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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Avenida central

Em tese, há espaço onde poderia transitar a composição de opções à polarização (no mau sentido), que aprisiona e impede cotejos mais racionais

Por Dora Kramer Atualizado em 12 mar 2021, 11h29 - Publicado em 12 mar 2021, 06h00

A reação do senso comum à retomada da condição de elegibilidade de Luiz Inácio da Silva por obra de manobra do ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Edson Fachin foi a de que o ex-presidente será candidato à Presidência e, com isso, em 2022 estará restabelecido com tintas mais fortes o cenário de polarização entre extremos de 2018, com o resultado inevitável da vitória de um dos dois: Lula ou Bolsonaro.

Conclusão rápida, fácil, mas não necessariamente acertada. Primeiro, porque a situação do ex-presidente não está definitivamente decidida. Depois, porque, ainda que se confirme sua condição de ficha-limpa formal, isso não se estende ao campo moral, fator que é apenas um entre os vários que representam mais dificuldades que facilidades ao curso exitoso de uma candidatura presidencial do petista.

A cena hoje é muito diferente da anterior e completamente diversa daquela de quase vinte anos atrás, quando o PT ganhou a eleição cheio de razão junto ao eleitorado que via o partido com expectativa de boa governança, da solução para a desigualdade social e da entrada do país no rol dos adeptos da ética na política.

Nesse quadro, acrescido do fato de o Brasil ser hoje muito mais difícil de governar e de o mundo ser muito menos próspero, seria um grande risco para quem já foi duas vezes presidente e saiu do cargo glorificado com 80% de aprovação. Isso a ponto de as pessoas se esquecerem da transformação de um legado bendito deixado por Fernando Henrique na verdadeira herança maldita dos governos Dilma Rousseff.

Ainda que não seja candidato, Lula será um ator importantíssimo na eleição de 22, primeiramente nas pesquisas, podendo transitar com pose de injustiçado, “vendendo” feitos de seu governo, nem sempre verdadeiros, como fez no discurso da quarta-fei­ra 10. Daí a avaliação inicial sobre ser inevitável a redução do quadro eleitoral ao embate dos extremos, considerando nesse conceito menos as diferenças ideológicas e de procedimentos entre os dois campos e mais o caráter fanático dos fiéis seguidores do atual e do ex-presidente.

A questão aí é se o país está condenado a essa dicotomia e o eleitorado disposto a se render a ela repetindo a lógica de adesão por exclusão ao adversário não pelo exame racional de erros e acertos, mas pelo puro exercício dos chamados antipetismo e antibolsonarismo.

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A julgar pela quantidade de gente que diz nas pesquisas não votar em um ou em outro em hipótese alguma — hoje medida em índices muito semelhantes, em torno de 40% —, a resposta às dúvidas enunciadas acima é que existe um desejo grande por alternativas. Vontade expressa nos resultados das eleições municipais do ano passado, em que os candidatos apoiados por ambos tiveram um mau desempenho.

Haveria, então, em tese e potencialmente espaço equivalente a uma grande avenida onde poderia transitar a composição de opções à polarização (no mau sentido), que aprisiona e impede cotejos mais racionais. Essa construção, no entanto, depende de essas forças saírem da posição mais confortável da conveniência partidária de simplesmente embarcar de carona nas candidaturas que aparecem mais bem posicionadas nas pesquisas e começarem a existir de fato na vida da população. Não só do eleitorado.

“Em reação à era dos extremos, o centro tem chance de atrair apoios ao tempo de equilíbrio”

De que modo? Mediante o atendimento a indispensáveis condições: a escalação do melhor time para a montagem de agenda correspondente às demandas prioritárias da sociedade, um posicionamento identificado com as demandas dos pobres sem perder o norte da importância dos ricos no crescimento da economia e atenção estreita à classe média. Tradução: um não ao sectarismo e portas escancaradas à inclusão.

Lula poderia ajudar nisso se abandonasse a obsessão por liderar (como candidato ou cabo eleitoral de enorme peso) um processo de volta do PT ao poder, a fim de atrair para um projeto que abarcasse a esquerda e a centro-esquerda. Isso implicaria a existência de autocrítica e boa dose de generosidade política. Não parece ser o caso.

O desprendimento também é requisito essencial no campo do centro à direita civilizada, onde transitam pretendentes já postos e algumas possibilidades que poderiam colaborar se conformadas a um papel de coad­juvantes qualificadas de alguém que seja escolhido pela capacidade de atração do eleitorado mais pelas qualidades postas a serviço do país que pelo repúdio a seus defeitos que tanto infelicitam o Brasil.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 17 de março de 2021, edição nº 2729

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