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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Sangue nos olhos

Vídeo comprova que, para Bolsonaro, governar é guerrear

Por Dora Kramer - Atualizado em 22 May 2020, 21h12 - Publicado em 22 May 2020, 21h10

Se o vídeo da reunião de 22 de abril, divulgado nesta sexta-feira, 22, é prova suficiente para a abertura de processo criminal de responsabilidade contra o presidente da República, caberá ao procurador-geral da República, Augusto Aras, definir na apresentação, ou não de denúncia ao Supremo Tribunal Federal.

O que foi visto ali, no entanto, é o bastante para se concluir que para Jair Bolsonaro governar significa guerrear. A gravação registra sua disposição de “interferir mesmo” quando ações desagradem a ele, à família e aos amigos. O louvor à guerra fica patente do ponto de vista político, mas também no sentido literal. A agressividade vai muito além da linguagem chula.

Pudemos assistir a um presidente conduzindo uma reunião ministerial com sangue nos olhos, explicitamente temeroso de não concluir o mandato, exortando o povo brasileiro a “se armar” a fim de enfrentar aos que, sem nominar, acusa de pretenderem implantar uma “ditadura” no país. Na expressão de Bolsonaro, “eles” contra os quais convocou seus ministros a lutar. “Quem for elogiado pela Folha, pelo Globo, pelo Antagonista, está fora”, disse, numa evidência de que não importa a qualidade do trabalho do auxiliar, mas sua disposição de servi-lo de maneira cega.

Embora não tenha citado nomes, fez referências claras ao Congresso e ao Judiciário. No primeiro caso quando falou sobre “esse pessoal aqui do lado” (da Praça dos Três Poderes) de maneira depreciativa e, no segundo, ao dizer que falaria “na linha do Weintraub” logo após o ministro da Educação ter dito que se dependesse dele, “mandava pôr esses vagabundos todos na cadeia, a começar STF”.

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Não é preciso que o vídeo contenha a tal “bala de prata” que justifique processo de impedimento para que se veja um presidente violento, interessado em impor suas convicções pessoais como políticas de governo, intolerante com o contraditório e bastante indulgente com propostas heterodoxas na administração pública. Ficou calado quando o ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, propôs a derrubada de regulamentações “de baciada” enquanto “a imprensa está ocupada com a Covid”. Nenhum reparo também à informação da ministra Damares Alves sobre preparativos “para mandar prender governadores e prefeitos” devido à aplicação de medidas de isolamento social.

O vídeo da reunião do dia 22 de abril pode até não ser suficiente para ocasionar o impeachment formal de Bolsonaro, mas é o bastante para provocar seu impedimento moral no ofício de bem governar.

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