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05/12/2013

às 12:42 \ Consultório

Todo incluso é incluído, mas nem todo incluído é incluso

“Qual é a forma correta: incluso ou incluído?” (Guilherme Mendes)

Ambas estão corretas, Guilherme – o que não quer dizer que não faça diferença empregar uma ou outra. Vamos começar recuando um pouco na história das duas palavras.

Incluir é um daqueles verbos que os gramáticos chamam de abundantes, como aceitar, eleger e gastar. Isso significa que têm dois particípios: um regular (incluído, aceitado, elegido, gastado) e outro irregular (incluso, aceito, eleito, gasto).

Particípios regulares, formados segundo as regras do próprio português, e irregulares, em geral formas cultas derivadas diretamente do latim, travaram ao longo dos séculos de formação do português moderno uma guerra discreta. Houve casos em que o irregular caiu em desuso, sobrevivendo apenas como substantivo – como ocorreu com a palavra cinto, nascida como particípio irregular do verbo cingir.

Em compensação, houve particípios irregulares que, a princípio ignorados, terminaram por se impor, fazendo a forma regular soar deselegante. Até o século XV os grandes autores portugueses só conheciam “elegido”, mesmo na voz passiva. Foi a partir do XVI que “eleito” o destronou.

Não existe uma regra que abarque todos os empregos de todos os verbos abundantes. Como diretriz geral, vale ter em mente que o particípio regular é mais usado na voz ativa (“ter gastado, ter aceitado”) e o irregular, na passiva (“ser ou estar gasto, ser ou estar aceito”).

O caso de incluído/incluso tem algumas peculiaridades. Incluir nem consta da lista (não exaustiva) de verbos abundantes da gramática de Evanildo Bechara, por exemplo. A razão para isso é simples: embora incluso seja palavra dicionarizada desde o século XV, derivada do latim inclusus, até alguns anos atrás era bem raro que desse as caras na linguagem comum. Quando o fazia, na maioria das vezes vinha ao lado do substantivo “siso”, para designar aquele dente que não despontou.

Incluso era, como “sito” (particípio irregular de situar), uma joia vocabular do juridiquês, a língua empolada falada nos tribunais. Não é mais. Em algum momento indefinido, provavelmente próximo do fim do século passado, passou a circular com desenvoltura na linguagem do comércio e da burocracia: “pilhas não inclusas”; “frete incluso”; “imposto incluso”.

A princípio isso me soava meio besta e pernóstico (ainda soa, na verdade), mas parece que a moda está pegando. O que pode ser visto como prova de que ainda não terminou a tal guerra surda no reino dos verbos abundantes. Só uma observação: se você gosta de incluso, tome cuidado para usá-lo apenas como adjetivo ou, vá lá, em construções na voz passiva.

Exemplo: é considerado correto dizer que “O imposto está incluso no preço” e aceitável, embora menos comum, que “O imposto foi incluso no preço”, mas nunca que “O vendedor tinha incluso o imposto no preço” – neste caso, deve-se dizer que ele “tinha incluído”. Já incluído tem a vantagem de poder ser empregado em todas essas construções.

*

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14 Comentários

  1. Andrews

    -

    27/02/2014 às 14:21

    Qual a definição dessa relação? Porque todu isso é aquilo, mas nem todo aquilo é isso? Todo x é y, mas nem todo y é x? Qual é o nome dessa matéria? Alguém me dá um substantivo aew?????????

  2. sergiorodrigues

    -

    13/02/2014 às 14:22

    Cara Ise: incluir é um verbo abundante, sim. Respondi à sua pergunta aqui: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/a-volta-do-incluso-o-que-faltou-incluir/

  3. Ise

    -

    06/02/2014 às 18:55

    Desculpe, correção: FIQUEI com uma tremenda…

  4. Ise

    -

    06/02/2014 às 18:54

    Infelizmente fiquem com uma tremenda dor de cabeça de dúvida: lendo outros sites, lá dizem que o verbo INCLUIR não é um verbo abundante, e incluso é usado somente como um adjetivo e não nos verbos compostos ou na voz passiva. Achei que tinha chegado ao final da dúvida, mas um site contradiz o outro (ou enriquece). Desculpa e agradeço.
    Ise

  5. Luis

    -

    16/12/2013 às 15:00

    Confesso que achei muito complicado o uso de “incluso” e “incluído”. No entanto acabei sanando outras dúvidas, como o uso de “gasto/gastado”, “aceito/aceitado”, etc….

  6. Sherlock

    -

    16/12/2013 às 10:33

    Bom dia, Sérgio
    Muito bom o post. Uma pena que, além dos verbos acima, há muitas outras regras e dicas tão abundantes quanto!, mas me esforço para guarda-las todas. (aliás, esta história de os verbos perderem o acento – como em “guarda-las” – ainda me confunde!).
    Gosto especialmente da série demistificando as lendas da internet, tais como “esculpido em carrara”, “bicho pelo corpo inteiro” (pfui!) e etc.
    abr.

  7. Maria MG

    -

    07/12/2013 às 12:01

    Sérgio, ótimo esclarecimento! Sempre tive essa dúvida, achando que incluso não era correto. Eu prefiro a forma “incluído (a)”.

  8. NelSon junior

    -

    06/12/2013 às 19:34

    Isso que o Marcel falou é a pura verdade aqui em Minas. Aliás, a frase completa é “tal coisa está “compra” e paga”. É o dialeto conhecido como mineirês, uai!
    Aproveito para parabenizar o autor do blog, um dos melhores da internet.

  9. Marcel

    -

    06/12/2013 às 16:35

    Oi Sérgio. Em Minas Gerais, já ouvi muito as pessoas dizendo que tal coisa já está “compra”, em vez de comprada, como se “comprar” fosse abundante.
    Rapaz, essa eu nunca tinha visto, e olha que sou mineiro.

  10. Casca Fina

    -

    06/12/2013 às 13:44

    Considero-me incluído entre seus alunos e admiradores.
    E permaneço incluso, o que muito me honra.

  11. Heraldo

    -

    06/12/2013 às 9:08

    E “soar pernóstico” ao invés de “parecer pernóstico” não faz o usuário da frase ficar incluso no rol dos pernósticos?
    Não. “Incluso no rol”, sim.

  12. Francesco

    -

    06/12/2013 às 8:35

    Pistas molhadas requer mais cuidado. Se é as pistas que requerem cuidado, a frase está errada. Como escrever ou como falar, logo vai deixar de ser importante. É que se o leitor/ouvinte entendeu, pronto! Se não desencadear uma campanha para curar a língua, tanto falada quanto escrita, é bobagem se preocupar com esses erros. Os grandes jornais cometem erros gravíssimos de concordância e outros mais. Fazer o que?

  13. sandra

    -

    05/12/2013 às 21:22

    Caro juliano souza,
    a palavra “fazer” se escreve corretamente com “z”, fazer, e não com “s”.

  14. juliano nune souza

    -

    05/12/2013 às 16:05

    muito esse jeito de falar de um determinado tema é inovador para mim, e por isso que gostei desta revista, e também tenho uma perguntar par a faser.
    como faço para entender os tipos de orações.

 

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