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Ricardo Bordin: O que a Esquerda, He-Man e Dançar na Rua tem em comum?

Apoiar partidos com aspirações socialistas para se sentir bem consigo mesmo pode ser confortável, mas não repercute positivamente na vida de ninguém

Por Augusto Nunes Atualizado em 30 jul 2020, 22h39 - Publicado em 23 Maio 2016, 08h31
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“Esquerdistas são pessoas melhores do que os conservadores?”

O que poderia levar um internauta a abrir um tópico de discussão como esse da figura? Convencer um determinado grupo de pessoas, por meio de argumentação, que esquerdistas são “melhores” do que conservadores (incluindo, neste caso, simpatizantes de qualquer corrente de pensamento da direita) ou convencer apenas a si mesmo? Eis a única dúvida que repousa neste caso, a meu ver. Mas não pense que estamos diante de um caso isolado de baixa autoestima: oferecer a possibilidade de sentir-se como um verdadeiro “cavaleiro das boas intenções” costuma ser o principal método da esquerda para cooptar novos adeptos. E o pior é que funciona. Pior ainda é que costuma funcionar melhor com pessoas jovens!

Convenhamos que a proposta é tentadora: quem não quer sentir que está jogando no time que “defende os pobres”? Que está ao lado das “minorias” ou luta por um mundo “mais justo”? Todos querem estar do “lado do bem”. Desenvolvemos esse sentimento desde a mais tenra infância, quando torcemos para que o He-Man mate o Esqueleto, e levamos tal preceito no inconsciente para toda a vida. Quem não gostaria de estar na pele de Davi quando ele derruba o gigante Golias – personificados, respectivamente, nos “oprimidos pelo capitalismo desenfreado” e nas grandes corporações do mercado? Oferecer às pessoas a sensação de estar jogando no time dos mocinhos é quase irresistível. Como diria Chapolin Colorado, “sigam-me os bons”. Mas quem define quem são os bons? Só lamento ter de informar que o que a esquerda oferece não passa de uma sensação.

Quer oferecer algo que jamais será recusado? Ofereça aos jovens a possibilidade de lutar contra o establishment, de desafiar o status quo, de fazer uma revolução. A adolescência é a época da rebeldia contra as regras impostas pelos pais e pela sociedade ─ agravada pela dificuldade recorrente de muitos em sentir-se parte de um grupo ─, e canalizar essa energia para a política “transformadora” costuma render partidários fiéis e obedientes. Por outro lado, nada pode ser mais monótono e careta para os púberes do que o trabalho repetitivo diário, a família tradicional, a “monotonia” gerada pelos inegáveis avanços da civilização. Ponto para os partidos de esquerda, que costumam oferecer essa chance de aloprar, de jogar para o alto as “imposições do mercado”, de resetar tudo e começar do zero.

A tradição, então, passa a ser vista por esses jovens como um arcabouço moral que visa manter os privilégios da burguesia dominante e não mais como a consagração de valores e costumes que, em maior ou menor grau, contribuíram e contribuem para a estabilização da humanidade, para amansar o selvagem do homem. A partir daí, o clássico estudar/trabalhar/seguir regras/respeitar limites passa a ser visto como subserviência, e, portanto, a ser contestado e recusado por essa turma. Mais preocupante ainda é que muitos desses jovens não abandonam essa visão com o avançar da idade, e em diversos casos ainda aprofundam esse comportamento, invariavelmente apontando sua bazuca intelectual na direção do liberalismo econômico – o mesmo que, vez por outra, é convocado pela própria esquerda para pôr ordem nas contas públicas.

Edmund Burke, em seu clássico ensaio “Reflexões sobre a Revolução na França”, já criticava a radicalização dos revolucionários franceses por seu rompimento brusco e violento com os antigos costumes e com a tradição – com o uso indiscriminado da guilhotina. Transcrevo trecho célebre de sua obra: “É impossível estimar a perda que resulta da supressão dos antigos costumes e regras de vida. A partir desse momento, não há bússola que nos guie, nem temos meios de saber a qual porto nos dirigimos. A Europa, considerada em seu conjunto, estava sem dúvida em uma situação florescente quando a Revolução Francesa foi consumada. Quanto daquela prosperidade não se deveu ao espírito de nossos costumes e opiniões antigas não é fácil dizer; mas, como tais causas não podem ter sido indiferentes a seus efeitos, deve-se presumir que, no todo, tiveram uma ação benfazeja”. Em outras palavras, a humanidade chegou ao atual estágio civilizatório não porque ignorou todos os aprendizados transmitidos pelas gerações anteriores e, sim, porque cada sucessor partiu de onde o sucedido havia parado.

E o que nos ensinaram as experiências de diversas nações no campo econômico? Que quanto mais livre o sistema, melhores serão as condições de vidas de todos os cidadãos, especialmente dos mais pobres – acreditem: os alemães pobres não pulavam o muro de Berlim do lado ocidental para o oriental. Deveríamos, então, em nome da filosofia de manter a “mente aberta”, ignorar tais lições e partir de uma tábula rasa? Eu considero que mais de 100 milhões de mortes não podem ter sido em vão!

Por falar em mortes, é digno de nota que, uma vez que pessoas são convencidas de que estão lutando o “bom combate”, elas passam a acreditar que quaisquer métodos serão toleráveis em prol de seu ideal. Vale absolutamente tudo no jogo do Bem contra o Mal, inclusive virar a mesa e cuspir no adversário reacionário. Todas as atrocidades do comunismo foram “justificadas” partindo desse princípio: tudo é permitido na busca de uma sociedade igualitária – menos estudar, trabalhar e produzir, claro. Se o monopólio das boas intenções está comigo, do outro lado só pode haver um fascista. Porrada nele!

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Contestar a busca pela estabilidade é remar contra a natureza humana, que busca incessantemente reduzir o caos em seu cotidiano. Evidência disso é que turistas de países desenvolvidos gostam de visitar países como o Brasil, mas dificilmente cogitam fincar raízes em um lugar tão instável. E todos somos assim: gostamos de aventuras na desordem, mas no final do dia queremos voltar para casa. Até mesmo o mais mulherengo dos homens, eventualmente, vai acabar casando – não estou rogando praga, viu: casar é bom pra caramba! Conheço pessoas que moram em Curitiba, a capital MENOS bagunçada do Brasil, e que costumam criticar o povo Curitibano e seus hábitos MENOS brasileiros, como evitar jogar lixo no chão e manter um círculo de amigos mais restrito. Todavia, esse pessoal não quer se mudar para outra cidade, e alguns que se mudaram acabaram voltando. Normal: é da natureza humana, como explicado.

Papel essencial na formação desta dicotomia desempenham os estúdios de Hollywood e os dramaturgos nacionais, que disseminam a cultura de ódio aos “capitalistas”, como se nós, que fazemos trocas voluntárias todos os dias, não fossemos capitalistas também. É explícito que os protagonistas das tramas quase sempre são pessoas que não valorizam os bens materiais, ao passo que os antagonistas, indefectivelmente, são gananciosos que desprezam qualquer coisa que não possa ser comprada. O mantra “trabalhe menos, viva mais” é difundido à exaustão (há de se notar que o carpe diem de Horácio pregava “colher o dia” no sentido de evitar gastar o tempo com coisas inúteis, e não da vagabundagem). Todavia, é fato que os melhores IDH no mundo são observados em sociedades capitalistas que adotaram medidas de cunho liberal em sua economia – possivelmente a Nova Zelândia seja o exemplo atual mais emblemático. Mas isso talvez não renda audiência para o filme ou para a novela.

Já que a tônica é “problematizar” (passatempo favorito da esquerda), não seria de bom tom que os esquerdistas, antes de virarem “inocentes úteis” (versão menos ofensiva da expressão cunhada por Lenin), checassem se as medidas que propõem, são, de fato, benéficas à população? Será que lutar por ajuda estatal (ou seja, com o dinheiro dos pagadores de impostos – inclusive dos ajudados) para todos os cidadãos (experimente somar todas as minorias do Brasil e ver o resultado) é melhor do que reivindicar privilégios para quem realmente está em desvantagem competitiva, como portadores de necessidade especiais e idosos? Será que desejar que a renda seja distribuída, em detrimento de enxugar o Estado para que circule mais dinheiro nas mãos da iniciativa privada é mesmo o melhor para as pessoas baixa renda, ou vai apenas fazer com que quase todos virem pessoas de baixa renda? Será que aumentar tributos para subsidiar o não-trabalho vai fazer nossa sociedade evoluir mesmo? E será que já cogitaram a hipótese de que muitos pobres só são pobres em decorrência do tamanho do Estado, e não apesar dele? Vou deixar Milton Friedman encerrar este parágrafo: “Geralmente a solução do governo para um problema é tão ruim quanto o próprio problema”. Para não mencionar que costumam custar muito caro!

Eis o “X” da questão: essa sensação de altruísmo que as pessoas buscam na esquerda é uma falácia. Apoiar partidos com aspirações socialistas para se sentir bem consigo mesmo – nem que para isso seja necessário desviar o olhar dos fatos, estes eternos adversários da esquerda – pode ser confortável (dá para fazer até do sofá de casa), mas não repercute positivamente na vida de ninguém. Por isso, deixo sugestões de ordem prática para aqueles que querem “melhorar o mundo”: doe dinheiro para um orfanato; use seu domingo para prestar serviços gratuitos para um asilo; desenvolva ações filantrópicas diversas. Enfim, não queira financiar o Estado para que ele preste auxílio: faça você mesmo.

Aliás, essa menor intervenção estatal é fundamental pelo simples motivo de que há pessoas desonestas tanto entre os políticos de esquerda quanto entre os de direita – e justamente por isso é salutar que essas pessoas não possuam poder de causar muito impacto em nossas vidas com suas atitudes. Vamos de Milton Friedman uma vez mais: “O poder para fazer coisas certas é também poder para fazer coisas erradas; os que controlam o poder hoje podem não ser os mesmos de amanhã”.

Ainda nesse sentido, menos governo e mais iniciativa privada significam mais “boas ações”. Ou você não é grato ao padeiro que acorda cedo todo dia para fazer pão para as pessoas do seu bairro, ou ao açougueiro que prepara a carne para seu churrasco com seus amigos? Ah, mas eles não pretendiam ajudar ninguém, queriam apenas lucro, os gananciosos. Pois é…

E se você achou estranho um fórum nos Estados Unidos com esse tipo de tópico, provavelmente também ficaria surpreso em saber que a esquerda avança a passos muito largos naquele país. Bernie Sanders, quase um Che Guevara de cabelos brancos e sem boina, é que não deve ter ficado surpreso com tanto apoio recebido nas prévias do partido Democrata. Não tem jeito: uma população com tanta “elite culpada” é um prato cheio para os “progressistas” (palavra que não me conformo ter sido colada pela esquerda).

Um dia desses, no seriado Mom, vi uma cena muito elucidativa. A mãe fala para a filha, fingindo muita emoção: “Vá e dance como se ninguém estivesse olhando; viva como se não houvesse amanhã; ame sem limites; e na volta, traga-me um balde de frango frito, extra crocante”. É por aí mesmo: é bacana se deixar levar pelos instintos às vezes, mas bom mesmo é poder viver nossas vidinhas, assistir TV com a família e dar comida para o cachorro.

Reze agradecendo a Deus todo dia o fato de que a maioria das pessoas possui rotinas chatas e enfadonhas: são elas que garantem boa parte da estabilidade do mundo moderno, além dos serviços e produtos que estão a nosso alcance. Que bom que os caixas do supermercado hoje não saíram dançando na rua como se não houvesse amanhã, senão eu teria ficado sem leite. Pode ser coisa da minha cabeça, mas eu me sinto grato apenas por acordar vivo todo dia. Não precisa muito mais, não. E se eu quiser mais, vou correr atrás.

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