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Corrente do Atlântico pode colapsar com aquecimento de 2°C, alerta estudo

Ruptura teria efeitos catastróficos sobre temperaturas, chuvas e nível do mar, com impactos para a Europa e América do Norte

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 ago 2026, 10h29 | Atualizado em 14 ago 2026, 18h38
Corrente do Atlântico pode colapsar com aquecimento de 2°C, alerta estudo Priorizar nos meus resultados Google

Um estudo da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, traz um novo alerta sobre uma das engrenagens mais importantes do sistema climático.

A pesquisa indica que a velocidade do aquecimento global pode ser tão importante quanto a temperatura que o planeta finalmente atingir para determinar o risco de colapso da Circulação Meridional do Atlântico, a AMOC.

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Em simulações realizadas pelos pesquisadores, a circulação permaneceu estável mesmo com um aquecimento superior a 5°C quando a concentração de CO₂ aumentou lentamente.

Em cenários de mudança climática mais rápida, porém, a AMOC entrou em colapso com o aquecimento global entre 2,2°C e 2,8°C. O trabalho foi apresentado por cientistas de Utrecht em 2026 e reforça uma linha de pesquisa que questiona a existência de um único “limiar” de temperatura para o sistema.

O resultado é relevante porque o planeta já está se aproximando de uma velocidade de aquecimento capaz de colocar pressão adicional sobre sistemas climáticos sensíveis.

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Mas é importante fazer uma ressalva: o estudo não prevê que a AMOC vá necessariamente colapsar quando o aquecimento atingir 2°C.

Trata-se de uma simulação climática que mostra como diferentes trajetórias de aquecimento podem produzir resultados muito diferentes.

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O que é a AMOC

A AMOC funciona como uma enorme esteira de transporte de calor no Atlântico. Ela leva águas relativamente quentes das regiões tropicais para o norte.

Próximo ao Atlântico Norte, parte dessa água esfria, fica mais densa e afunda, retornando para o sul em grandes profundidades.

Esse movimento redistribui calor pelo oceano e influencia o clima de várias regiões, principalmente Europa, América do Norte e áreas do Atlântico.

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A circulação também participa da absorção de carbono pelos oceanos e interfere no nível do mar em determinadas regiões.

O problema é que o aquecimento do planeta altera as condições que mantêm essa engrenagem funcionando.

Por que o aquecimento ameaça a circulação

O aumento da temperatura acelera o derretimento do gelo da Groenlândia e altera o ciclo de chuvas e evaporação. Mais água doce chegando ao Atlântico Norte torna a superfície do oceano menos salgada e, portanto, menos densa.

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Isso dificulta o afundamento da água fria, uma etapa fundamental da AMOC. Se o processo enfraquecer demais, pode surgir um ciclo de retroalimentação: uma circulação mais fraca transporta menos calor para o norte, altera as condições do Atlântico e pode ficar ainda mais vulnerável.

O IPCC considera muito provável que a AMOC enfraqueça ao longo deste século. Os modelos avaliados pelo painel apontam uma redução da força da circulação até 2100, embora exista grande incerteza sobre o tamanho dessa queda. O IPCC também afirma haver confiança média de que um colapso abrupto antes de 2100 não ocorrerá.

É justamente nessa incerteza que o novo estudo de Utrecht entra.

Não é apenas quanto o planeta aquece, mas quão rápido

A pesquisa compara diferentes velocidades de aumento do CO₂.

Na simulação de aquecimento lento, a concentração de CO₂ aumentou 0,5 parte por milhão por ano. Nesse cenário, a AMOC conseguiu se adaptar às mudanças e permaneceu estável mesmo quando o aquecimento global chegou a cerca de 5,5°C.

Nos cenários de aumento mais rápido das concentrações de gases de efeito estufa, o resultado foi diferente. A circulação perdeu estabilidade com apenas 2,2°C de aquecimento em um cenário intermediário e 2,8°C em um cenário de emissões elevadas.

A lógica é relativamente simples: um oceano submetido a uma mudança mais lenta tem mais tempo para se adaptar.

Quando a transformação acontece rapidamente, as diferentes camadas do oceano não conseguem responder da mesma maneira e mecanismos que ajudam a preservar a circulação deixam de compensar os efeitos do aquecimento.

Isso significa que dois mundos que eventualmente cheguem à mesma temperatura podem apresentar riscos diferentes para a AMOC dependendo de quanto tempo levaram para chegar lá.

O alerta não surgiu agora

A possibilidade de uma mudança abrupta na circulação do Atlântico já é estudada há anos.

Um trabalho publicado em 2021 na Nature Climate Change, baseado em dados de observação, identificou sinais de perda de estabilidade da AMOC e alertou para a possibilidade de uma transição para um estado mais fraco.

Outro estudo, publicado em 2023 na Nature Communications, estimou que a circulação poderia atingir um ponto de inflexão por volta da metade deste século no cenário de emissões então considerado. Os próprios autores ressaltaram, porém, que os modelos climáticos ainda apresentam grandes diferenças na resposta da AMOC.

A literatura mais recente reforça justamente essa incerteza. Uma revisão publicada em 2026 na Annual Review of Marine Science afirma que uma transição da AMOC para um estado climático disruptivo neste século é possível sob emissões contínuas, mas destaca que ainda existem dúvidas importantes sobre a capacidade dos modelos de reproduzir a estabilidade atual da circulação.

O que aconteceria se a AMOC colapsasse

Um colapso não significaria que a corrente simplesmente “pararia” de um dia para o outro. O sistema poderia passar por uma transição para um estado muito mais fraco, com consequências que se espalhariam por diferentes partes do planeta.

O transporte de calor pelo Atlântico mudaria, alterando padrões de temperatura e precipitação. O norte da Europa poderia sofrer forte resfriamento relativo, enquanto outras regiões enfrentariam mudanças nos regimes de chuva e nos extremos climáticos.

Há também consequências para o próprio ciclo do carbono. Um estudo publicado em 2026 na Communications Earth & Environment estimou que um colapso da AMOC poderia liberar entre 47 milhões e 83 milhões de toneladas? [correção: 47 a 83 ppm de CO₂] adicionais de dióxido de carbono para a atmosfera, contribuindo para cerca de 0,2°C de aquecimento global adicional em determinadas condições de concentração de CO₂.

Isso não significa que um colapso da AMOC provocaria sozinho um novo grande salto da temperatura mundial. O efeito mais importante seria a redistribuição do calor e da chuva, com impactos potencialmente muito diferentes de uma região para outra.

O risco para a Europa é especialmente relevante

A AMOC é uma das razões pelas quais o Atlântico Norte transporta tanto calor para latitudes elevadas. Uma redução significativa da circulação poderia alterar essa distribuição.

Isso não significa, porém, que a Europa simplesmente entraria em uma nova era glacial. O aumento dos gases de efeito estufa continuaria aquecendo o planeta. O que ocorreria seria uma combinação complexa entre o aquecimento provocado pelas emissões e o resfriamento regional associado à redução do transporte de calor pelo Atlântico.

O resultado poderia incluir alterações importantes nos regimes de chuva, tempestades e temperaturas no Atlântico Norte.

O que o estudo muda no debate climático

A principal contribuição do trabalho é mudar a pergunta.

Durante muito tempo, pesquisadores procuraram identificar qual temperatura global poderia funcionar como um ponto de não retorno para a AMOC. O novo estudo sugere que essa abordagem é incompleta.

Não existe necessariamente um número mágico no termômetro. A trajetória até chegar a determinada temperatura também importa.

Isso tem uma consequência importante para as políticas climáticas: reduzir as emissões rapidamente não serve apenas para evitar que o planeta ultrapasse determinado nível de aquecimento. Também pode diminuir o risco de que sistemas como a AMOC sejam submetidos a uma mudança rápida demais para conseguir se adaptar.

A conclusão também lança dúvidas sobre estratégias baseadas em ultrapassar temporariamente determinado nível de aquecimento e depois tentar voltar. Se uma mudança irreversível ocorrer durante o período de temperaturas mais altas, simplesmente retornar posteriormente a uma temperatura menor pode não ser suficiente para recuperar o sistema.

Por isso, o alerta de Utrecht é menos uma previsão de que a circulação do Atlântico esteja prestes a desaparecer e mais uma indicação de que a velocidade da mudança climática pode determinar quais limites do sistema climático ainda permanecem seguros.

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