, a poluição e manter o bem estar e a felicidade são fundamentais. Mas, além disso, muitos estudos têm sido feitos na busca de outras estratégias que possam melhorar a eficiência desses mecanismos.

O papel da restrição calórica

Uma dessas estratégias é a restrição calórica. Em 1935 McCay e seus colegas descobriram que, em ratazanas, uma diminuição da ingestão alimentar em 40% levava a um aumento da longevidade. Essa restrição alimentar diminui o stress oxidativo sobre as mitocôndrias (unidades celulares responsáveis pela produção de energia), mantendo-as mais saudáveis e estimulando a sua renovação.

Os estudos em humanos não são absolutamente consistentes, talvez porque seja tênue a diferença entre restrição calórica ou subnutrição e desnutrição. Um fato que pode falar a favor é que a grande maioria, se não a totalidade, dos indivíduos longevos são magros ou ligeiramente abaixo do peso.

A desnutrição parece ser um dos fatores que contribui para a morte em idosos pela sarcopenia (perda de massa muscular), condição que dificulta as atividades diárias e piora a qualidade de vida. Além disso, a restrição calórica não pode levar à deficiência de vitaminas e minerais e deve respeitar as condições individuais.

O jejum intermitente

A outra estratégia, corroborada pelo estudo do professor Ohsumi é o jejum. Ele estimula a autofagia e a produção do hormônio do crescimento, ou seja, promove a limpeza do “lixo” celular (autofagia) e a renovação das estruturas (hormônio do crescimento).

Continua após a publicidade

Ainda não se estabeleceu perfeitamente a duração desse jejum e é evidente que o exagero pode ser prejudicial. Os esquemas variam de 12 a 24 horas chegando mesmo ao extremo de 36 horas. Mesmo sem comprovação científica, o esquema mais adotado é o de 16 horas de jejum e 8 horas se alimentando. Isso parece contribuir para a somatória de efeitos da restrição calórica e da autofagia.

Importante lembrar que apesar de reconhecidos os mecanismos em seres humanos, inclusive relacionando-os à doenças como Mal de Parkinson, diabetes e câncer, esses estudos não foram realizados em humanos e sabemos que cada indivíduo necessita e reage de forma particular.

Deve-se levar em consideração os medicamentos utilizados, as condições de saúde, o tipo de atividade profissional, as doenças pré existentes e até mesmo o tipo e nível de atividade física executada.

O bom senso deve imperar

As notícias são muito otimistas. Nos dão esperança e uma enorme vontade de que tudo isso seja verdade e funcione perfeitamente, mas o bom e velho “bom senso” continua sendo um grande aliado. Nos dias de hoje qualquer texto lançado na rede facilmente se torna “verdade” (inclusive o meu!).

É preciso usar a ciência com critério e ética para o benefício da humanidade.

 

Paulo Zogaib

 

Quem faz Letra de Médico

Adilson Costa, dermatologista
Adriana Vilarinho, dermatologista
Ana Claudia Arantes, geriatra
Antonio Carlos do Nascimento, endocrinologista
Antônio Frasson, mastologista
Artur Timerman, infectologista
Arthur Cukiert, neurologista
Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião
Bernardo Garicochea, oncologista
Claudia Cozer Kalil, endocrinologista
Claudio Lottenberg, oftalmologista
Daniel Magnoni, nutrólogo
David Uip, infectologista
Edson Borges, especialista em reprodução assistida
Fernando Maluf, oncologista
Freddy Eliaschewitz, endocrinologista
Jardis Volpi, dermatologista
José Alexandre Crippa, psiquiatra
Ludhmila Hajjar, intensivista
Luiz Rohde,
psiquiatra
Luiz Kowalski, oncologista
Marcus Vinicius Bolivar Malachias, cardiologista
Marianne Pinotti, ginecologista
Mauro Fisberg, pediatra
Miguel Srougi, urologista
Paulo Hoff, oncologista
Paulo Zogaib, medico do esporte
Raul Cutait, cirurgião
Roberto Kalil, cardiologista
Ronaldo Laranjeira, psiquiatra
Salmo Raskin, geneticista
Sergio Podgaec, ginecologista
Sergio Simon, oncologista

Continua após a publicidade
Publicidade