Sérgio Rodrigues Sobre Palavras

Sobre Palavras

Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

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Mineiro radicado no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Tem diversos livros publicados, entre eles “What língua is esta?”, sobre o português brasileiro contemporâneo, e “O drible”, romance vencedor do prêmio Portugal Telecom 2014. Assina também a coluna Todoprosa de VEJA.com.

Todo incluso é incluído, mas nem todo incluído é incluso

Por: Sérgio Rodrigues

Ver comentários (18)

“Qual é a forma correta: incluso ou incluído?” (Guilherme Mendes)

Ambas estão corretas, Guilherme – o que não quer dizer que não faça diferença empregar uma ou outra. Vamos começar recuando um pouco na história das duas palavras.

Incluir é um daqueles verbos que os gramáticos chamam de abundantes, como aceitar, eleger e gastar. Isso significa que têm dois particípios: um regular (incluído, aceitado, elegido, gastado) e outro irregular (incluso, aceito, eleito, gasto).

Particípios regulares, formados segundo as regras do próprio português, e irregulares, em geral formas cultas derivadas diretamente do latim, travaram ao longo dos séculos de formação do português moderno uma guerra discreta. Houve casos em que o irregular caiu em desuso, sobrevivendo apenas como substantivo – como ocorreu com a palavra cinto, nascida como particípio irregular do verbo cingir.

Em compensação, houve particípios irregulares que, a princípio ignorados, terminaram por se impor, fazendo a forma regular soar deselegante. Até o século XV os grandes autores portugueses só conheciam “elegido”, mesmo na voz passiva. Foi a partir do XVI que “eleito” o destronou.

Não existe uma regra que abarque todos os empregos de todos os verbos abundantes. Como diretriz geral, vale ter em mente que o particípio regular é mais usado na voz ativa (“ter gastado, ter aceitado”) e o irregular, na passiva (“ser ou estar gasto, ser ou estar aceito”).

O caso de incluído/incluso tem algumas peculiaridades. Incluir nem consta da lista (não exaustiva) de verbos abundantes da gramática de Evanildo Bechara, por exemplo. A razão para isso é simples: embora incluso seja palavra dicionarizada desde o século XV, derivada do latim inclusus, até alguns anos atrás era bem raro que desse as caras na linguagem comum. Quando o fazia, na maioria das vezes vinha ao lado do substantivo “siso”, para designar aquele dente que não despontou.

Incluso era, como “sito” (particípio irregular de situar), uma joia vocabular do juridiquês, a língua empolada falada nos tribunais. Não é mais. Em algum momento indefinido, provavelmente próximo do fim do século passado, passou a circular com desenvoltura na linguagem do comércio e da burocracia: “pilhas não inclusas”; “frete incluso”; “imposto incluso”.

A princípio isso me soava meio besta e pernóstico (ainda soa, na verdade), mas parece que a moda está pegando. O que pode ser visto como prova de que ainda não terminou a tal guerra surda no reino dos verbos abundantes. Só uma observação: se você gosta de incluso, tome cuidado para usá-lo apenas como adjetivo ou, vá lá, em construções na voz passiva.

Exemplo: é considerado correto dizer que “O imposto está incluso no preço” e aceitável, embora menos comum, que “O imposto foi incluso no preço”, mas nunca que “O vendedor tinha incluso o imposto no preço” – neste caso, deve-se dizer que ele “tinha incluído”. Já incluído tem a vantagem de poder ser empregado em todas essas construções.

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Comentários

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  1. juliano nune souza

    muito esse jeito de falar de um determinado tema é inovador para mim, e por isso que gostei desta revista, e também tenho uma perguntar par a faser.
    como faço para entender os tipos de orações.

  2. sandra

    Caro juliano souza,
    a palavra “fazer” se escreve corretamente com “z”, fazer, e não com “s”.

  3. Francesco

    Pistas molhadas requer mais cuidado. Se é as pistas que requerem cuidado, a frase está errada. Como escrever ou como falar, logo vai deixar de ser importante. É que se o leitor/ouvinte entendeu, pronto! Se não desencadear uma campanha para curar a língua, tanto falada quanto escrita, é bobagem se preocupar com esses erros. Os grandes jornais cometem erros gravíssimos de concordância e outros mais. Fazer o que?

  4. Heraldo

    E “soar pernóstico” ao invés de “parecer pernóstico” não faz o usuário da frase ficar incluso no rol dos pernósticos?
    Não. “Incluso no rol”, sim.

  5. Casca Fina

    Considero-me incluído entre seus alunos e admiradores.
    E permaneço incluso, o que muito me honra.

  6. Marcel

    Oi Sérgio. Em Minas Gerais, já ouvi muito as pessoas dizendo que tal coisa já está “compra”, em vez de comprada, como se “comprar” fosse abundante.
    Rapaz, essa eu nunca tinha visto, e olha que sou mineiro.

  7. NelSon junior

    Isso que o Marcel falou é a pura verdade aqui em Minas. Aliás, a frase completa é “tal coisa está “compra” e paga”. É o dialeto conhecido como mineirês, uai!
    Aproveito para parabenizar o autor do blog, um dos melhores da internet.

  8. Maria MG

    Sérgio, ótimo esclarecimento! Sempre tive essa dúvida, achando que incluso não era correto. Eu prefiro a forma “incluído (a)”.

  9. Sherlock

    Bom dia, Sérgio
    Muito bom o post. Uma pena que, além dos verbos acima, há muitas outras regras e dicas tão abundantes quanto!, mas me esforço para guarda-las todas. (aliás, esta história de os verbos perderem o acento – como em “guarda-las” – ainda me confunde!).
    Gosto especialmente da série demistificando as lendas da internet, tais como “esculpido em carrara”, “bicho pelo corpo inteiro” (pfui!) e etc.
    abr.

  10. Luis

    Confesso que achei muito complicado o uso de “incluso” e “incluído”. No entanto acabei sanando outras dúvidas, como o uso de “gasto/gastado”, “aceito/aceitado”, etc….

  11. Ise

    Infelizmente fiquem com uma tremenda dor de cabeça de dúvida: lendo outros sites, lá dizem que o verbo INCLUIR não é um verbo abundante, e incluso é usado somente como um adjetivo e não nos verbos compostos ou na voz passiva. Achei que tinha chegado ao final da dúvida, mas um site contradiz o outro (ou enriquece). Desculpa e agradeço.
    Ise

    Resposta
    1. sergiorodrigues

      Cara Ise: incluir é um verbo abundante, sim. Respondi à sua pergunta aqui: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/a-volta-do-incluso-o-que-faltou-incluir/

  12. Ise

    Desculpe, correção: FIQUEI com uma tremenda…

  13. […] pouco mais de dois meses tratei aqui, no post Todo incluso é incluído, mas nem todo incluído é incluso, do caso de incluso, palavrinha que evito usar, por me parecer meio metida a besta, mas de sucesso […]

  14. Andrews

    Qual a definição dessa relação? Porque todu isso é aquilo, mas nem todo aquilo é isso? Todo x é y, mas nem todo y é x? Qual é o nome dessa matéria? Alguém me dá um substantivo aew?????????

  15. […] verbos de duplo particípio, chamados abundantes, como aceitar e gastar (leia mais sobre eles aqui), mas chegar não pertence ao […]

  16. Maicon Almeida

    O verbo trazer admite qual pronúncia na primeira pessoa do singular (presente do indicativo)? Já que trago vem do verbo tragar.
    É ‘trago’ mesmo, do verbo trazer (neste caso há coincidência com tragar). Só o que se questiona é o ‘trago’ usado como particípio.

  17. Alessandra

    e pagar? Eu tinha pagado ou pago?