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Arquivo da categoria Curiosidades etimológicas

21/02/2012

às 16:55 \ Curiosidades etimológicas

Tanto bate até que batuca

De onde vem a batucada? Da rua ao lado? Da TV? Do coração mesmo das coisas? Só sei que de repente me acorda, a batucada, e resiste aos truques habituais como janela fechada e ar condicionado ligado. A cama treme, o quarto inteiro treme. Indefeso, eu lhe pergunto então: de onde vens, ó batucada? Mas mesmo isto é nebuloso. Certamente a África tem algo a ver com teu passado, certo?

Bem, dificilmente. Parece provável que o verbo bater, do latim battere, esteja no coração do batucar, embora a origem da palavra não seja pacífica. Junte-se à ideia da batida a terminação verbal ucar, a mesma de cavoucar ou cavucar (também esta, veja bem, uma ação repetida, à beira da compulsão), e pronto.

De uma forma ou de outra, o certo é que a palavra batucar vem de longe, pelo menos desde o pioneiríssimo dicionário de Rafael Bluteau, no início do século 18. Do verbo fez-se mais tarde o batuque e a batucada.

14/02/2012

às 15:50 \ Curiosidades etimológicas

De bermuda nas Bermudas

Embora pareça ter sido feita sob medida para o verão brasileiro, a peça de vestuário conhecida como bermuda – ou bermudas – deve seu nome às ilhas Bermudas (em inglês, mais conhecidas como Bermuda, no singular). Trata-se de um pequeno território britânico localizado no Atlântico Norte, a cerca de mil quilômetros da costa dos Estados Unidos, num dos vértices do famoso Triângulo das Bermudas. As ilhas, por sua vez, receberam tal nome por terem sido descobertas (em 1505) pelo navegador espanhol Juan de Bermúdez.

Consta que calças velhas cortadas na altura dos joelhos eram os trajes típicos das turistas americanas que visitavam as Bermudas no século passado. Alguns atribuem o sucesso desses calções a uma lei ou costume local que proibia as mulheres de exibir mesmo uns poucos centímetros das coxas.

Segundo o dicionário etimológico de Douglas Harper, o primeiro registro escrito da expressão Bermuda shorts apareceu no romance The long goodbye (“O longo adeus”), do escritor policial Raymond Chandler, em 1953.

Registre-se como curiosidade que o Houaiss, mesmo reconhecendo que importamos a palavra do inglês americano, situa sua chegada ao português em 1951, dois anos antes da publicação do romance de Chandler. Ou seja: um dos dois dicionários está errado.

07/02/2012

às 15:59 \ Curiosidades etimológicas

Aeroportos são assombrados por velhos galeões

O aeroporto – palavra que um espírito afeito à poesia poderia decompor em algo como porto aéreo, ancoradouro do ar, cais dos ventos – carrega em seu nome para sempre o fantasma do mar que era indissociável do latim portus (“porto, abra, abrigada, enseada, angra, barra”), local seguro para os barcos ancorarem. Não há nada de surpreendente nisso: a própria ação de embarcar num avião continua a pagar tributo às velhas embarcações.

Existe alguma controvérsia sobre qual teria sido a primeira língua a unir o elemento indicador de ar (no caso do português, o antepositivo de origem grega aeros, “relativo à atmosfera”) à palavra porto, a fim de nomear essas grandes estações de embarque e desembarque que agora começam a ser privatizadas no Brasil.

O inglês americano reivindica o pioneirismo: a palavra airport teria aparecido em 1919 para se referir ao campo de aviação Bader Field, fundado em 1910 em Atlantic City. No francês, o primeiro registro de aéroport data de 1922, mas a palavra não seria um anglicismo e sim um neologismo criado por lá mesmo, segundo o Trésor de la Langue Française. De acordo com o filólogo Antenor Nascentes, nosso aeroporto, um termo de 1932, foi decalcado do francês e não do inglês.

31/01/2012

às 13:50 \ Curiosidades etimológicas

A língua, a bunda e a ‘língua bunda’ de Lobato

“A bunda, que engraçada”, já sabia Drummond. “Está sempre sorrindo, nunca é trágica.” Dividida ao meio, tem uma nádega apoiada na linguagem chula e a outra na mais cândida intimidade. Informal sempre, deve-se evitá-la em discursos educados: preferir um clínico glúteos, um anódino nádegas, um inocente traseiro, um tatibitate bumbum, um cômico fundilhos, um pândego pandeiro, um pedante derrière ou mesmo um regionalista tundá – entre outras opções disponíveis num vocabulário vasto.

Afinal, não estamos falando de um “nome feio”? O mais risonho e infantil dos palavrões, mas ainda palavrão? Bem, quase isso. Bunda é um vocábulo que ainda não entregou suas últimas reservas de crueza ao sistema – ao sistema da língua asséptica, polidinha, carimbada. A população brasileira em peso sabe que, no fundo, é bunda mesmo a palavra definitiva para aquele volume musculoadiposo que os seres humanos têm na parte de trás do quadril, em graus variados de proeminência, ao sul de quem é dono dela. Por que, então, o vocábulo conserva-se maliciosamente sorridente, como queria Drummond?

Trata-se de um brasileirismo de origem africana. Veio do quimbundo mbunda, “quadris, nádegas” (sentido que tem também em Angola), e tomou em nosso vocabulário sócio-erótico-anatômico um assento que em condições normais estaria reservado a um filho do latim culus, como ocorreu em Portugal. O pioneiro no registro do vocábulo originado no quimbundo foi o dicionário Constâncio de 1836, o que quer dizer que a bunda já devia saracotear por aí sem certidão de nascimento pelo menos desde o século 18.

Como curiosidade, registre-se o uso que o escritor Monteiro Lobato (foto) gostava de fazer da expressão pejorativa “língua bunda” para designar o português inculto falado pela maioria da população brasileira – em consonância com o sentido de “ordinário, de baixa qualidade” que a palavra conserva até hoje.

Num dos contos de “Urupês”, Lobato menciona jornais populares nos quais “se estampam em língua bunda as facadas que Pé Espalhado deu no Camisa Preta…”. A expressão volta a aparecer em sua correspondência com Godofredo Rangel, reunida em “A barca de Gleyre”, onde a escritora Ana Maria Gonçalves encontrou recentemente uma coleção de declarações abertamente racistas do criador de Narizinho – racismo que tudo indica estar também na origem da locução “língua bunda”.

24/01/2012

às 13:28 \ Curiosidades etimológicas

Pirata: no mar das línguas, o empreendedor sem bandeira

O debate sobre as propostas de legislação antipirataria em discussão no Congresso dos EUA (leia um apanhado geral aqui) pôs em evidência um sentido relativamente novo para uma palavra antiga: pirata. Mas como foi que o corsário, o bucaneiro, bandido temido por séculos nos oceanos do mundo e que tem sua encarnação pop mais famosa no Jack Sparrow da série cinematográfica “Piratas do Caribe” (foto), como foi que o filibusteiro se transformou no pirata da era eletrônica?

Por metáfora, claro. Ou melhor, por uma série de metáforas, uma expansão gradual de sentido que teve como motores as ideias de rapinagem, ilegalidade, ousadia e oportunismo. Antes mesmo de se estabelecer no mundo digital, o sentido hoje em evidência estava maduro: o termo pirata passou a designar em algum momento do século 20 a atividade de copiar analogicamente obras artísticas – discos, livros etc. – sem o pagamento de direitos autorais. Antes ainda, já se registravam em português as acepções de ladrão (genérico), trapaceiro, malandro, arrivista e até namorador.

Todos esses sentidos são derivados do significado original de aventureiro dos mares com o qual a palavra desembarcou em nossa língua em princípios do século 16 – e quem quiser imaginar um desembarque de espada nos dentes, pode. Após uma tabelinha com o italiano pirata, ela vinha em última análise do grego peirates, “aquele que tenta (um golpe), que se arrisca” – palavra que, assim como os vocábulos perigo, perícia e experiência, tem relações de parentesco com o grego peirá, “tentar, empreender”.

Quer dizer que bem no fundo do pirata dorme um empreendedor? É curioso que, falando de pirate, o American Heritage Dictionary destaque entre seus traços distintivos o fato de que ele matava e pilhava por conta própria, isto é, sem estar a serviço de uma “nação soberana”. Ou seja: o que fazia do pirata um bandidão não eram propriamente suas ações, mas a falta de uma bandeira que as legitimasse.

17/01/2012

às 13:46 \ Curiosidades etimológicas

Wiki é um sucesso. Mas o que é wiki?

A esta altura do pagode digital, todo mundo que tenha um mínimo de experiência com a rede mundial de computadores sabe o que é a Wikipedia, e mesmo quem ainda vive num mundo exclusivamente analógico dificilmente terá conseguido escapar das polêmicas notícias recentes sobre o WikiLeaks. Nada disso, porém, torna menos enigmático para a maioria o significado daquilo que os dois sites citados acima, entre muitos outros, têm em comum: a palavra wiki.

No mundo da computação, wiki passou a ser usado como nome genérico de websites colaborativos, ou seja, aqueles cujo conteúdo pode ser modificado pelo usuário. O termo foi criado em 1994 pelo programador americano Ward Cunningham, que desenvolveu o primeiro software wiki e o batizou de WikiWikiWeb. Note-se que as iniciais dialogam com o www de world wide web (rede mundial de computadores), mas Cunningham garante que sua inspiração foi mais prosaica: limitou-se a copiar o nome dos ônibus expressos do aeroporto de Honolulu, Wiki-Wiki, uma expressão regional havaiana que significa “rapidinho”. Cunningham queria destacar a rapidez e a simplicidade de seu programa.

De interesse restrito a programadores em seus primeiros anos, o conceito e suas aplicações tiveram uma explosão de popularidade a partir de 2001, quando foi lançada a Wikipedia. Desde então, uma grande quantidade de empreendimentos digitais tem usado a palavra como elemento de composição para criar suas marcas – como, a partir de 2006, o WikiLeaks. Em 2007, o verbete wiki estreou na versão online do dicionário Oxford.

10/01/2012

às 16:07 \ Curiosidades etimológicas

A hipocondria mora na boca do estômago

A hipocondria, como se sabe, não escolhe nenhuma parte específica da anatomia para atacar: como condição patológica que leva suas vítimas a se preocuparem obsessivamente com a própria saúde, à procura de problemas que muitas vezes acabam se manifestando por meio de sintomas desprovidos de causas orgânicas, ela pode se estender dos pés à cabeça. Etimologicamente, porém, a hipocondria tem residência fixa: localiza-se na parte superior do aparelho digestivo.

A palavra nos chegou no século 18 e é descendente, por meio do latim hypochondria, do vocábulo grego hypokhóndrion, de hypo (“sob, debaixo de”) + khóndrion (“cartilagem” – no caso, a do esterno, osso frontal do tórax). Na antiguidade, acreditava-se que fosse esta a morada da melancolia.

03/01/2012

às 15:24 \ Curiosidades etimológicas

Janeiro, um mês de duas caras

O nome do mês de janeiro, palavra que desembarcou em nossa língua no século 13, remonta ao latim Januarius mensis ou apenas Januarius, que significava “mês consagrado ao deus Jano”, uma entidade que, na mitologia romana, era responsável pelos começos, pelas passagens e pelos portais. Deus bifronte, isto é, de duas caras (em algumas representações, uma de homem e a outra de mulher), Jano tinha o poder de olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro, para dentro e para fora – e por isso veio a nomear o primeiro mês do ano, aquele em que se dá a transição entre o velho e novo.

27/12/2011

às 9:17 \ Curiosidades etimológicas

Do livro-caixa ao calendário

O primeiro sentido do substantivo latino calendarium não tinha nada a ver com o registro do tempo que passa, mas sim do dinheiro que entra e sai. Livro de contas, livro-caixa, empréstimo a juros, inventário de bens, todas essas acepções pecuniárias teve calendarium antes de adquirir, no próprio latim, o significado que passaria ao português no século 13: o de sistema oficial de divisão do tempo.

Como isso se deu? Bem, calendarium era um derivado de calendae, primeiro dia de cada mês no antigo calendário romano – o dia em que as contas tinham que ser pagas. O primeiro sentido da palavra enfatizava o acerto de contas em si; o segundo, o modo de organização do tempo em cuja moldura o acerto se daria.

(A propósito, a palavra calendae foi transposta literalmente para o português calendas, que ainda tem alguma circulação na expressão “para as calendas gregas” – às vezes abreviada erroneamente como “para as calendas” – ou seja, “para nunca”, pois os gregos não tinham calendas.)

Votos etimológicos: que a virada do calendário-calendário traga aos leitores do Sobre Palavras, entre outras bênçãos, um calendário-livro-caixa todo azul.

20/12/2011

às 13:07 \ Curiosidades etimológicas

Manjedoura, o cocho do presépio

Manjedoura é uma daquelas palavras que, como panetone, só existem no Natal. Não, eu não ignoro que manjedoura – “tabuleiro em que se deposita comida para vacas, cavalos etc. em estábulos” (Houaiss) – é um termo vernacular nascido no século 15. O que quero dizer é que, ofuscado na língua da pecuária brasileira do dia a dia por um sinônimo popular como cocho ou coche, tornou-se um vocábulo de ares nobres que vive quase exclusivamente do papel que desempenha nos presépios, como nome do berço improvisado do recém-nascido Jesus.

A origem da palavra manjedoura está cercada de controvérsia. É evidente, em sua composição, a influência remota do latim manducare (mastigar), que gerou o francês manger, o italiano mangiare e o português manjar (todos verbos que significam comer, ingerir alimentos). A isso, foi só juntar o sufixo -douro, que indica o local onde se passa a ação, para ter manjedoura. A dúvida é se a formação se deu já em português ou por influência do italiano mangiatoia, vocábulo que precede manjedoura em mais de dois séculos.


 

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