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Jobim das Selvas ressurge no papel de especialista em desastres aéreos

Com uma farda de guerreiro da floresta no lugar do terno cinza-Brasília, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, invadiu  Manaus no fim de 2007. Se tivesse alguns anos e arrobas a menos, provavelmente teria aparecido fantasiado de Tarzan. O calendário e a balança o aconselharam a contentar-se com a imitação de Johnny Weissmuller no papel que interpretou no […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 17h30 - Publicado em 4 jun 2009, 20h13

Com uma farda de guerreiro da floresta no lugar do terno cinza-Brasília, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, invadiu  Manaus no fim de 2007. Se tivesse alguns anos e arrobas a menos, provavelmente teria aparecido fantasiado de Tarzan. O calendário e a balança o aconselharam a contentar-se com a imitação de Johnny Weissmuller no papel que interpretou no crepúsculo da carreira: Jim das Selvas. Ou Jobim das Selvas.

Ao desembarcar na frente de combate, o gerentão da floresta foi logo avisando que “a Amazônia tem dono”. Depois de colocar em fuga uma brigada de saguis e reduzir uma sucuri de quartel a prisioneira de guerra, declarou-se vitorioso e voltou a Brasília. Mais um que não perde chance de ser ridículo, constatou o país castigado pelo apagão aéreo a caminho do 1° aniversário.

Oito meses antes, no discurso de posse, Jobim justificara a fama de sabido com citações de frases atribuídas a nomes de rodovias, ruas e praças, e com a evocação de episódios protagonizados por gente que virou estátua há muito tempo. O desfile foi encerrado por Benjamin Disraeli, duas vezes primeiro-ministro do império britânico no fim do século 19. “Never complain, never explain, never apologise”, caprichou o orador, que traduziu a frase em inglês para que Lula também entendesse: .”Nunca se queixe, nunca se explique, nunca se desculpe”.

“Aja ou saia, faça ou vá embora”, berrou em seguida o gaúcho com mais de 100 quilos esparramados por quase 2 metros. O início da contra-ofensiva reclamada pelo país desde outubro de 2006 provocou efeitos tremendos. Andorinhas voaram de costas, urubus ficaram brancos de medo, flagelados dos aeroportos correram para os portões de embarque, nuvens fugiram do céu.

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Passados xxx meses, Jobim não agiu nem saiu. Não fez mas ficou. Seis meses depois de conquistar a Amazônia, desmoralizado pelos sucessivos fiascos na guerra contra o apagão, foi embora de novo, agora para a França. No verão europeu de 2008, escoltado pelo ordenança Roberto Mangabeira Unger, ministro de problemas futuros, Jobim baixou em Paris fantasiado de almirante, enfurnou-se num submarino, voltou à terra firme para deslocar-se até Moscou, fez cara de freguês exigente ao passar em revista a frota de submarinos russos, disse aos anfitriões ansiosos que precisava pensar melhor no negócio e retornou ao Brasil.

Livre de vigilância, enfim resolveu agir e fazer. Negociou a venda de 300 mísseis ao Paquistão, divorciado desde a infância da vizinha Índia e em permanente noivado com terroristas, reiterou que o Brasil não assinaria o tratado que proíbe a fabricação de bombas de fragmentação e desapareceu nas coxias.  Voltou repentinamente ao palco a bordo do acidente com a avião da Air France, desta vez no papel de especialista em desastres aéreos.

“A FAB detectou no mar uma faixa de cinco quilômetros com destroços de um avião. Não há dúvidas: são destroços do avião da Air France”, decretou durante uma espantosa entrevista coletiva. “O que estamos fazendo aqui é a localização de sobreviventes, ou melhor, de restos”, começou a procissão de atentados à inteligência, ao bom-senso e à compaixão. “Além dos corpos afundarem, a costa de Pernambuco tem o problema que vocês sabem”, jogou a isca.

Um jornalista mordeu: era alguma referência a tubarões? “Sim”, respondeu Jobim, para produzir em seguida uma inverossímil dissertação sobre ruptura de abdomes. Há dois anos, Jobim sabia apenas que as poltronas dos aviões deveriam ser bem mais largas.  “Um homem com o meu tamanho não cabe nelas”, queixou-se. Já aprendeu um pouco mais, comprovou a entrevista. Mas não aprendeu a criar juízo.

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Nem precisa aprender. No Brasil imerso na Era da Mediocridade, sensatez virou coisa de tempos remotos. Tanto assim que um Nelson Jobim foi deputado federal, chefiou o Supremo Tribunal Federal, hoje é ministro da Defesa. Por que não sonhar com a presidência da República?

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