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Deveríamos permitir a venda de sangue para transfusão?

O estoque nos bancos de sangue aumentaria se fosse possível pelo menos dar brindes aos doadores

Mais uma vez, o baixo estoque nos bancos de sangue preocupa os hospitais e leva médicos a adiarem cirurgias.

Para um economista, a causa da escassez é simples. Se uma proibição ou um tabelamento de preços impede que as pessoas lucrem fornecendo um produto, ele acaba sub-ofertado. No Plano Cruzado, o tabelamento de preços esvaziava as prateleiras dos supermercados; hoje, a proibição da venda se sangue esvazia prateleiras de hospitais.

A solução seria, então, legalizar o mercado?

Certamente a escassez diminuiria. Uma pesquisa da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, concluiu que a oferta de um vale-presente de míseros 5 dólares aumenta em 26% as chances de uma pessoa doar sangue; já um vale-presente de 10 dólares eleva a probabilidade em 52%.

Mas não é tão simples assim. Um argumento recorrente é que o mercado legal de sangue exploraria os mais pobres. Como escreveu o sociólogo Richard Titmuss num livro de 1970, surgiria “uma nova classe explorada, uma população humana de grandes doadores de sangue”. Em troca de migalhas, pobres venderiam o próprio corpo pacientes ricos. Isso já acontece nos Estados Unidos, onde é permitida a venda de plasma (o líquido amarelado que constitui 55% do sangue). Segundo a Atlantic, americanos pobres costumam vender plasma por 30 dólares.

Não gosto desse argumento. É como o sujeito concluir que explora a empregada doméstica e resolver demiti-la para acabar com a exploração. Ela sai aos prantos de casa, triste com o fim do emprego. Opções não exploram ou oprimem; a falta de opções, sim. Pobres só venderiam sangue por falta de opção para ganhar dinheiro. Ao proibir que façam isso, tiramos uma opção de quem já tem pouquíssimas.

Outro argumento contra a venda é o da mercantilização do sangue. Como afirma o filósofo Michael Sandell no livro O que o dinheiro não compra, “transformar o sangue em mercadoria corrói o sentimento de obrigação de doar sangue, diminui o espírito de altruísmo e solapa a ‘relação de doação’, uma característica atida da vida social”.

Essa objeção lembra a “falácia da ladeira escorregadia”. Permitir a venda de sangue não necessariamente resultaria em fim do altruísmo. Cobertores são mercadorias, nem por isso deixamos de fazer mutirões para doar cobertores, e ficamos histéricos ao saber que a prefeitura de São Paulo confisca esse produto de mendigos durante o inverno. A possibilidade de doar sangue sempre estará aberta, e ocorre com frequência onde a remuneração a doadores é permitida.

Mas há um efeito negativo. Se vender sangue virar “coisa de pobre”, o pagamento seria um tiro no pé. Muita gente de classe média veria a atividade como degradante, pouco digna, e a evitaria. Justamente por isso, os pesquisadores da John Hopkins sugerem que uma remuneração não-financeira, como um vale-presente, funcionaria melhor que dinheiro, pois os doadores não a considerariam um pagamento. O Brasil, porém, é um dos raros países do mundo onde mesmo dar brindes a doares é proibido.

Seria ótimo se o altruísmo garantisse bons estoques nos bancos de sangue. Mas, como mostram as notícias desta semana, ele não está sendo suficiente.

@lnarloch

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  1. Comentado por:

    Luiz

    Hoje nos temos um dia de folga do trabalho para os doadores. Basicamente se repassar a responsabilidade do brinde para o empresário.

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  2. Comentado por:

    Beto Fachini

    Uma solução paliativa foi adotada na cidade de Campinas. Ao invés de pagamento aos doadores, foi criado uma lei que permite aos doadores terem preferencia de atendimento no comércio, nos mesmos moldes que se é feito para idosos e gestantes. Acredito ser uma maneira efetiva de aumentar a oferta de doadores.

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  3. Comentado por:

    Carlos Henrique

    Vim aqui comentar exatamente o que o Ricardo Faraco comentou dia 21 de junho de 2016. Apesar de sensibilidade (grosso modo “o quanto que o teste não deixa passar”) e especificidade (grosso modo “o quão bom é o teste em ‘dar certeza’ do diagnóstico) serem características inerentes ao teste, o Valor preditivo positivo (VPP – quais as chances de um resultado “positivo” ser verdadeiramente positivo) e o valor preditivo negativo (VPN – quais as chances de um resultado “negativo” ser realmente negativo) são dependentes da prevalência (quantidade de uma dada condição no total de uma dada população).
    A venda de sangue atrairia muitas pessoas do grupo de risco para doenças tranamissiveis pelo sangue, aumentando o total de infectados pós transfusão.

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  4. Comentado por:

    Vinícius

    Eu acho que deveríamos sim vender, todos precisam de dinheiro, especialmente no Brasil, ja que somos roubados todos os dias pelo governo. Eu não tenho a intenção de doar meu sangue O negativo, mas estaria disposto a pensar em vender.
    Nada é de graça, hospitais não são de graça, condução não é de graça, transplante de órgãos não são de graça, por que o sangue seria? Aposto que a venda motivaria imensamente as pessoas a cederem mais sangue.

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  5. Comentado por:

    Carlos Augusto

    Comercializar sangue; barganhar crianças; são termos muito inconvenientes ao homem no flanco moral. Mas os argumentos não vão adiante: comercializar sangue estaria cedendo à sociedade novos meios de subsistência, além de ampliar vertiginosa e eminentemente a oferta; situação congênere ocorre com a barganha infantil, crianças que se sentes coagidas e acuadas por seus protetores tem direito a busca de novos guardiões. Em relação às crianças acerca da caso menino Bernardo, há uma matéria na internet ( creio que não possa citarco site aqui), onde é dito que o garoto chegou a ir a uma cede do governo em busca de ajuda, relatando o que sofria e como aquilo afetava-o. O que ocorreu? Pasmem-se foi devolvido aos agressores e ocorreu a catástrofe preconizada pela mídia.

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  6. Comentado por:

    Novocredo

    Alguns países permitem venda de rim para transplantes. Diminuiu número de pacientes em hemodiálise. Será isto temem correto?

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  7. Comentado por:

    Glória Rubbo

    Oi, gostei muito de sua coluna.
    É um tema muito interessante.. bom, eu acho que vender sangue seria uma coisa bem estranha. Eu fiquei pasma quando li que nos Estados Unidos algumas pessoas vendiam a plasma.
    Mas entendo que a ideia de que a pessoa venda seu sangue e ganhe algo em troca é meio que para estimular as pessoas a doarem seu sangue.
    Eu particularmente não acho muito certo doar e receber algo em troca.Afinal não sabemos o dia de amanha..não sabemos se não seremos nós na fila de espera por doação de sangue…
    Acho que temos que estimular as pessoas de outra forma..tipo, poderia passar mais propagandas na televisão sobre a doação de sangue, o quanto é importante e o quanto ajuda as pessoas que precisam de sangue.
    Mas vale lembrar que não é só na doação de sangue que esta assim..meio vazio os estoques. Na doação de corações também. É difícil hoje em dia as pessoas quererem doar algo de seu corpo.
    Mas desde já agradeço , pela atenção.
    grata.

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