Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Especial VEJA: Olympio Mourão Filho, um lobo e seus demônios

Publicado na edição impressa de VEJA A conspiração era dele, o golpe foi dele, sem ele tudo estaria perdido ─ a democracia, os generais “que fazem crochet”, a massa ignara, o Brasil. O general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, achava que tinha arriscado tudo para fazer a revolução. Acabou […]

Publicado na edição impressa de VEJA

general-olympio-mourao-filho-1324-1024x426

A conspiração era dele, o golpe foi dele, sem ele tudo estaria perdido ─ a democracia, os generais “que fazem crochet”, a massa ignara, o Brasil. O general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Minas Gerais, achava que tinha arriscado tudo para fazer a revolução. Acabou ficando sem nada, exceto o elevado conceito que fazia de si mesmo e o desprezo ferino por praticamente todos os demais, inclusive companheiros de farda.

Anotou em seu diário no dia 31 de março, terça-feira, às 3h15 da manhã: “Vou partir agora para a luta às cinco horas da manhã, dentro de uma hora e cinquenta minutos, em más condições, portanto, porque serei obrigado a parar no meio do caminho e o Exército inteiro vem contra mim, como aconteceu em São Paulo em 1932. Ninguém me prenderá. Morrerei lutando”. Não morreu e, a rigor, não lutou, mas foi indubitavelmente o pioneiro da rebelião militar lançada de Minas Gerais que, desfechada em atmosfera duvidosa, chegou ao Rio de Janeiro quando a vitória já estava decidida.

No caminho, um telefonema havia mudado tudo. O inimigo que Mourão esperava encontrar era o destacamento avançado do conhecido Regimento Sampaio, sob o comando do coronel Raimundo Ferreira de Souza. Como uma espécie de conspirador sênior (e controlador do espeloteado comandante), o venerando marechal Odílio Denys acompanhava a movimentação de Mourão e foi ele o indicado a falar como o chefe das forças teoricamente adversárias pelo telefone de uma oficina mecânica: conhecia o coronel, que havia sido seu subordinado. “Estou com a tropa e com mineiros para depor o governo e acabar com a ameaça do comunismo”, informou. No fim da conversa, o coronel Ferreira de Souza já tinha mudado de lado: “Eu e toda a minha tropa nos solidarizamos com o movimento revolucionário”.

Enquanto Mourão se imaginava um César triunfante, outros generais mais estrelados se movimentavam nos diversos focos de conspiração. Dois dias depois de sair de Minas contando com a morte, ele chegou ao quartel-general do Exército no Rio, também de madrugada, já antevendo que seria passado para trás. O general Arthur da Costa e Silva havia assumido o comando do Exército e queria outro nome para a posição que Mourão considerava sua de direito, a chefia do I Exército. Mourão foi ao 6º andar, mandou um coronel acordar Costa e Silva, ouviu e acatou a decisão de ter outro no lugar que desejava. “Aí começou a desgraça do Brasil. Eu tirara a nação de um abismo e empurrara-a para outro. Se eu conhecesse o general Costa e Silva como hoje, o teria expulsado do Quartel-General”, escreveu em suas memórias, entregues no leito de morte ao historiador Hélio Silva, que o considerava um homem “bom, sofredor, pitoresco, capaz de assomos de cólera”.

O temperamento explode em praticamente todas as páginas de suas memórias. Proclamando para si mesmo a “articulação, o desencadeamento e a vitória” da revolução, escreveu: “Porque a verdade é que alguns demônios andaram soltos neste país, enquanto a maioria desta nação estava entocada, apavorada, os chefes militares prontos a se deixarem dominar, contanto que continuassem a viver, viver de qualquer maneira, sem coragem de arriscar as carreiras”. Ele considerava ter tido os olhos abertos para esses “demônios” num jantar em 1961 em que Leonel Brizola, na época governador, e outro general de sua confiança falaram livremente sobre seus planos políticos. “Fui para casa dormir, absolutamente disposto a começar uma contra-conspiração para impedir que uns loucos furiosos transformassem este país numa fogueira.”

Mourão não fez outra coisa, cultivando a reputação de lobo solitário ─ alguns achavam que um bobo solitário, que falava demais, agia com impulsividade e cultivava o próprio ego a ponto de denominar de Operação Popeye os planos para sair de Juiz de Fora e, em marcha forçada, chegar ao Rio a tempo de “prender no Palácio Laranjeiras o presidente, o comandante do I Exército e quantas autoridades mais fosse possível”. Por que Popeye? Porque ele fumava cachimbo. “Manobra de louco? Não importa. Era minha manobra”, disse sobre a operação que nunca executou. Em sua própria e famosa definição, “em matéria de política eu sou uma vaca fardada. Se de acordo com minha consciência estou certo, os outros que me sigam”. Tantos o seguiram. Depois, muitos o abandonaram.

Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes, Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma Gryzinski.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Newton

    Um grande herói brasileiro, mas em um país como o nosso onde o que mais vale é filigrana política, não poderia mesmo ter um fim diferente.

    Curtir

  2. Comentado por:

    Ricardo

    Seria interessante estudar mais a fundo esta parte da História. Talvez esbarre na hierarquia militar.

    Curtir

  3. Comentado por:

    Guerreiro Verde-Oliva

    Mais um texto esclarecedor do General da Reserva ROCHA PAIVA:
    “EUA – MOVIMENTO DE 31 DE MARÇO DE 1964 – OPERAÇÃO CONDOR
    General da Reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva
    O envolvimento de um país na política interna de outro sempre existiu. Os EUA e a URSS o faziam com seus serviços de inteligência e diplomacia. Alguém é ingênuo para pensar que o Brasil não o faça?
    Os EUA apoiavam financeiramente institutos, partidos e políticos anticomunistas brasileiros. Acompanhavam a situação e, com a ameaça de uma guerra civil revolucionária, preparavam-se para apoiar a oposição a Jango ou mesmo intervir militarmente. Não aceitariam passivamente a queda do Brasil na esfera da URSS, pois, ao contrário de Cuba, seria fatal para sua liderança continental ao arrastar toda a América do Sul (AS) para o socialismo.
    A URSS apoiava organizações ligadas ao movimento comunista internacional. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) não era nacional e sim um vassalo subordinado ao Partido Comunista da URSS, seguindo sua orientação para a tomada do poder. As Ligas Camponesas e os Grupos dos Onze eram financiados por Moscou para lançar-se à luta armada, caso a subversão e infiltração não lograssem êxito. A KGB, órgão de informações da URSS, infiltrara-se nos ministérios, estatais, Forças Armadas (FA), mídia e instituições científicas e educacionais. O golpe comunista era real e estava em andamento.
    Os socialistas alimentam a teoria de que os EUA autorizaram e dirigiram o Movimento de 31 de Março. Distorcem descaradamente atividades normais de diplomacia, relações internacionais e inteligência, apresentando-as como sendo articulações com lideranças nacionais para a execução de um golpe de Estado. As famosas cartas do Embaixador Lincoln Gordon não mostram nenhuma participação dos EUA na preparação nem no Movimento. Para o Embaixador: “O autor do golpe contra Goulart foi o próprio Goulart. Se ele fosse mais habilidoso, teria pressionado por suas reformas dentro do âmbito constitucional, em vez de ceder à tentação de seguir os modelos de Getúlio Vargas e Perón”. A historiadora Phyllis Parker publicou o livro “1964: O Papel dos EUA no Golpe de Estado de 31 de Março”, entrevistando os principais personagens do episódio e acessando a correspondência secreta. Disse não ter encontrado provas da participação direta dos EUA naquele evento, embora reconheça que apoiaram o desenlace da deposição de Jango, acompanharam a evolução dos acontecimentos e tinham um plano para o caso de uma guerra civil. Uma esquadra iniciara deslocamento dos EUA para o sul, no final de março de 1964, mas retornou após o rápido sucesso do Movimento (pg. 99 a 116).
    Melhor assim, pois se a esquadra desembarcasse no Brasil mudaria todo o quadro. A massa das FA certamente reagiria contra a violação de nossa soberania e do sagrado solo da Pátria. Problemas brasileiros são resolvidos entre brasileiros.
    Além disso, o livro “A KGB e a Desinformação Soviética” de Ladislav Bittman, do Serviço de Desinformação da Tchecoslováquia, confirmou ser fictícia a “Operação Thomas Mann” para derrubar governos latino-americanos. Foi forjada pela KGB.
    E a Operação Condor? Ora, assim como hoje existem a Conferência dos Exércitos Americanos e as Reuniões Bilaterais e Regionais para tratar de assuntos de pessoal, operações, ensino, logística, doutrina e, também, inteligência (inclusive antiterrorismo), naqueles anos havia reuniões para tratar de diversos assuntos militares, intercambiar informações, experiências e, também, cooperar no combate à ameaça vermelha. Por que não?
    Os socialistas condenam uma ilusória participação dos EUA no Movimento de 31 de Março, mas aceitam como normal os comprovados financiamentos e orientação soviética, cubana e chinesa na subversão e na luta armada. No início dos anos 1960, havia a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), exportando a guerra revolucionária a partir de Cuba. Hermógenes P. de Arce, em “Terapias para Cerebros Lavados” (Cap. VII; p.277), diz: “En 1974, se fundó en París una Junta de Coordinación Revolucionaria integrada pelo Ejército de Libertación Nacional de Bolívia, Ejercito Revolucionário del Pueblo de Argentina, el Movimiento de Libertación Nacional Tupamaros de Uruguay y el Movimiento de Izquierda Revolucionária de Chile (—) y junto com ellos luchará por fortalecer y acelerar el processo de coordinación de la izquierda revolucionária latinoamericana y mundial”.
    Portanto, nada mais lógico do que os governos agredidos se aliarem para neutralizar a guerra revolucionária de âmbito internacional, que procurava implantar ditaduras de partido único em toda a AS. Os socialistas, mestres da hipocrisia e falsidade, condenam os regimes militares por violações como supostas trocas de prisioneiros, mas se calam quando o governo petista devolve refugiados cubanos à ditadura de Fidel Castro, sanguinário ícone de nosso governo e da liderança socialista tupiniquim.”

    Curtir

  4. Comentado por:

    rodrigo

    augusto por favor grave ou convide a deputada maria corina machado para o roda viva, não deixe passar essa oportunidade, e se possível coloque entrevistadores como rodrigo constantino e da esquerda para um debate esclarecedor , devemos isso a ela a os venezuelanos, não adianta criticar os regímens se não damos voz aos que lutam contra eles.

    Curtir

  5. Comentado por:

    Razumikhin

    Grande homem.

    Curtir

  6. Comentado por:

    marcelo

    Eu acho que sempre há a necessidade de certas pessoas quebrarem as regras na hora certa. Foi por isso que o House contratou o Foreman. Na minha opinião, o desprezo sofrido pelo General Olimpio Mourão pelo seus pares foi, na verdade, uma inveja disfarçada.

    Curtir

  7. Comentado por:

    Marcio S. Lacerda

    Por que o tom depreciativo? Para quem na época acompanhou e leu a respeito, houve muita negociação entre as 2 tropas estacionadas em posições opostas em Três Rios, antes que as do Rio aderissem. E ele passou o bastão de comando para Costa e Silva porque quis, por respeito a hierarquia. Eu morava em Juiz de Fora na época e lembro de como as tropas foram recebidas com carinho no seu retorno. Foi um grande homem, um grande brasileiro, desprovido de ambições pessoais, um patriota.

    Curtir

  8. Comentado por:

    Cau Marques

    É a personalidade típica daquele que “resolve”, mas devido ao perfil pessoal, não progride na carreira. Nas forças armadas americanas, talvez o General Patton fosse um outro exemplo.

    Curtir

  9. Comentado por:

    alfredo

    Quem homem valente. Queria ver ele em uma guerra, ao lado dos jovens, lutando contra outro exército bem armado.

    Curtir

  10. Comentado por:

    J.B.CRUZ

    Se REVOLUÇÃO ou golpe, como quer a esquerda festiva de hoje,isso pouco importa, pois importante foi a vitória da LEGALIDADE…
    Alguém perguntaria: Mas como LEGALIDADE se o governo LEGAL foi DEPÔSTO??.E a resposta:O governo não era legal,ninguém votou nele,(substituiu JANIO QUADROS,que havia renunciado), menos ainda para que o PAÍS fosse transformado numa república sindicalista da União Soviética..
    Cinqüenta anos é pouco tempo para uma NAÇÃO,mas muito tempo de vida para qualquer pessoa..
    É só imaginar que uma pessoa de 50 anos hoje era um recém-nascido nesse tempo, e, nesse aspecto, a mente humana é companheira do esquecimento..
    Eu nunca pensei em socialismo, ideologia do impossível,uma quimera humana..
    A igualdade não é condição, mas conquista do possível,saber seu lugar na sociedade,respeitar direitos e cumprir deveres..
    Hoje, depois de tanto tempo, uma pequena parcela de uma população grande, deseja pensar e viver diferente numa sociedade estratificada entre torturados e torturadores..
    Aliás, a estratificação da sociedade é o procedimento do atual governo a pretexto de JUSTIÇA SOCIAL e DIREITOS HUMANOS..
    E OS HUMANOS DIREITOS COMO É QUE FICA???…
    O direito a uma vida com um mínimo de dignidade,porque os que governam hoje não entenderam assim quando do seu passado, e quiseram fazer seus pontos de vista na marra,´como é caso da atual presidente da república..
    Agora sinceramente;você, Pai de família,gostaria que seu filho se casasse com uma moça que, aos 21 anos de idade,estivesse aí com cabelos desgrenhados, de metralhadora em punho,assaltando bancos e topando qualquer parada desse tipo?..
    Pois é; LAMARCA,MARIGHELLA e outros que se escondiam nas batinas da IGREJA,que mataram e roubaram bancos ou seqüestraram embaixadores estrangeiros, são heróis pensionistas as nossas custas..
    Chamam nossos militares de torturadores e elogiam e adoram CHE GUEVARA, que confessou espontâneamente:
    “””Nos otros tenemos que decidir aqui lo que es una verdade conocida: FUSILAMIENTOS,SI,HEMOS FUSILADO;FUSILAMOS Y SEGUIREMOS FUSILANDO MIENSTRAS SEA NECESSÁRIO”””..Palavras do assassino cruel em 1.974 na tribuna da Assembléia Geral das Nações Unidas, em NOVA YORK..
    Após seis anos de execuções sumárias, de vítimas que chegavam ao paredão exauridas, pois delas se tirava até parte do sangue para transfusões, GUEVARA foi o único guerrilheiro a matar muito mais gente de mãos atadas e olhos vendados do que em combate, que,ao contrário da LENDA, ele evitava mais que o banho..Porco de corpo e alma..
    Mas, tudo tem o seu tempo, é só esperar..

    Curtir