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Machado de Assis

13/08/2011

às 9:00 \ Palavra da semana

A língua do zigue-zague e o zigue-zague da língua

O zigue-zague que as bolsas de valores descreveram ao longo da semana é uma palavra que, ortograficamente, tem andado na contramão da história: no Brasil e em Portugal era “ziguezague”, sem hífen e sem confusão, até a última reforma ortográfica, e por algum motivo obscuro retrocedeu. Paciência. A língua também tem seus zigue-zagues.

Trata-se de um substantivo tão eloqüente quanto idoso, embora mantenha um certo ar jovem. Nasceu na língua francesa no finalzinho do século 17 como ziczac, para designar certos objetos compostos de losangos articulados que podiam ser abertos e fechados, em movimentos pantográficos. A palavra surgiu de uma onomatopeia, ou seja, imitação ou sugestão do som de abrir e fechar. Poucas décadas depois já era usada metaforicamente para descrever, bem, para descrever o movimento que descreve.

Que movimento? Ora, o zigue-zague! Como dizer isso de outra forma com a mesma concisão? Impossível, e talvez esteja aí a explicação para a juventude eterna da palavra. Seu primeiro registro em português é de 1836, poucos anos antes de, em francês, Honoré de Balzac lhe dar sua principal abonação literária em “A prima Bette”, romance de A comédia humana: “Chardin tentou desenhar ziguezagues no ar com o dedo indicador da mão direita”.

Quatro décadas depois de cruzar o Atlântico a novidade francesa dava nome a uma das revistas semanais ilustradas da capital do Império, “O Zigue-Zague” (com hífen, claro), que dividia o mercado com a “Revista Ilustrada” (na qual colaborava Machado de Assis), “O Besouro”, “A Lanterna” e “O Mequetrefe”. Estava na moda. E, pensando bem, daí nunca sairia, com ou sem hífen.

26/04/2011

às 15:43 \ Curiosidades etimológicas

Convescote não tem cardápio

A propósito daquela tola lei antiestrangeirismo proposta por um deputado gaúcho, que comentei aqui no domingo, é bom lembrar as realizações – e os fracassos, bem mais numerosos – de um personagem pitoresco das letras brasileiras do século 19, uma espécie de patrono dos xenófobos linguísticos: o latinista Antônio de Castro Lopes (1827-1901), que Machado de Assis chamava, com ironia, de “nossa Academia Francesa”.

Incomodado com a grande circulação de palavras vindas de fora, especialmente do francês, o idioma imperialista da época, Castro Lopes lançou em 1889 o livro “Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis”, em que propunha uma série de neologismos, forjados por ele mesmo, como substitutos de estrangeirismos que considerava “bárbaros” (atenção, moçada, o sentido aqui é negativo).

De sua quixotesca fábrica de vocábulos saíram termos esquisitos que não tardaram a cair no mais completo esquecimento: cinesíforo (chofer), ludâmbulo (turista), runimol (avalanche) e focale (cachecol) são alguns deles. Outras de suas invenções tiveram uma sobrevivência anêmica como palavras raras e ainda hoje são encontráveis no dicionário, embora não frequentem a língua viva há muito tempo: é o caso de lucivelo (abajur), nasóculos (pincenê) e preconício (reclame, propaganda).

No entanto, Castro Lopes também marcou seus golzinhos. Cardápio, que ele criou a partir das palavras latinas charta (carta) e daps (banquete) para substituir o francês menu, tornou-se termo de grande circulação, embora menu continue sendo usado também.

Se cardápio é seu produto de maior sucesso, meu castrolopismo preferido é outro: convescote. Essa palavra adorável, que quer dizer piquenique, ainda aparece de vez em quando na língua de verdade, quase sempre acompanhada daquela inflexão sarcástica ou brincalhona de quem sabe estar lançando mão de um termo de época. O curioso é que, para forjá-la, o latinista se arriscou a minar sua regra de ouro: convescote vem de “conv(ívio)” e “escote” (cota que cabe a cada um numa vaquinha).

Ocorre que “escote” também é um galicismo, do francês antigo escot. Sua única diferença em relação às palavras que Castro Lopes condenava era a antiguidade: tinha chegado ao português no século 16. Quer dizer que o tempo lava tão bem a estrangeirice dos estrangeirismos que até um purista passa a aceitá-los? Exatamente. O abajur, o turista, o chofer, a avalanche e o cachecol só precisavam de tempo. E o tempo passou, apesar do engenhoso Castro Lopes.

17/04/2011

às 9:00 \ Crônica

Crônica linguística, o que é isso?

Cerca de dez anos atrás, sem imaginar que o filão renderia tanto, comecei a escrever na imprensa sobre assuntos de língua e linguagem. Não sou professor de português, gramático ou linguista, gosto sempre de lembrar, porque há quem se impressione mais com esses títulos do que com o texto em si – já fui chamado por leitores desavisados até de filólogo. Sou jornalista profissional há quase trinta anos e escritor com meia dúzia de livros publicados – a maioria de ficção, romances e contos, mas um deles, “What língua is esta?” (Ediouro), precisamente de… crônicas linguísticas. Mas que gênero será esse?

Pois bem. Depois de me meter um tanto estouvadamente na empreitada é que, pesquisando, fui encontrar uma longa linhagem de cronistas linguísticos na imprensa brasileira. Eu nunca os tinha lido sob esse prisma, mas Machado de Assis e Rubem Braga, por exemplo, sempre tiveram um carinho especial por questões de língua em suas crônicas. São saborosos os textos em que Machado ironiza a mania de criar neologismos do latinista Castro Lopes (1827-1901), inimigo das palavras francesas que infestavam o vocabulário brasileiro no século 19. Castro Lopes inventou, por exemplo, os nasóculos como substitutos do pince-nez, mas a palavra não vingou, como Machado, morrendo de rir, sabia que não vingaria. (Vamos fazer justiça: Castro Lopes inventou também a palavra cardápio, para substituir menu, e esta pegou.)

E a velha tradição da crônica sobre a angústia da folha em branco, da qual praticamente cronista nenhum escapou, será o quê, com seu aspecto reflexivo, metalinguístico? Entre os contemporâneos, Luis Fernando Verissimo também recorre com muita competência ao gênero. É natural que seja assim: a língua que compartilhamos é um caldo cultural riquíssimo. À parte quesitos como talento e renome, em que não dou nem para a saída, a diferença em relação a todos esses, digamos, “precursores” é o compromisso que assumi de tratar do assunto com regularidade, quaisquer que sejam as condições atmosféricas ou linguísticas do momento. A angústia da folha (ou tela) em branco sempre existirá, mas já não cabe transformá-la em tema. Melhor contar uma historinha como esta, fazer um aceno a Machado e Verissimo, e quando menos se espera chega o ponto final.

07/04/2011

às 14:09 \ Consultório

Antes de mais nada, cuidado com os sabichões

“Caro Sérgio, já li que não se deve usar a expressão ‘antes de mais nada’. Essa expressão é muito usada ao se iniciar uma elocução, discurso ou afim. Alguém, condenando tal expressão, justificou que não vislumbrava algo que vem antes de nada. Como pode algo vir antes do nada, perguntou-me. O que você acha?” (Carlos Vasconcelos)

“Antes de mais nada” (que significa “em primeiro lugar”) é mais uma expressão do português que, embora tenha uma história nobre e bonita, vem sofrendo nos últimos tempos com a patrulha de quem tenta enquadrar a língua em moldes de pensamento literais demais. É perda de tempo condená-la ou dar ouvidos a quem a condena.

Isso porque a locução faz perfeito sentido, como prova o fato de ser compreendida por qualquer falante. Muitas vezes é peculiar a lógica do idioma, um dos traços daquilo que se chama com algum romantismo de “espírito da língua” – com o qual me parece sábio estar em comunhão, não em guerra. “Antes de mais nada” significa (e tem sonoridade melhor que) “antes de tudo”, assim como “pois não” significa sim e “pois sim” significa não.

Claro que cada um fala como quiser e tem o direito, se assim o desejar, de banir “antes de mais nada” do seu discurso. Pode até fazê-lo por razões inatacáveis: se busca objetividade e concisão, essa locução pode mesmo parecer palavrosa. O problema começa quando se tenta transformar tal decisão em lei universal. Ao sair corrigindo seus semelhantes com o argumento de que a expressão “não tem lógica”, o sujeito demonstra ignorância sobre como funcionam as línguas. Julga-se sabido, mas é apenas sabichão.

Entre os autores consagrados que, numa rápida busca, confirmei terem usado sem o menor constrangimento essa locução adverbial está o português Camilo Castelo Branco, que durante boa parte do século 19 era considerado um prosador-modelo. A lista inclui ainda Machado de Assis, Rui Barbosa, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. No fim das contas, trata-se de uma escolha simples entre ficar na companhia deles ou abraçar os patrulheiros do literalismo.

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Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

17/02/2011

às 16:57 \ Consultório

Ter de fazer ou ter que fazer?

“Sempre usei o verbo ‘ter’, quando necessário, seguido de ‘que’, como por exemplo em ‘tenho que escrever um e-mail’, e nunca tive problemas com isso. Entretanto, comecei a reparar que muitas pessoas utilizam o ‘de’ no lugar do ‘que’, ficando ‘tenho de escrever um e-mail’. Existe uma forma errada e outra certa ou ambas são aceitáveis? Seria uma questão de regionalismo, já que moro em Porto Alegre e a maioria das pessoas aqui usam o ‘que’?” (Bruno Grisci)

Não existe uma forma mais correta ou sequer preferencial entre “ter que” e “ter de”. Trata-se de duas opções à disposição do falante, que provavelmente estará sujeito (quase sempre está) a algum tipo de inclinação regional, familiar ou educacional por uma ou outra. Isso não muda o fato de que elas dizem rigorosamente a mesma coisa – ou seja, “estar obrigado a” – e que ambas contam com suficiente tradição de uso por bons autores para serem tratadas como iguais.

A título de curiosidade, vale ressaltar que nem sempre foi assim. Um olhar histórico sobre a expressão revela que “ter de” não é apenas anterior a “ter que”, mas já foi considerada pelos gramáticos a única forma culta, ao passo que a outra, derivada dela, era (mal)vista como “popular”. Até o século 17, ensina Said Ali, usava-se exclusivamente nesses casos a forma “haver de”, hoje antiquada e sobrevivente apenas em clichês como “hei de vencer”. Do século 18 em diante, completa ele, foi ganhando espaço o “ter de”.

Note-se que as observações acima, publicadas em livro por Ali em 1921, ainda nem consideravam a possibilidade do “ter que”. E bem poderiam fazer isso – para não dizer que teriam que fazer isso. Afinal, Machado de Assis, para ficar num exemplo suficiente, era um de seus adeptos e saiu-se com um “teve que concordar” num dos “Contos fluminenses”, como registra Francisco Fernandes em seu “Dicionário de verbos e regimes”. Rui Barbosa foi atrás.

O Houaiss explica que o “ter que” vem sendo usado “modernamente” em lugar de “ter de”, que ele chama de “castiço”. Tal uso cria uma irregularidade gramatical, o emprego do pronome relativo “que” numa função anômala – prepositiva para o Houaiss, conjuntiva na visão de Sousa Lima – que denunciaria uma contaminação do “ter de”. Mas isso é detalhe técnico.

De uma forma ou de outra, nem Bruno nem ninguém tem que falar “tem de”, assim como não tem de falar “tem que”. Eu tendo a preferir esta forma, mas tenho de reconhecer que, no combate à praga invencível da proliferação dos “ques”, a alternativa que o Houaiss chama de castiça é muitas vezes uma mão na roda.

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21/10/2010

às 14:13 \ Consultório

Presidenta x presidente: a língua também pode ser política

“Estou com uma dúvida sobre a palavra ‘presidente’. Na campanha eleitoral, o presidente Lula se referiu a Dilma como a próxima ‘presidenta’. Eu queria saber se está certo o feminino de presidente: presidenta.” (Karla Emerich)

Como em tantas questões de língua que vêm parar aqui, convém abandonar logo de saída as noções estreitas de certo e errado. Não está errado usar “presidenta” como feminino de presidente, assim como não está errado tomar presidente como palavra de dois gêneros, invariável. Esta é a forma dominante, aquela uma variação emergente – que, no entanto, já foi reconhecida por nossos principais dicionários.

Esquecida a ideia primária de erro, a discussão fica bem mais interessante. A lógica desse tipo de embate na língua costuma ser muito mais política do que técnica.

Os argumentos a favor de presidente como substantivo e adjetivo de dois gêneros costumam se concentrar em duas frentes, ambas fortes. A primeira é a tradição dos bons autores, que sempre se inclinaram maciçamente por essa forma. A segunda é etimológica: vinda do latim praesidentis, particípio presente do verbo praesidere (tomar assento à frente), a palavra seria invariável desde a origem. Se são indiscutivelmente invariáveis até hoje termos como assistente e dependente, de formação semelhante, e a ninguém ocorre dizer que tem uma assistenta ou uma dependenta, por que precisaríamos da palavra “presidenta”?

Do lado oposto, porém, os argumentos também são consideráveis. Descobrimos que os tais bons autores podem ser invocados com sinal trocado. Parente, por exemplo, também é um termo unissex, mas isso não impediu a palavra “parenta” de ter amplo uso desde a infância do português, inclusive na obra de Machado de Assis (encontramos certas “qualidades de senhora e de parenta” em “Memorial de Aires”, por exemplo). Etimologia, afinal, nunca foi uma camisa-de-força que constrangesse as mudanças da língua. E se, como diz o jornalista Marcos de Castro em seu curioso livro “A imprensa e o caos na ortografia”, de 1998, falar em “a presidente” for “machismo puro, vigente na velha gramática como em tudo no passado”? Em outros termos: só não se usava “presidenta” porque a sociedade não admitia que uma mulher presidisse coisa alguma.

No fim das contas, cabe ao falante julgar os méritos de cada palavra e fazer sua escolha – exatamente como na política. Ou fazer sua escolha de forma inconsciente, de orelhada – o que também ocorre com frequência, infelizmente, na política.

E para não dizerem que fiquei em cima do muro: no meu dicionário pessoal, presidente é uma palavra de dois gêneros. Acho que tem sonoridade melhor, além de evitar um possível surto politicamente correto que acabe por povoar o mundo de (argh!) gerentas, atendentas e adolescentas. Se o Brasil terá ano que vem um presidente ou uma presidente, só pretendo mudar o artigo.

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29/07/2010

às 13:17 \ Consultório

Americano, norte-americano ou estadunidense?

“Quem são os americanos, os norte-americanos e os estadunidenses? Nós brasileiros somos americanos ou não?” (Alexandre J.D.S.)

A dúvida do leitor nos leva longe. As três formas têm adeptos no português contemporâneo – o que não quer dizer que se equivalham inteiramente – e sempre rendem discussões quentes.

Como toda discussão quente, esta costuma ignorar argumentos baseados na razão, como o de que escolher entre americano, norte-americano e estadunidense não é uma questão de certo e errado, mas uma decisão vocabular legítima tomada por cada falante. Decisões vocabulares sempre revelam algo sobre o sujeito, seu grau de informação, modo de encarar o mundo e, sim, posição política.

Americano é a forma mais comum e também a mais enraizada na história de nossa língua. De Machado de Assis a Caetano Veloso – “Americanos são muito estatísticos/ Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos” – existe uma tradição cultural séria a legitimar americano como termo preferencial para designar o que se refere aos Estados Unidos no português brasileiro.

Sempre houve quem se incomodasse com isso, por acreditar que essa escolha aparentemente inocente trazia embutida uma concordância com o sequestro que os conterrâneos de John Wayne fizeram de termos mágicos – América, americanos – que deveriam ser propriedade de todo o Novo Mundo. Os brasileiros também somos, assim como argentinos, venezuelanos e tobaguianos, americanos, certo? Claro que está certo.

Assim, de um impulso nacionalista ou continentalista, surgiram dois subgrupos, o que prefere norte-americano e o que opta por estadunidense. É provável que estadunidense – que já foi a terceira opção dos brasileiros e é a que contém maiores dosagens de antiamericanismo – tenha conquistado o segundo lugar durante o pesadelo dos oito anos de George W. Bush.

O problema é que o principal argumento contra o uso de americano – o de que o termo está “errado” porque quer dizer tudo o que se refere às três Américas – é ingênuo. Americano quer dizer as duas coisas. Assim como mineiro pode designar tanto um trabalhador em minas, seja ele búlgaro ou cearense, quanto um natural do estado de Minas Gerais, e o contexto resolve qualquer possível ambigüidade. Isso não é argumento. E ainda que fosse, norte-americano sofreria do mesmo problema, o de excluir canadenses e – dependendo da classificação – mexicanos de um termo que deveria incluí-los por força de geografia e história.

Quanto a estadunidense, bem, aqui a questão é política, ponto. Por que logo eles, os americanos, teriam o direito de usar como emblema, medalha azul-vermelha-e-branca no peito, a sonoridade de América? Se nós também somos América e temos até uma Iracema, isso não seria pura pilhagem cultural, muque colonialista, arrogância ianque?

É claro que se pode pensar assim, e de certa forma foi isso mesmo que ocorreu. Mas o fato cru é que, quando grande parte do mundo estava sendo redividido e rebatizado, os caras foram espertos no trabalho de branding. Correram logo ao cartório mundial com o bebê no colo e assimilaram – se não a América-coisa, que é obviamente inassimilável – pelo menos a palavra América e uma ideia de América. São os Estados Unidos da América como nós já fomos os Estados Unidos do Brasil. Ninguém nos chamava de estadunidenses na época.

Paciência, então? Isso vai de cada um. Minha paciência é menor com episódios de gato-mestrismo linguístico – “você está errado por falar como todo mundo, eu e uns poucos outros é que estamos certos” – do que com os Estados Unidos da América, sobretudo na era Obama. No fim das contas, bastaria o pernosticismo da palavra estadunidense para me indispor contra ela.

Prefiro outra posição: a de que, do ponto de vista da língua, não existe certo ou errado aqui. Assim como a mandioca também pode ser, por questões regionais, chamada de aipim ou macaxeira, os termos americano, norte-americano e estadunidense são opções vocabulares à disposição do falante de português. Mas convém saber aquilo que cada um realmente implica antes de sair brandindo argumentos furados de autoridade.

Você usa a palavra “homossexualismo” ou “homossexualidade”?

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18/07/2010

às 8:27 \ Crônica

Uma coisa que inputam na sua língua

O problema é o inputar, inputar é o limite. No dia em que esse verbinho emergente do informatiquês for escrito com eme, nós até podemos conversar. Imputar é feio, mas talvez não seja mais condenável que o vitorioso deletar, anglicismo de valor (apagar – no computador, a precisão costuma vencer).

Mas inputar, não. Inputar eu refuto. Que inputem tranquilamente professores, governantes e empresários, só posso lastimar.

É bobagem, sei muito bem, tentar impedir o fluxo migratório entre línguas, sobretudo quando o amado idioma pátrio se vê diante de outro em flagrante delito de submissão cultural – hoje ao inglês, como ao francês um século atrás. Nesses casos, a língua dominante não pode ser detida, vem no pacote ciência-indústria-letras-cultura-diversão. Não adianta ser contra ela. Seria tão insensato quanto ser contra um fenômeno da natureza, uma tempestade, peito aberto contra a força dos ventos: “Não passarão!”

Sendo assim, viva o marketing, o show, o ranking, o sundae, o rock, o shopping and all. Já são de casa. Mas é absolutamente imprescindível defender uma última trincheira, ainda que simbólica, um núcleo mínimo de orgulho. Não deixar que lhe quebrem a espinha. E esse limite é o inputar.

Inputar é o fim da linha. Inegociável. Isto aqui pode estar cheio de anglicismo mas ainda se chama português: para passar, tem que pagar pedágio. Inputar incorre em crime de lesão espiritual contra a língua, pois com seu ene antes do pê (antes de pê e bê só se usa eme, ressoam lições imemoriais, giz na lousa, os joelhos da professora, o sol lá fora) “não tem foros de cidade”, como dizia Machado. A pena é mudar de grafia, entubar um eme que o emascule:

Imputar. 1. Do latim imputare. Atribuir (a alguém) a responsabilidade de algo. 2. Do inglês to input. Inserir, incluir (especialmente dados).

Cumpra-se.

11/07/2010

às 8:24 \ Crônica

Disque-Palavra

Toda vez que discamos um número no teclado que há décadas é onipresente em nossos aparelhos de telefone (a menos que o seu tenha sido comprado num antiquário), estamos, mesmo sem perceber, pagando tributo à história da língua.

Como a fruta na casca, para citar Machado de Assis falando de Capitu, há sempre uma palavra dentro de outra palavra, ideias muitas vezes mortas dentro de palavras vivas. Os mesmos termos que usamos para contar histórias são, quando examinados por dentro, contadores de histórias.

Aquele disco desajeitado sumiu dos aparelhos de telefone e não consta que tenha deixado saudade. Mas deixou sua marca, herança de um estilo de vida que passou. Não há garantia de que seja uma marca duradoura. É possível que num futuro próximo a humanidade deixe de discar e passe a apenas, digamos, teclar. Mas também não será surpresa se o fantasma do disco se revelar resistente ao tempo e à vertigem das transformações tecnológicas.

Até hoje embarcamos em trens e aviões, que só poderiam ser chamados de barcos com muita licença poética. Acendemos lâmpadas frias como se ateássemos fogo a archotes ou lampiões. E faz anos que a novela das oito começa às nove.

É bobagem cobrar literalismo das palavras, embora os paladinos do risco de morte como substituto “correto” da consagrada expressão risco de vida não saibam disso. Elas evoluem assim mesmo, por associações, uma ideia puxando a outra. Por mais denotativa e precisa que se queira a linguagem, nunca nos livraremos de metáforas e metonímias.

A própria palavra “palavra” nasceu no latim parabola com o sentido de analogia, comparação, história alegórica, que o português conserva no vocábulo “parábola”. Seu miolo é feito de poesia.


 

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