Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Para sepultar o sonho presidencial de Serra, Lula ressuscitou a oposição

“Eu gostaria de uma eleição plebiscitária, ou seja: nós contra eles, pão pão, queijo queijo”, desafiou em outubro de 2009 o mais presunçoso dos presidentes, em êxtase com taxas de popularidade anabolizadas por comerciantes de porcentagens. Bastaria ensinar ao país que Dilma Rousseff era o codinome com que disputaria a própria sucessão para que o […]

“Eu gostaria de uma eleição plebiscitária, ou seja: nós contra eles, pão pão, queijo queijo”, desafiou em outubro de 2009 o mais presunçoso dos presidentes, em êxtase com taxas de popularidade anabolizadas por comerciantes de porcentagens. Bastaria ensinar ao país que Dilma Rousseff era o codinome com que disputaria a própria sucessão para que o jogo começasse com o placar já assinalando 80% a 4%. Um oceano de brasileiros felizes contra a poça de insatisfeitos profissionais, imaginou o campeão da bazófia. A goleada estava garantida.

“A maior obra de um governo é eleger o sucessor”, avisou Lula em fevereiro passado, quando abandonou o emprego para virar animador de palanque fora-da-lei. Nos oito meses seguintes, o chefe de Estado reduzido a chefe de facção atropelou a Constituição, debochou da Justiça Eleitoral, afrontou o Ministério Público, zombou dos adversários, fez o que pôde e tudo o que não podia para impor ao país a vontade do monarca.

Para transformar em herdeira uma formidável nulidade, o presidente de todos os brasileiros açulou a radicalização maniqueísta, abençoou a beligerância das milícias, colocou a administração federal a serviço de uma candidatura, protegeu os estupradores de sigilo fiscal, aplaudiu a produtividade da usina de dossiês e redimiu previamente todos os pecadores para conseguir o que queria. Ganhou a eleição. Mas o Lula que vai deixando o governo é ainda menor do que o que entrou. E não foi pouco o que perdeu.

O país redesenhado pelas urnas do dia 31 informa que a estratégia do “nós contra eles” foi uma má ideia. Disfarçado de Dilma Rousseff, Lula sepultou os sonhos presidenciais de José Serra. Mas ressuscitou, com dimensões especialmente impressionantes, a oposição que não houve em seus oito anos de reinado. No mundo dos ibopes e sensus, os que não se ajoelham no altar do Primeiro Companheiro nunca ultrapassaram a fronteira dos 5%. Sabe-se agora que, nas urnas, 5% são 45%. Disseram não a Lula 43.711.388 brasileiros. Somados os que se abstiveram, anularam o voto ou o deixaram em branco, 80.050.565 ignoraram a determinação do reizinho.

Popularidade não rima com voto, reiterou a paisagem eleitoral. No Brasil das pesquisas, Lula vai beirando os 100% de aprovação (ou 103%, se a margem de erro for camarada). Na vida como ela é, a unanimidade foi rebaixada a 56% dos votos válidos. Dilma venceu na metade superior do mapa (veja ilustração acima). Foi derrotada na outra. Em lugarejos perdidos nos grotões, ganhou muito bem. Perdeu feio em regiões especialmente desenvolvidas.

Os candidatos do PSDB foram vitoriosos no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais, no Tocantins, no Pará, em Alagoas, em Roraima e em Goiás. Como o DEM venceu em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte, a oposição vai governar 53% do eleitorado e a maioria da população brasileira. O Brasil insatisfeito é infinitamente maior que Serra, muito mais combativo que o PSDB. E está disposto a resistir energicamente ao prolongamento da Era da Mediocridade.

Se o PSDB não assimilar a partitura composta pela resistência democrática, que destaca enfaticamente valores éticos e morais, vai perder o bonde da história. Os eleitores que não compraram a dupla Lula-Dilma também rejeitam partidos que só agem ─ e com desabonadora timidez ─ quando começa a temporada de caça ao voto. Se os líderes tucanos não aprenderem a opor-se o tempo todo, não terão ninguém a liderar.

Os brasileiros inconformados descobriram que podem viver sem eles. E sabem o que querem. Não há esperança de salvação para políticos que se declaram adversários do governo mas não sabem, ou não querem, interpretar o pensamento e as aspirações da grande frente oposicionista.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Félix Ibarra

    O problema é que o PSDB, o DEM e até mesmo quem diria o PPS estão cheio de políticos que pensam só em sí, só em suas eleições. A verdade é que o Brasil necessita urgentemente de um partido que faça um contraponto ideológico ao PT, mas tenha por característica militância e parlmentares empenhados tal como são os petistas.
    E aqui eu gostaria de chamar atenção para parlamentares como Marisa Serrano, Niura Demarchi, Alvaro Dias e alguns pouquissimos outros tem feito no senado.
    Aliás a fidelidade de Marisa Serrano tem sido invejável. Uma grande mulher, eu passei a admirá-la.

    Curtir

  2. Comentado por:

    bugalle

    Pobre Brasil,nimguem merece o pt por mais quatro anos . Nâo vai sobrar nada quando essas aves de rapina largaren o poder

    Curtir

  3. Comentado por:

    Brasilino Brasa

    Ganharam e levaram o país todo. Câmara e Senado nas mãos delles. Dificil é se reconhecer quem é o mais certo ou mais errado neste país. Que Lula manteria a disputa abaixo da linha de cintura já se sabia. Nada como se ter uma justiça omissa, tão mau carater e apátrida quanto seus colegas do Congresso para se levar as leis e a Constituição nas “coxas”. Salve Honduras!

    Curtir

  4. Comentado por:

    glauber gonçalves

    É claro que nunca se deve calar contra atos estapafurdios de “reizinhos” que fazem do pais o que querem,mas se deve dizer uma palavra contra os que se deixam dominar calados.Se fosse no tempo de Lula sindicalista o PT em geral estaria nas ruas contra o mensalão e todas as obcenidades administrativo-financeiras que vimos nos ultimos anos.Ninguem enfrentou o erro,a informação distorcida,a falta de etica,decoro,ou de vergonha na cara.Deixaram o “homem” crescer demais e agora…

    Curtir

  5. Comentado por:

    Florêncio Regis Barbosa Filho

    Pergunte à revista.

    Curtir

  6. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Boa tarde, Augusto!
    Tudo acelerado e pelo avesso. Fui estudante secundarista filiada ao movimento estudantil, sob o governo de João Figueiredo e, quando fazíamos alguma mobilização, sempre avisávamos a imprensa tanto para divulgação quanto para nossa proteção. Quase todos tínhamos o telefone de certo deputado estadual do então MDB e, mais tarde, deputado federal já pelo PT e, depois, senador. Sim, Eduardo Suplicy. Parecia um democrata. Sempre o chamávamos numa emergência. Éramos jovens e, com natural presunção, queríamos acelerar a História. Aqueles prestes a completar 18 anos queriam já votar para presidente ao final do governo de Figueiredo. Seu virulento repúdio aos líderes militares e ao atraso dos líderes civis representado, por exemplo, por Sarney; sua aparente defesa dos trabalhadores e seu jeito de homem do povo faziam de Lula o candidato ideal dos idealistas. Seria a redemocratização jamais imaginada – um operário abençoado pela elite de bom coração e unido a sensíveis intelectuais sucederia o militarismo e, claro, desalojaria a elite direitista, dona destepaiz há 500 anos. Era o sonho de fazer um país justo e moderno. Mas – Garrincha, me socorra – faltou combinar com os russos. Isto é, combinamos, mas fomos traídos. Vinte anos depois, o sonho acalentado pela administração FHC, foi deixado aos cuidados de um jeca ressentido que um dia parecera o zelador ideal. Exposto ao tempo revelador de caráteres e intenções, o cara anunciou o retrocesso. É preciso apequenar o país e suas instituições. O triunfo do atraso e do primitivismo é a garantia da perpetuação do poder. Exatamente como a elite direitista que governa estepaiz há 510 anos. Mas, nos últimos 10, junto com a esquerdista. E por meio da mais ampla, plena e soberana corrupção. Inagurou-se a era do avesso num país que já não era muito lógico: a UNE só protesta a favor do governo pelo qual é regiamente paga; a imprensa apanha numa manifestação estudantil; Suplicy, que atendende aos telefonemas de estudantes doidões para quem liberdade é falta de regras, não atendeu aos boxeadores cubanos que buscavam liberdade; as deliquências de Lula listadas neste post magistral confirmaram seu desprezo ao estado democrático de direito, o qual defendia não por convicção, mas por abjeto oportunismo; Serra, mais sonolento que sonhador, agrega Lula à sua campanha; governadores de oposição bajulam a presidente cuja eficiência de candidata que se vale de dossiês e quebras de sigilo fiscal de oponentes é substituída pela consternadora e imoral inépcia administrativa; enquanto FHC, o melhor zelador que nosso sonho teve, recebe distraídas atenções. Mas a célere jornada do país do avesso ao primitivismo não matou o sonho. É o avesso disso: ele vai enterrar os farsantes oportunistas. Talvez nossos filhos ou netos o vejam. Não importa, desde que lhes deixemos esse legado, pois um sonho não envelhece; os canalhas, sim. Nós também, claro, mas sonhando, o que nos mantém em forma. Canalhas não sonham – vigiam e agastam-se. Sonhe também Serra, mas, por favor, acorde. Um beijo, Valentina.

    Um beijo, Valentina.

    Curtir

  7. Comentado por:

    anticorruptos e anticorruptores

    Até 2011:
    o PT treinou sua patrulha virtual à surdina, discretamente.
    .
    2012:
    “PT treina ‘patrulha virtual’ para atuar em redes sociais” (notícia que precisa ser lida por todas as pessoas que acreditam nas palavras dos defensores das ações do PT e partidos aliados):
    http://www1.folha.uol.com.br/poder/992264-pt-treina-patrulha-virtual-para-atuar-em-redes-sociais.shtml

    Curtir

  8. Comentado por:

    Lourival Marques

    Serra está se tornando o maior estorvo do PSDB na luta para retomar a presidência… Se os tucanos têm alguma veleidade de voltar à presidência, devem antes mandá-lo vestir um pijama e aposentar-se… Tenho certeza de que um governo de Serra seria tão ruim quanto foi o do Lula…

    Curtir

  9. Comentado por:

    Lourival Marques

    Como disse Janer Cristaldo, a carreira política de Serra está sepultada… Se o PSDB quer voltar à presidência, é bom procurar um nome que tenha mais fibra e que não tenha medo de dar de dedo no PT…

    Curtir

  10. Comentado por:

    robespierre

    É DURO TER QUE ESCREVER O QUE EU VOU ESCREVER, PORQUE EU SOU OBRIGADO A LEMBRAR DA IDADE QUE EU TENHO: O PT VAI ACABAR VIRANDO O MAIOR PARTIDO DO OCIDENTE ! CREDO, COMO EU TÔ PASSADO !

    Curtir