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O Enem é um manual de guerrilha em forma de quiz

Veja dois artigos - de Miguel Nagib e Felipe Moura Brasil - sobre a ideologia do exame

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Miguel Nagib, criador do Escola Sem Partido, mandou para este blog um ótimo artigo sobre a ideologia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015, realizado nos dias 24 e 25 de outubro.

Em 2013, eu também escrevi um artigo a respeito, definindo o Enem como um manual de guerrilha em forma de quiz. Reproduzo-o após o de Nagib, para mostrar que a vigarice continua ano após ano.

Vale relembrar também, aqui no blog, “Minha correspondência com o MEC“, de março.

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O boi de piranha do Enem
Miguel Naigb, 30 de outubro de 2015

No último domingo, enquanto milhares de pessoas denunciavam o despudorado viés ideológico das questões do Enem, o músico Roger Moreira chamava a atenção, no Twitter, para um problema ainda mais grave e preocupante: “Ganham zero [as] ideias que desrespeitem os direitos humanos. Ué? Não é prova de redação? Ou é controle do pensamento?”

Roger se referia à exigência de que o candidato elabore, na redação, uma proposta de intervenção para o problema abordado, “respeitando os direitos humanos”. Segundo o INEP, é necessário que o candidato “não rompa com valores como cidadania, liberdade, solidariedade e diversidade cultural”, sob pena de zerar na redação.

Ao impor esse requisito, porém, o próprio INEP desrespeita claramente os direitos humanos, já que as liberdades de pensamento, opinião e expressão, além de garantidas pela Constituição Federal, estão previstas na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Condicionar o acesso de um estudante ao ensino superior a que ele possua ou expresse determinada opinião sobre o que quer que seja configura, sem sombra de dúvida, uma forma acintosa de cerceamento àquelas liberdades.

Para piorar a situação, os candidatos e os corretores das provas não estão familiarizados com a legislação brasileira sobre direitos humanos ‒ o que de resto não é exigido pelo INEP. Assim, o mais provável é que todos considerem como “direitos humanos” um punhado de clichês politicamente corretos consagrados na academia e nos meios de comunicação. É o que sugere aliás o INEP, ao falar vagamente em “cidadania, solidariedade e diversidade cultural”, expressões que remetem de forma inequívoca ao discurso da esquerda.

Este ano, mais de 7 milhões de estudantes tiveram de escrever uma redação sobre a violência contra a mulher na sociedade brasileira. Cuidava-se, é claro, de uma provocação ideológica, e é de supor-se que muitos candidatos tenham ficado temerosos de expressar seu pensamento.

E com razão. Basta pensar no possível desfecho das seguintes situações: o candidato A sustenta, em sua redação, que a proibição do aborto é uma forma de violência contra as mulheres; e apresenta como proposta de intervenção a descriminalização dessa prática. Já o candidato B relativiza o problema da violência contra as mulheres; identifica, entre suas causas, o comportamento das próprias mulheres; e propõe como solução a mudança desse comportamento.

Como serão corrigidas essas redações? Se a legislação brasileira fosse aplicada, o candidato A deveria receber zero, pois a Convenção Americana sobre Direitos Humanos estabelece que o direito à vida deve ser protegido pela lei “desde o momento da concepção”. Mas, se prevalecerem os clichês do politicamente correto, não só isso não vai acontecer, como quem pode acabar levando zero é o candidato B, embora sua proposta de intervenção não desrespeite a legislação relativa aos direitos humanos.

Ora, nenhum dos candidatos pode ser punido ou beneficiado por possuir ou expressar sua opinião. Ninguém pode ser obrigado a dizer o que não pensa para poder entrar numa universidade. O exemplo demonstra, em todo caso, que, além de ferir a liberdade de consciência e de crença dos candidatos, a exigência do INEP, na prática, transforma a prova de redação do Enem num imenso filtro ideológico de acesso ao ensino superior.

No fim das contas, Simone de Beauvoir era apenas o boi de piranha do Enem.

Aguardemos para ver se o Ministério Público Federal vai tomar alguma providência contra mais essa afronta à Constituição perpetrada pelo governo petista.

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Gabriel, O Pensador do Enem
Felipe Moura Brasil, 30 de outubro de 2013

Globo Online: “O cantor Gabriel O Pensador não ficou surpreso ao saber que sua música ‘Até quando?’, de 2001, foi utilizada na prova de Linguagens do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013.”

E como poderia ficar? Surpresa seria se tivessem utilizado um artigo de Olavo de Carvalho. Gabriel O Pensador e o Enem foram feitos um para o outro. Veja o trecho que caiu na prova:

“Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta/ Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve, você pode, você deve, pode crer/ Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver/ Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer.”

Não é mesmo uma incrível coincidência o Enem perguntar qual é a qualidade(!) principal(!) do trecho, oferecendo cinco respostas relativamente favoráveis (além da pergunta)?

Não é coincidência o Enem impor e legitimar sorrateiramente a estudantes do Brasil inteiro a qualidade artística de uma convocação para greves e protestos, no momento em que as “manifestações” espalham o caos pelo país?

Não é coincidência o Enem ainda expor uma analogia entre o sofrimento de Jesus Cristo e o dos “oprimidos”, como se até Gabriel O Pensador fosse melhor exemplo a ser seguido que Jesus?

Mais coincidência que isso, só mesmo um tributo a Karl Marx na questão número 1.

O Enem nada mais é que um manual de guerrilha em forma de Quiz.

É por isso que, para tratar de linguagem usando o tema dos protestos, seria demais exigir Lima Barreto: “O apagamento momentâneo da honestidade e a revolta contra pessoas inacessíveis levam os melhores a esses atentados brutais contra a propriedade particular e pública. Concorre também muito a nossa perversidade natural, o nosso desejo de destruir que, adormecido no fundo de nós mesmos, surge nesses momentos, quando a lei foi esquecida e a opinião não nos vigia. No jornal exultava-se. As vitórias do povo tinham hinos de vitórias da pátria. Exagerava-se, mentia-se, para se exaltar a população.”

A quem interessaria mostrar aos estudantes, através da própria literatura nacional, a estupidez como ela é no Brasil há mais de 100 anos, ainda que cada vez pior em função do poder cultural e político dos estúpidos? Certamente não aos esquerdistas da banca.

De modo que hoje, para chegar às universidades brasileiras, já não basta se fazer de marxista, grevista ou manifestante. Agora você também tem de reconhecer qualidades de linguagem no divino Gabriel O Pensador – aquele que tampouco faz ideia de qual seja a resposta certa à questão que o menciona.

“Até quando”, meu Deus?…

Felipe Moura Brasil ⎯ https://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil

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