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Netflix: não acredite (muito) no doc ‘Privacidade Hackeada’

Apesar de tratar de uma questão urgente (e real), o documentário falha ao não mergulhar no próprio Facebook em busca de respostas sobre como a rede opera

“O Facebook é desenhado para monopolizar sua atenção. Usa todos os truques básicos do marketing, combina-os com os truques dos jogos de cassino. Caça-níqueis e tal. Aproveitando os instintos, e o medo e a raiva são as formas mais práticas de se fazer isso (…) permite aos anunciantes explorar essa audiência emotiva”. Assim o investidor (e músico, por curiosidade) estadunidense Roger McNamee, um dos primeiros a colocar dinheiro no Facebook, há 15 anos, define a forma como a rede social de Mark Zuckerberg opera. “Eu passei três meses, começando em outubro de 2016, tentando dizer `Acho que vocês estão acabando com a democracia e irão acabar com os seus negócios`”, ainda disse ele, em depoimento ao documentário “Privacidade Hackeada“, da Netflix. Um filme que seria divertido, se não tivesse lidado com assunto tão sério de maneira demasiadamente leviana.

O novo documentário do serviço de streaming estreou em 24 de julho, no mesmo período em que o Facebook chegou a um acordo com o governo dos EUA para um cala a boca em relação ao escândalo Cambridge Analytica. A empresa pagou 5 bilhões de dólares – uma pequena multa de trânsito diante do gigantesco lucro da companhia; superior a 50 bilhões no ano passado – e aceitou tomar algumas medidas, que já deveria ter implementado antes, para resguardar mais a privacidade das pessoas no site. Em troca, deu-se por encerradas as investigações nos EUA acerca do caso. Zuckerberg só saiu ganhando.

“Privacidade Hackeada” trata de meses antes desse esperto acordo. A narrativa é conduzida principalmente por duas figuras: um professor em busca de reaver as informações de seu perfil que teriam sido coletadas pela Cambridge Analytica; e uma ex-funcionária dessa mesma empresa, empenhada em denunciar a má conduta. Isso além de depoimentos de uma jornalista inglesa, de outro ex-empregado da Cambridge Analytica, e de mais um ou outro, como o de Roger McNamee.

E quem não recorda do que se trata o escândalo da Cambridge Analytica? O documentário faz um resgate eficiente, até, da notícia.

Em um resumo, a Cambridge Analytica é aquela consultoria inglesa que teria usado de forma irregular – ainda há dúvidas se seria ilegal – dados coletados por um acadêmico para escrutinar perfis no Facebook, com acesso total a informações que deveriam ser completamente privadas, incluindo as de nossos amigos e (alega-se em “Privacidade Hackeada”) mensagens trocadas de forma direta, fora do ambiente público da rede (e aí, se comprovado, seria totalmente ilegal!). Para isso, criou-se uma armadilha. Sabe aqueles jogos de perguntas e respostas, no estilo “Qual personagem de Game of Thrones você é?”? Eram usados como iscas para ter acesso aos perfis de indivíduos de todo o mundo.

O objetivo: influir nas escolhas políticas de cidadãos de diversos países durante eleições ou referendos. Segundo a tese exibida em “Privacidade Hackeada”, a Cambridge Analytica teria assim levado Trump à vitória nos EUA e o Brexit a vingar na Inglaterra.

A acusação é gravíssima. O papel do Facebook tem de ser debatido. É preciso compreendermos – e balancearmos – o poder de influência e manipulação das redes sociais na sociedade contemporânea. Por tamanha seriedade da questão, “Privacidade Hackeada” também deveria ter se levado mais a sério.

Por trás de uma edição de vídeo ágil e de inserções visuais espalhafatosas, o documentário é fraquíssimo. Nada se apresenta de novo a quem andou se informando pelo noticiário. Pelo contrário, o assunto já parece tão ano passado, em época na qual tudo que vem desse tal mundo digital se transforma rapidamente.

Não se aborda, por exemplo, a guerra comprada pelo próprio Facebook, após vários escândalos, contra quem o usou para influir em eleições, espalhar discurso de ódio, dentre outros motivos condenáveis. Muito menos como, por outro lado, o WhatsApp tem se tornado cada vez mais incontrolável para seu dono, o próprio Facebook.

Só que o maior erro nem é esse. O documentário se atém a escutar tão-somente ex-funcionários da Cambridge Analytica, revoltados e sobre os quais rondam muitas desconfianças, e acadêmicos e uma jornalista deveras mergulhados em teorias exageradas de conspiração.

Muito do que se apresenta é verdade – e gravíssimo. No entanto, falha-se em provar diversos pontos essenciais da teoria de “Privacidade Hackeada”. Não se evidencia, com clareza, qual seria o real papel do Facebook na vitória do Brexit na Inglaterra, em 2016; deixa-se até brecha para se pensar que não teria sido tão essencial assim. Apesar de indicar com maior precisão a influência nas eleições presidenciais estadunidenses, favorecendo Trump, pouco se revela de como o próprio Facebook encarou a situação – de forma equivocada, ou não; tanto faz, pois isso simplesmente não se mostra.

Aliás, quase nada se desenha sobre o crescente poder de Zuckerberg e sua corporação de redes sociais. O empreendedor de cara jovial que se tornou o rosto mais simbólico do Vale do Silício após a morte de Steve Jobs passa praticamente batido pela apuração do documentário. Não são ouvidos representantes do Facebook, políticos (de diversos países) que se envolveram de ambos os lados do escândalo da Cambridge Analytica, nada se devassa das mídias sociais.

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O problema apresentado em “Privacidade Hackeada” é real. Contudo, a falha em apurá-lo de maneira realmente minuciosa acaba por fragilizar o documentário e fazer com que uma questão pertinente e urgente se assemelhe mais a uma daquelas teorias da conspiração que se espalham pelo… próprio Facebook. E assim o documentário vira até uma peça eficiente de entretenimento. Mas nada além disso.

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  1. ViP Berbigao

    Fazem qualquer coisa por dinheiro… e poder. Corremos perigo como civilização. Mas proibir é muito pior. Precisamos de mecanismos para aprender e não se deixar levar por ‘influenciadores’ do interesse próprio… mas se hj somos manipulados pelas pseudoreformas q vão alavancar o crescimento….. tamofu.

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