Mudança climática pressiona preços de alimentos e ameaça inflação no Brasil
Ondas de calor, secas e chuvas extremas reduzem safras e encarecem alimentos, Banco Central estima impacto do El Niño sobre a inflação até 2027
A mudança do clima está deixando de ser apenas um problema ambiental para se tornar também uma questão de preços. Ondas de calor, secas e chuvas extremas têm afetado colheitas em diferentes partes do mundo e provocado aumentos nos preços de alimentos como milho, carne, tomate e algas.
O fenômeno, chamado de “inflação climática”, começa a ganhar peso nas projeções econômicas.
Um levantamento da Zero Carbon Analytics identificou entre 2022 e 2026 uma série de altas de preços de alimentos associadas a eventos climáticos extremos.
Em 2026, todos os casos analisados, com exceção de um, foram relacionados pelos pesquisadores a temperaturas, secas ou chuvas fora dos padrões históricos.
A preocupação é especialmente relevante para o Brasil.
Em junho, uma pesquisa do Banco Central com economistas estimou que o El Niño acrescentaria, na mediana, 0,3 ponto percentual à inflação de 2026 e 0,4 ponto em 2027. Os efeitos tendem a aparecer primeiro nos alimentos.
Café, açúcar e frutas no radar
O Brasil está exposto ao fenômeno por ser um dos maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo. Alterações no regime de chuvas e na temperatura podem reduzir a produtividade das lavouras, afetando tanto o consumidor brasileiro quanto a oferta disponível para o mercado internacional.
O café é um dos exemplos mais claros.
O El Niño ameaça a safra brasileira de 2026, que inicialmente era estimada pela Conab em 66,7 milhões de sacas de 60 quilos. A Associação Brasileira da Indústria de Café estima que condições de calor excessivo e chuvas irregulares possam reduzir a produção em 15% a 20%.
A cana-de-açúcar também já sente os efeitos. Chuvas acima do normal no Centro-Sul brasileiro vêm atrasando a colheita e reduzindo a concentração de açúcar na cana.
Com isso, usinas têm mantido uma parcela maior da matéria-prima destinada à produção de etanol, em vez de açúcar. A produção de açúcar da região pode ficar abaixo dos 40 milhões de toneladas inicialmente previstos para a safra, segundo estimativas citadas pela Reuters.
O efeito sobre os preços não se limita ao produto diretamente atingido. Uma quebra na produção brasileira de açúcar, por exemplo, reduz a oferta mundial e pode pressionar as cotações internacionais.
Como o país participa intensamente do comércio de commodities agrícolas, choques domésticos de oferta também podem se transformar em choques de preços no exterior.
O clima chega ao supermercado
Na Europa, o problema já aparece de forma mais direta nos preços. Na França, uma combinação de calor extremo e seca prejudicou a produção de milho. Os preços pagos pelos consumidores subiram 16%. Tomates ficaram 31% mais caros em um ano, enquanto abobrinhas avançaram 32% e vagens, quase 25%.
O problema é que o milho não termina no supermercado. O grão é utilizado na alimentação de animais, o que significa que uma quebra da safra pode elevar também o custo de produção de carnes, leite e ovos.
Nos Estados Unidos, a combinação de seca, calor e redução do rebanho levou os preços da carne bovina a níveis recordes. No oeste do país, a falta de neve nas montanhas reduziu a disponibilidade de água para a agricultura e agravou as condições para os pecuaristas.
Na Espanha, chuvas excepcionalmente intensas no início do ano alagaram áreas agrícolas, enquanto uma sequência posterior de calor, incêndios e seca prejudicou as lavouras. Os tomates ficaram 11% mais caros em um ano. No Japão, o aquecimento das águas do mar afetou a produção de nori, ingrediente usado no sushi, cujos preços subiram cerca de 20%.
Por que o Brasil é particularmente exposto
A agricultura brasileira depende de um regime climático relativamente previsível. Alterações na temperatura e na distribuição das chuvas podem afetar produtividade, calendário de plantio e colheita e disponibilidade de água.
O Banco Central já incorpora os efeitos do clima em suas avaliações de inflação. Em seu relatório de política monetária de setembro, o BC apontou os eventos climáticos como um dos riscos de alta para os preços, por seus efeitos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. A autoridade também projeta aumento do ritmo de alta dos alimentos nos próximos meses.
O problema é que a política monetária tem capacidade limitada para responder a esse tipo de choque. Uma alta da Selic pode reduzir a demanda e impedir que um aumento temporário de preços se espalhe pela economia, mas não faz chover, recupera uma lavoura perdida ou aumenta a produtividade de uma safra prejudicada pelo calor.
O próprio Banco Central já estudou a relação entre clima e preços de alimentos no Brasil. Uma pesquisa da instituição concluiu que eventos de precipitação fora do padrão contribuíram de maneira significativa para a inflação de alimentos em determinados períodos. Entre o segundo trimestre de 2015 e meados de 2016, por exemplo, o El Niño teve contribuição estimada de 11,34 pontos percentuais para a inflação de alimentos no modelo analisado.
Inflação pode ficar mais persistente
O fenômeno ganha importância porque os eventos extremos podem deixar de provocar apenas aumentos pontuais. Se secas e ondas de calor se tornarem mais frequentes, produtores podem precisar investir mais em irrigação, adaptação de culturas, seguros e infraestrutura. Parte desse custo tende a chegar ao consumidor.
A análise da Zero Carbon Analytics estima que, até 2035, o aquecimento poderá acrescentar até 3,23 pontos percentuais por ano à inflação de alimentos e 1,18 ponto percentual à inflação geral, em um cenário projetado pelos autores.
Para o Brasil, o risco é particularmente relevante porque alimentos têm peso importante no orçamento das famílias e porque o país está profundamente integrado ao mercado internacional de commodities.
O Banco Mundial já apontou que a conexão da agricultura brasileira com as cadeias globais limita a capacidade de proteger totalmente os consumidores domésticos quando os preços internacionais sobem.
O resultado é um novo desafio para a economia. A inflação pode passar a responder não apenas ao consumo, aos juros, ao câmbio e aos custos de produção, mas também à frequência e à intensidade de eventos climáticos extremos.
Em agosto, o IPCA acumulava alta de 4,22% em 12 meses. Na prévia de setembro, o índice avançou 0,70%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,47%.
A chamada inflação climática, portanto, não significa que toda alta de preços seja causada pelo aquecimento do planeta.
O ponto central é outro: eventos climáticos extremos estão se tornando uma fonte adicional e potencialmente mais frequente de choques de oferta, com efeitos que podem chegar do campo ao supermercado e, em determinadas circunstâncias, à política de juros.





