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Invasores de terra indígena em Rondônia ameaçam matar crianças

Discurso anti-indígena do novo governo teria motivado o aumento das agressões

Em uma carta de 14 de janeiro deste ano enviada ao superintendente do Ibama em Rondônia, Carlos Alberto Paraguassu, dois representantes da terra indígena Uru-eu-wau-wau, localizada no mesmo estado, relataram ameaças e invasões que se tornaram frequentes na região.

Ali vivem os povos Jupaú (conhecidos como Uru-eu-wau-wau), os Amondawa e Oro Towati (Oro In) e três povos isolados, ainda sem contato com a sociedade. O presidente da Associação do Povo Indígena Jupaú, Awapu Uru-eu-wau-wau, e um morador de uma das aldeias, Boatuto Uru-eu-wau-wau, assinaram a carta.

No documento, eles escreveram que: “no dia 11/01/2019, invasores adentraram a região da aldeia Linha 623 na placa da FUNAI abrindo um picadão de aproximadamente 20 km, desmatando, derrubando um monte de madeira e com o objetivo de grilar a terra indígena, eram aproximadamente 40 invasores, os Uru-eu-wau-wau foram e expulsaram os invasores, porém o chefe da invasão ameaçou que voltaria com mais 200 invasores e que se os indígenas resistissem eles matariam ‘crianças para os indígenas sentirem a dor’“.

Além da ameaça de morte às crianças, os indígenas reforçaram às autoridades a preocupação com os povos isolados. De acordo com eles, as invasões estão se aproximando cada vez mais das aldeias que nunca tiveram contato com o homem branco. A violência física, obviamente, é uma enorme ameaça, mas eles também são extremamente vulneráveis a doenças comuns, como a gripe, por não terem resistência imunológica.

Segundo a coordenadora-geral da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, Ivaneide Bandeira, os discursos do novo governo motivaram o aumento das agressões. “As áreas vêm sofrendo uma invasão sistemática que se acentuou durante e depois das eleições. Os invasores ameaçam a vida dos indígenas, das crianças, desmatam e fazem marcações de lotes dentro das áreas protegidas. Até agora, nada foi feito para proteger os indígenas e as suas terras”, afirmou. 

Ao Ibama, os indígenas deixaram claro o pedido de socorro: “a invasão é próxima à aldeia, inclusive é a estrada por onde os mesmos passam para irem para suas casas. (…)  Os indígenas estão assustados e pedem o apoio para proteção física e territorial da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau”.

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No ano passado, a mesma etnia denunciou as invasões para a Polícia Federal. No documento de 2018, afirmaram: “Vimos informar que a Terra Indígena Uru-eu-wau-wau está sofrendo invasão pela Linha 27, causando danos ambientais e sociais ao povo indígena. (…) Preocupados e com medo que atentem contra nossa vida, vimos solicitar fiscalização urgente pela Policia Federal e FUNAI. Como sabemos da dificuldade de recurso da FUNAI, pedimos encarecidamente que a PF ajude a FUNAI a fazer a fiscalização e nos colocamos a disposição para ajuda-los a irem a área de invasão”.

A terra indígena possui 1.967,117 hectares, abrange 11 municípios, foi homologada pelo presidente Fernando Collor em 1991, possui as nascentes dos principais rios do estado, sendo o berço de 12 sub-bacias hidrográficas importantes para a economia, o equilíbrio climático e a preservação da biodiversidade.

Em uma carta feita pela Associação do Povo Indígena Uru-eu-wau-wau, a organização declarou que os indígenas estão psicologicamente abalados com a situação, já que não se sentem seguros em sair para caçar, pescar ou coletar frutos por acreditarem que os grileiros vão entrar e matar mulheres e crianças.

De acordo com a Associação Uru-eu-wau-wau, no dia 30 de janeiro, o novo presidente da FUNAI, Franklimberg de Freitas, foi até a aldeia Alto Jamari, onde estava acontecendo um encontro de lideranças indígenas para definir que atitude tomariam diante das invasões. Na reunião, o presidente colocou que havia sobrevoado a área, visto o tamanho dos estragos e que enviaria a Força Nacional para conter as invasões.

Os próprios indígenas sentem que as declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre terras protegidas estimularam o aumento das invasões na região. No encontro com Freitas, eles questionaram as falas de Bolsonaro sobre diminuir e não demarcar nenhuma área nova. De acordo com a Associação, os representantes do governo, no entanto, afirmaram que o presidente nunca disse isso, mesmo depois de os indígenas afirmarem que viram as informações na televisão.

Apesar da promessa de chamar a Força Nacional, as equipes não foram enviadas ao local e as invasões nas regiões mais afastadas das aldeias continuam.

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