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Arquivo da categoria Palavra da semana

15/06/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Eram os vândalos… vândalos?

Confronto de policiais e manifestantes em São Paulo, quinta-feira (Filipe Araújo/Estadão Conteúdo)

Vandalismo parece ter sido a olho nu, com maior ou menor grau de generalização, a palavra mais empregada esta semana pela imprensa brasileira para se referir aos protestos e quebra-quebras ocorridos em diversas cidades – e com maior intensidade em São Paulo – contra o aumento das tarifas de ônibus. Quando, na quinta-feira à noite, a PM paulista assumiu o protagonismo das ações violentas, era tarde para alterar essa estatística.

O “ato ou efeito de produzir estrago ou destruição de monumentos ou quaisquer bens públicos ou particulares, de atacar coisas belas ou valiosas, com o propósito de arruiná-las” (Houaiss) deve seu nome aos vândalos, povo germânico que no século V invadiu a Península Ibérica, fundou um reino no Norte da África e, em 455, saqueou Roma.

Vandalus era como um vândalo era chamado em latim, palavra enraizada no germânico Wandal, “nômade, errante”. Mas seriam os vândalos realmente… vândalos? Há controvérsia, mas a “Enciclopédia Britânica” afirma que “não parece haver na história da captura de Roma pelos vândalos nenhuma justificativa para a acusação de destruição caprichosa e gratuita de prédios públicos que está implicada na palavra vandalismo”.

Resta saber por que, se não se dedicavam à destruição de “coisas belas ou valiosas”, os vândalos teriam ficado com essa péssima fama grudada no nome. Bom, em primeiro lugar eram bárbaros – como os romanos chamavam todos os que não pertenciam ao império –, o que bastaria para justificar qualquer imputação de desumanidade. Mas a “Britânica” apresenta uma hipótese mais consistente: “É provável que tal acusação tenha advindo da cruel perseguição empreendida por Gaiseric [rei vândalo] e seu filho aos católicos, algo que é a principal mancha em suas reputações”.

Seja como for, o substantivo vandalismo só seria cunhado em francês (vandalisme) muitos séculos depois, nos últimos anos do século XVIII, pelo sacerdote católico Henri Grégoire, bispo de Blois.

08/06/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Obama, o xereta

Obama: 'Ninguém está ouvindo' (Larry Downing/Reuters)

“As pesquisas mostram crescente inquietação [dos cidadãos americanos] com xeretagem nos seus telefones e e-mails”, escreveu na quinta-feira, aqui ao lado, o colega Caio Blinder sobre o novo escândalo que sacudiu o governo americano, o dos grampos mantidos em telefones e e-mails de milhões de pessoas. Ontem, em entrevista coletiva, o presidente Barack Obama tentou se explicar: “Ninguém está ouvindo as ligações”.

De modo compreensível, vem-se falando em Big Brother, numa referência ao misterioso líder do Estado totalitário e onisciente imaginado pelo escritor George Orwell em seu romance distópico “1984” – mas deve-se reconhecer que o reality show homônimo tirou em parte o impacto da imagem. Fala-se também em espionagem, palavra que tem a desvantagem de se fazer acompanhar de certa aura aventureira que soa descabida num universo de bisbilhotice de gabinete. É por isso que gostei do emprego do verbo xeretar.

A princípio, a ideia de um Obama xereta pode parecer uma atenuação da gravidade da crise. É inegável que a palavra – que derivamos do verbo cheirar (a forma original, registrada em 1913, era “cheireta”) com o acréscimo do sufixo de origem latina “eta”, que forma diminutivos – sugere algo de infantil e brincalhão, embora seja definitivamente pejorativa. Xereta é quem mete o nariz onde não é chamado, algo muito próximo, na forma e no conteúdo, do adjetivo inglês nosy (ou nosey).

Um bom sinônimo de xereta é bisbilhoteiro, termo mais antigo (do século XVIII) que fomos buscar no italiano bisbigliatore. Mas este carrega ainda, além do sentido de abelhudo, uma acepção mais colada no original estrangeiro: a de fofoqueiro, intrigante.

Apesar do ar simpático, o que a palavra xereta faz pela compreensão da crise americana não tem, a meu ver, nada a ver com minimizá-la. Pelo contrário: xeretar é aproveitar a chance de, com facilidade e sem risco para a segurança do xereta, quebrar uma relação de confiança para meter o nariz em assuntos que deviam ser secretos. Espionar costuma incluir algum perigo para o espião. Xeretar é um ato fundamentalmente covarde, embora, como se vê, também tenha sua dose – que não é pequena – de risco político.

01/06/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Do boato à mentira, passando pelo efeito manada

Há uma antiga relação etimológica entre a palavra boato e o efeito manada que, há duas semanas, provocou em agências da Caixa Econômica Federal e casas lotéricas uma onda de tumulto e confusão que ecoa até agora no governo, entre mentiras, desmentidos, silêncios e até férias da ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello – leia aqui um resumo da crise.

A relação entre o boato e o efeito manada é simples: a palavra que empregamos para designar “notícia de fonte desconhecida, muitas vezes infundada, que se divulga entre o público” (Houaiss) nasceu do latim boatus, que queria dizer em primeiro lugar “mugido, berro de boi”, e secundariamente “berro, grito muito alto”. Boato brota da mesma raiz, bos, bovis (“boi, vaca”), de onde veio a palavra boi.

O vocábulo conservava sentidos próximos dos originais ao chegar ao português em meados do século XVI, ao lado de novas expansões semânticas – “clamor de novidade; notícia muito propalada” – que hoje estão em desuso, mas que são o elo perdido entre os mugidos e os rumores sem fundamento.

Não é claro em que momento da história, exatamente, a ideia de mentira, de balela, de papo furado contaminou irremediavelmente a carga semântica do boato. O certo é que, além do efeito manada provocado pelos mugidos figurados, as mentiras também contribuem para dar ao episódio do “fim do Bolsa Família” uma notável coerência etimológica.

24/05/2013

às 17:18 \ Palavra da semana

Está certo falar em linchamento quando a vítima não morre?

A matéria mais lida do dia em VEJA.com, “Acusado de estupro na Uerj foi linchado por estudantes”, levou alguns leitores a manifestar estranheza sobre o uso da palavra linchamento. Afinal, o estudante acusado de violentar sexualmente uma colega no campus da universidade carioca no último dia 11 – e que não teve sua identidade divulgada – ainda está vivo, embora, segundo a reitoria, tenha sido agredido por um grupo de colegas após cometer o crime. Está certo falar em linchamento quando o justiçamento não provoca a morte da vítima?

Segundo os lexicógrafos, sim. O Houaiss, o melhor dicionário da língua portuguesa, traz duas acepções para o verbo linchar. A primeira e mais conhecida é “executar sumariamente, sem julgamento regular e por decisão coletiva (criminoso ou alguém suspeito de sê-lo)”. A segunda, surgida por extensão de sentido, é “praticar (a multidão) graves violências contra (alguém)”. O Aurélio, embora seja menos explícito no verbete em questão, permite a mesma interpretação quando se leva em conta que inclui entre os sinônimos de justiçar o verbo “supliciar”, ou seja, torturar. Parece claro que o linchamento não precisa resultar em morte para ser chamado assim.

Isso não quer dizer que tal uso seja comum e imune a mal-entendidos. A associação entre linchar e matar é forte desde a origem da palavra, que importamos do inglês to lynch – verbo derivado, curiosamente, de um nome próprio, William Lynch. Personificação do velho anseio humano de “fazer justiça com as próprias mãos”, Lynch era um fazendeiro do estado americano de Virgínia que, em fins do século XVIII, ficou famoso por comandar um tribunal privado para julgar e executar criminosos apanhados em flagrante.

18/05/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

O escrete de Felipão e a anglofilia brasileira

Felipão: equipe "reunida às pressas"? (Sergio Moraes/Reuters)

E Felipão convocou o escrete para a Copa das Confederações! Não sei até que ponto a palavra escrete, forma aportuguesada do inglês scratch e sinônimo de seleção, soa natural aos ouvidos das novas gerações. Em minha infância era um termo comum, propagado por radialistas e adotado em conversas de torcedores pelo país afora. O Google me informa que ainda é bastante empregado por aí, embora seu sabor de época seja inegável.

Trata-se de um dos muitos anglicismos que moldaram o vocabulário do futebol brasileiro. Alguns foram inteiramente abandonados, como quíper (goleiro). Outros caminham para a obsolescência, como beque (zagueiro) e córner (escanteio). Mas há também os que ainda gozam de ótima saúde, como craque. Todos, como escrete, são formas aportuguesadas de palavras inglesas.

O caso de escrete apresenta uma curiosidade ocasional. Scratch, como se sabe, quer dizer sobretudo “arranhão, risco”. Dicionários de inglês registram, além dessa, muitas outras acepções para o substantivo, inclusive em contexto esportivo, mas à primeira vista nada trazem que se encaixe bem ao nosso sentido de seleção. “Linha de largada numa corrida” não parece ser o caso.

No entanto, é exatamente a essa acepção que o Houaiss recorre para explicar nosso vocábulo, dizendo: “‘linha ou marca desenhada para servir de ponto de partida; linha de partida’, no sentido de que todos os competidores partem da mesma linha, do mesmo ponto, sem handicap”.

A explicação é claramente insatisfatória. Linha riscada no chão para servir de ponto de partida não tem nada a ver com futebol. Handicap, ainda menos. Volto aos dicionários de inglês e, revirando o Webster’s, encontro uma acepção meio obscura que enfim mata a charada: scratch team (com scratch no papel de adjetivo, não de substantivo) quer dizer equipe “reunida às pressas, sem muito critério”.

Sim, deu-se a transformação de um adjetivo em substantivo, mas isso é comum em nossa língua no caso de palavras vindas do inglês – o mesmo ocorreu com shopping (center) e outdoor (advertising), por exemplo. O sentido também foi alterado de negativo (“equipe reunida de qualquer maneira”) para positivo (“equipe reunida para determinada ocasião, mas, ao menos em tese, criteriosamente”). Uma das especialidades da anglofilia brasileira – sincera, mas um tanto desajeitada – é produzir leituras originais desse tipo.

11/05/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Inflação: o sinistro retorno dos preços inchados

"Subindo!" (Matthew Dixon/Getty Images/iStockphoto)

“Apatia do governo extingue chances de controle da inflação no curto prazo”, anunciava na quarta-feira o título da reportagem assinada por Adriano Lira aqui em Veja.com. Sinal claro de que, infelizmente, eu tinha encontrado não só a Palavra da Semana como uma forte candidata, dentro de mais alguns meses, a Palavra do Ano. A inflação – flagelo econômico que meu filho de 16 anos teve a felicidade de, até hoje, praticamente ignorar – está de volta ao centro das preocupações nacionais.

Quando se fala da origem da palavra inflação, é preciso mencionar duas etapas separadas por muitos séculos: na primeira nasceu o próprio vocábulo, vindo do latim; na segunda, por influência americana, nasceu a acepção econômica que hoje é dominante na linguagem comum.

A palavra foi registrada pela primeira vez em português em 1563, tendo como matriz o latim inflationis (“inchaço, edema, distensão gasosa”). Esse sentido médico foi o único que teve por muito tempo. No século XVIII, por metáfora, o substantivo inflação passou a ser empregado também como sinônimo de vaidade, presunção, falta de modéstia. Vem de longe a imagem do vaidoso como um indivíduo inchado.

No entanto, foi só no século XX – mais precisamente em 1926, segundo a datação do Houaiss – que pela primeira vez se registrou entre nós a acepção, destinada a se tornar sombriamente familiar para gerações de brasileiros, de “desequilíbrio que se caracteriza por uma alta substancial e continuada no nível geral dos preços, concomitante com a queda do poder aquisitivo do dinheiro, e que é causado pelo crescimento da circulação monetária em desproporção com o volume de bens disponíveis”.

Tudo indica que tal acepção tenha nascido – também por metáfora, como no caso da vaidade – no inglês americano, idioma em que há registro dela já em 1838, segundo o dicionário etimológico de Douglas Harper. Em francês essa expansão semântica só chegaria em 1919.

Por trás da ideia de inchamento ou expansão gasosa, tanto de partes do corpo quanto de preços, percebe-se o verbo latino flare (soprar). Sua carga genética – bem como a de seus filhos inflare, sufflare, insufflare – pode ser vislumbrada num grande número de palavras do português, da flauta à flatulência, de soprar a insuflar. E, claro, também no verbo inflar, forma culta da qual inchar é a variante vulgar.

Uma curiosidade adicional é que, embora o sentido econômico de inflação tenha demorado séculos para surgir, como se viu acima, seu antepassado mais remoto já tinha uma acepção secundária estranhamente próxima dele, numa espécie de sinistro prenúncio. Flare, “soprar”, também podia ser usado com o sentido de “fundir metal (para cunhar moeda)”.

04/05/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Bayern: Baviera ou Bavária?

O holandês Robben comemora: os bávaros estavam bravos (Alejandro García/EFE)

A humilhação a que o excelente time do Bayern submeteu a mitificada equipe do Barcelona numa das semifinais da Liga dos Campeões, chegando a uma estonteante goleada de 7 a 0 na soma das partidas dentro e fora de casa, é um bom pretexto para falarmos da controvérsia que cerca a tradução em português do topônimo alemão Bayern.

Bayern é como se chama, no idioma local, o estado alemão situado no sudeste do país, cuja capital é Munique. Acredita-se que a palavra tenha ligação com os boios, nome do povo celta que vivia na região desde antes de sua anexação ao Império Romano. Os mesmos boios estão por trás do nome da região vizinha da Boêmia, hoje parte da República Tcheca.

Bayern, no latim medieval, virou Bavaria. No entanto, foi só após uma tabelinha com o francês Bavière que a palavra chegou ao português – como também ao espanhol. A região ficou conhecida entre nós como Baviera, sendo “bávaro” o gentílico correspondente a ela. Ponto final?

Não tão depressa. Ocorre que há cerca de três décadas, provavelmente mais, tem sido comum encontrar na língua brasileira das ruas – e até mesmo na imprensa – a forma alternativa Bavária. Será que se trata de um retorno às nossas raízes latinas?

Tudo indica que não: se retorno houver, será do tipo acidental. O mais provável, dada a atual correlação de forças geolinguísticas, é que uma parcela dos falantes brasileiros esteja trocando Baviera por Bavária por influência do inglês, isso sim, língua que foi buscar diretamente no latim medieval a forma Bavaria. O empurrãozinho dado pela cerveja homônima não é desprezível, mas não contraria – pelo contrário – a hipótese anglófila.

27/04/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Retaliação: a lei de talião entre os poderes

Monólito com o Código de Hamurabi (Museu Pergamon, Berlim)

“Para o ministro Marco Aurélio Mello, a proposta ‘ressoa como retaliação‘ a decisões recentes da corte, como a condenação de 25 réus do mensalão.” Antes mesmo de ser enunciada, a palavra retaliação já pairava sobre a crise aberta entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal pela inacreditável aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, da PEC que prevê a submissão ao parlamento de certas decisões do STF. (Leia mais sobre a crise aqui.)

O verbo retaliar é conhecido: vindo do latim retaliare e dicionarizado pela primeira vez em 1836, significa “vingar agressão ou ofensa sofridas; praticar retaliações; desagravar, revidar” (Houaiss). Nem todo mundo, porém, se dá conta da relação estreita que a palavra mantém com a também conhecida lei de talião, aquela que costuma ser traduzida pela máxima “olho por olho, dente por dente”.

Retaliar é nada menos do que aplicar a lei de talião (lex talionis), também conhecida como pena de talião. Trata-se do nome latino para um princípio penal primitivo do qual se teve notícia pela primeira vez no Código de Hamurabi, conjunto de leis do império babilônico escrito por volta do século XVIII a.C., e segundo o qual o crime deve ser pago pelo infrator na mesma moeda.

Muita gente imagina equivocadamente que talião seja um nome próprio – supostamente, do jurista que concebeu o princípio ou do imperador que o sancionou. Nada disso: o latim talio, talionis é um substantivo comum derivado do adjetivo talis (“tal, igual”).

20/04/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Palavra ‘terrorismo’ nasceu na Revolução Francesa

Foto de John Tlumacki/Boston Globe/Getty Images

Transformado em Palavra da Semana pelas bombas de Boston, o vocábulo terrorismo, como costuma ocorrer, é mais novo do que aquilo que nomeia. O “uso sistemático de violência para criar um clima de medo generalizado numa população e dessa forma atingir um determinado objetivo político” – definição genérica e competente da Britannica Concise Encyclopedia – já era uma arma política empregada na antiguidade, segundo o mesmo verbete. A palavra, porém, nasceu com a Revolução Francesa, no período que ficou conhecido como Reino do Terror (1793-1794) comandado por Maximilien de Robespierre, líder dos jacobinos, quando milhares de pessoas foram mortas na guilhotina.

A palavra francesa terrorisme (do latim terror, terroris, “terror, espanto”) foi empregada pela primeira vez em 1794 com o sentido preciso e restrito de “doutrina dos partidários do Terror”, o mesmo com que desembarcaria em inglês um ano depois (em português, o termo só foi dicionarizado em 1836). “Se a base de um governo popular em tempos de paz é a virtude”, discursou Robespierre, líder do Terror, “sua base em tempos de revolução é a virtude e o terror – virtude sem a qual o terror seria barbárie, e terror sem o qual a virtude seria impotente”. Disse isso em 1794, pouco antes de ser derrubado do poder e adequadamente guilhotinado também.

“Embora normalmente se pense nele como uma forma de desestabilizar ou derrubar instituições políticas, o terror também tem sido empregado por governos contra seu próprio povo para suprimir o dissenso”, prossegue a Britannica. Foi exatamente o que ocorreu no nascimento da palavra.

13/04/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

O tribunal, o tribuno e a tribo

Martelo batido: na cabeça de quem? (Thinkstock)

A emenda constitucional, aprovada pelo Congresso, que cria quatro novos Tribunais Regionais Federais – motivo de um violento puxão de orelhas público aplicado pelo ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, em líderes de associações de classe dos juízes federais – traz à baila a palavra tribunal. Todo mundo sabe o que significa: “lugar em que se realizam audiências judiciais e se fazem os julgamentos” (Houaiss). Mas de onde veio? Sua história pode nos ensinar alguma coisa sobre a crise atual?

Creio que sim. Como quase tudo no vocabulário da justiça – e a maior parte do que se encontra no português em geral – a matriz do nosso tribunal, palavra de meados do século XVI, é latina. A grafia já era a mesma na língua de Cícero, tribunal, e o sentido, em linhas gerais, também: “tribunal, assento dos juízes”, informa o dicionário Saraiva na primeira acepção. É quando buscamos a origem da palavra em latim que começam a se acender algumas luzes sobre o espírito que comandou seu surgimento.

O Saraiva ensina que tribunal nasceu de tribunus, vocábulo que por sua vez era um derivado de tribus. Tribunus, de onde tiramos “tribuno”, era o representante do povo nas altas rodas políticas: nas palavras do Houaiss, “magistrado que, na antiga Roma, estava encarregado de defender os direitos e interesses do povo junto ao Senado”. Era a princípio quem falava pela tribo (tribus, correspondente a cada uma das unidades territoriais em que era dividido o povo romano).

Um dos sentidos moderninhos de tribo, como se sabe, é figurado e bem diferente da matriz latina. Fala-se informalmente na tribo dos surfistas, na tribo dos metaleiros, na tribo dos naturebas, e em nenhum desses casos a palavra tem qualquer relação, mesmo remota, com a ideia de povo, de sociedade em geral, de coletividade local, regional ou nacional. A mesma lógica vale para o espírito corporativista de farinha-pouca-meu-pirão-primeiro que uma parte expressiva – e por enquanto vitoriosa – do Judiciário volta a demonstrar nesse caso. Nossos tribunos são grandes defensores da tribo dos tribunos.

 

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