Sérgio Rodrigues Sobre Palavras

Sobre Palavras

Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

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Mineiro radicado no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Tem diversos livros publicados, entre eles “What língua is esta?”, sobre o português brasileiro contemporâneo, e “O drible”, romance vencedor do prêmio Portugal Telecom 2014. Assina também a coluna Todoprosa de VEJA.com.

Saudade ou saudades? Felicidade ou felicidades?

Por: Sérgio Rodrigues

Ver comentários (65)


Comumente ouço as palavras saudade, ciúme e felicidade sendo empregadas no plural. Confesso que acho estranho por não conseguir imaginar como possa haver mais de uma felicidade, ou como alguém possa sentir mais de um ciúme… Por isso sempre digo que estou com saudade, ou desejo felicidade no aniversário de alguém. Qual a forma mais adequada? (Rodrigo Bersot)

Em primeiro lugar, Rodrigo, você tem o direito de ser fiel ao singular das palavras saudade, felicidade e ciúme. Não há erro nisso. Mas saiba que também não haveria erro se você as empregasse no plural.

A condenação dos tradicionalistas a uma flexão consagrada como “saudades” se baseia num único argumento: a palavra exprime uma “noção abstrata” e, como tal, não é enumerável. Isso é uma ideia tão antiga e furada – e contrariada por séculos de uso – que até um prócer do conservadorismo gramatical como Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998) mostrou-se em dúvida sobre ela.

Em seu “Dicionário de questões vernáculas”, o famoso professor observou que ia ocorrendo com saudade o mesmo que ocorrera com parabém e pêsame, palavras cujo singular caiu em desuso e que hoje só existem no plural. “Já não dizemos que um dia só o plural se venha usar”, concluiu, “mas por ora nada há que opor ao emprego da flexão numérica.” (Sobre isso, vale a pena ler o que diz o professor Paulo Hernandes, discípulo de Napoleão, aqui.)

Tudo resolvido, então? De certa forma, sim. Como ficar à direita de Napoleão Mendes de Almeida em questões gramaticais acarreta a desclassificação sumária do debatedor, poderíamos passar ao próximo item da conversa. Mesmo assim, vale a pena falar um pouco mais sobre essa história.

A “regra” de não levar para o plural substantivos que exprimem “noções abstratas”, se pensarmos bem, é inaplicável de saída: tais substantivos – como a maioria das palavras – tendem a um certo esparramamento semântico sobre a superfície das coisas. No caso do substantivo liberdade, ideia pura, a concretização do plural é clara e pode evocar desde ares escandalosos, libertinos (“tomou liberdades com a jovem”) até o verniz jurídico de cláusulas num contrato político-social (“liberdades civis”). No caso da palavra amor, que nomeia ainda o objeto do amor, também soa natural a flexão: “fulano estava dividido entre dois amores”. Até aí os tradicionalistas vão. O problema, segundo eles, são os abstratos que permanecem abstratos.

O problema verdadeiro, claro, são os tradicionalistas. Porque simplesmente não existe um dique capaz de separar abstração e concretude com tanta segurança. “Felicidades” pode querer dizer “votos de felicidade”. E não é difícil perceber que saudades podem ser enumeradas: de você, das crianças, dos nossos passeios dominicais, da infância, da comida da vovó…. Essa expansão do sentido nuclear das palavras se dá por metonímia e é tão banal – e incontrolável – que tende a passar despercebida.

Isso bastaria para fazer picadinho de uma regra besta, mas nem sempre a lógica da metonímia está por trás do plural de substantivos abstratos. Um outro caminho é o da fórmula convencional, que cristaliza a palavra numa dureza de lugar-comum, moedinha que as pessoas trocam várias vezes ao dia. Foi o que ocorreu com pêsames e parabéns, como observou o professor Napoleão, e é o que ocorre em frases como “mando lembranças”, “estou com saudades”, “desejo felicidades”. Um intuito de intensificação por multiplicação parece estar na origem de tal uso, mas o clichê tem o efeito oposto, de atenuamento. Declarar saudades, num plural difuso, compromete menos do que se dizer com saudade, no singular pessoal. E desejar felicidades talvez soe mais elegante e discreto do que desejar felicidade (como se alguém pudesse saber o que é a felicidade para o outro). Etc.

O plural de ciúme, também bastante usado, é um caso curioso em que as duas tendências, a da metonímia e a da fórmula, parecem se fundir, negando-se mutuamente. Não sendo bem um lugar-comum da convivência social, ciúme no plural ainda assim tem algo de clichê, de marcação dramática. E não sendo coisificado pelo objeto, como amor, quem pode garantir que não guarde um eco da multiplicidade de faces do ciúme, de seu jeito infinito-enquanto-dure de doer?

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Comentários

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  1. Auro Alexandre Castro Guarulhos

    Não se respeita o “singularia tantum” latino? Será que “mataram” o latim?

  2. Edson

    Magnífico texto! Tirei minhas dúvidas! Grato pela compartilha!! O autor está de parabéns!

  3. Erick

    Só posso concordar; ficou muito bem escrito. Ainda bem que há nuâncias interessantes no jeito de falar e se expressar na nossa língua, eu penso. Se mesmo não for, não há o que fazer sobre isso! =]

  4. SONIA MAURA PERES

    perfeito

  5. SONIA MAURA PERES

    perfeito. Aconselho aos querem se aprimorar que busquem por.
    Tem que ou tem de – Sua ou tua . e outros básicos como ex; duzentos gramas-meio – dia e meia – Eu ou mim? Ora ou hora?

  6. Girlene

    Ótimo texto. Dúvidas esclarecidas!
    Parabém! haha

  7. ilena aparecida schenkel

    oi,não ficou claro para mim o uso Antártida ou Antártica,tenho uma gramática que afirma como Antártica,pois o Pólo é Ártico.E ficou confuso segundo o texto que li,um abraço,Ilena

  8. paulo

    sensacional!!! parabem!

  9. Soaroir

    Agora entendo pq meu filho optou por russo como 2ª língua (lol)

  10. Teresa Rivero

    Perfeito,mas e terrível quando dizem “O ciúmes” ,não?

    Resposta
    1. sergiorodrigues

      Hediondo, Teresa. Mas é sério que vc já ouviu isso? Eu, nunca.

  11. Anildo Dall'Igna Rosa

    Sinceramente, eu não tenho receio de entender que em “saudades” estão implícitas as saudosas lembranças que expressamos quando nos referimos a uma série de fatos ocorridos no passado. Mais do que uma saudade. Saudade da minha professora, saudade do meu pai, saudade do meu amigo, por exemplo. Quantas saudades!

  12. Elany Pereira Morais

    gostei

  13. GUIOMAR

    Muito bom, o texto está claro pude entender perfeitamente as diferenças de uso e o motiv
    o do plural, todavia prefiro usar o classico, me soa mal tanto modernismo,
    lingua belíssima e rica onde a palavra saudade , só a nós pertence.

  14. juliano nune souza

    É evidente que quando queremos dizer que estamos com saudades. estamos querendo dizer que, passaram-se vários dias desde que aquela coisa aconteceu ou se foi, e por ter ocorrido isso, ao passar de cada dia lembramos dessas eventualidades da vida.

    Mas inesperadamente, devemos pensar também que ao longo da vida nós deixamos de ver muitas coisas. É a infância que passou, o sorriso que deu quando foi ao circo pela primeira vez, o primeiro beijo, a primeira vez, são essas coisas que numeram saudades.

  15. Alfredo Domingos

    Outro exemplo do que foi escrito acima é a palavra “queixume” (plural – queixumes), que, no meu entendimento, enquadra-se.

  16. Meiri

    Parabéns pelo texto! Feliz com a explicação. Lembra-nos o quanto a LP é rica e dinâmica.

  17. ancof

    Pois a Regininha jurou para mim que ela era Virgem!….. Meu deus! em quem acreditar nos dias de hoje !… HUMMMMMMMM !…

  18. ancof

    Desconsiderar post anterior…….não é Regininha e sim ….regrinha….ESTOU PRECISANDO DE ÓCULOS, SOCORROOOO !….

  19. Roque borges

    Aprender russo e falta de orientação. Tem gosto para tudo. Quem quer duas linguas deve optar inglês. O espanhol, com poucos se aprende.

  20. Clovis P

    Prefiro a simplicidade do singular. Complicar para quê? As crianças ouvem e saem falando coisas como ‘uma balas kids’ (quando existia essa bala). Adultos confundem o falar com elegância com falar no plural, advindo daí o famoso ‘chops’, coisa de paulista.

  21. Clovis P

    Respondendo à Teresa, já ouvi muitas vezes ‘o ciúmes’. Nada mais pavoroso.

  22. Lorenzo Serrano

    Amigo Sergio Rodrigues , excelente esta página . sou estrangeiro (bem que moro ha 49 anos no Brasil) falo e escrevo dois idiomas de forma correta sem misturar, mas tem muito brasileiro que até nos meios de comunicação não sabem expressar o Portugues.
    Parabéns . vou estar sempre de olho , sempre aprendendo.Um abraço Lorenzo Serrano.

  23. João Damascena

    Gostei muito destes esclarecimentos, haja vista que mesmo sendo Pedagogo com Especialização em Educação e Linguagem encontro, certas dificuldades ao escrever como também em falar. Parabéns e obrigado.

  24. Roberto Sarmento Lima

    Prezado Sérgio, muito boa a sua explicação sobre o plural dos abstratos. Mas, no caso de “ciúme”, tem sido muito difundida por aí a forma “o ciúmes” (como “o pires”) e não tanto “os ciúmes” (como “as saudades”). Ou seja, o abstrato “ciúme” tem sido tratado como um substantivo de dois números, alterando-se apenas a forma do artigo que o acompanha: “o ciúmes” e “os ciúmes”. O singular “ciúme” tem sido pouco praticado (no sentido gramatical, é claro).

  25. Luiz Alfredo Paulin

    Apenas para registro, Fernando Pessoa usou tanto “saudade” como “saudades” no texto em que afirmou ser sua pátria a língua portuguesa. Reproduzo: Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, “Fabricou Salomão um palacio…” E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes – tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é – não – a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d’aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica. Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. (Fernando Pessoa)

  26. Jotabe

    Mais uma aula excelente sobre um tema que passa despercebido pela maioria no dia a dia. Quanto à palavra SAUDADE, palavra que dizem, só existe em português, a melhor definição que já li é: SAUDADE É O AMOR QUE FICA. Não sei que é o autor.

  27. Anne

    A palavra costas foi resultado do uso assim como parabém e pêsame?

  28. eliézer marra

    muito bom, discorreu sucintamente, agradável e embasado. parabém…\9/0
    pode mandar para meu e mail? agradeço a deferência

  29. Leidivânia Mendes de Araújo Melchuna

    Uma análise bastante interessante acerca do uso do plural ou não de palavras usadas em nosso cotidiano. “Sem preconceito linguístico”, eu costumo usá-las no singular, todavia aceito os argumentos apresentados.
    Leidivânia.

  30. Hilma Caetano

    Esse comentário do Luís Alfredo Paulin tem erros de acento em palavras que não levam acentos e outras que levam acentos, ele não acentuou, e vários outros erros.

  31. Afonso Mommensohn

    Muito interessante esta página sobre palavras. Esclarece dúvidas sobre problemas corriqueiros da escrita. Muito bem!

  32. Luann Alves

    Prezada Hilma Caetano, bom dia. O comentário que você cita (Luís Alfredo Paulin)não se trata de erros de grafia,visto que ele citou o poema na época em que ele foi escrito, e na época a grafia correta era esta mesmo.

  33. Leir Lemos

    Olá, professor.
    Sempre fui muito interessado na etimologia das palavras e, quando encontro uma palavra desconhecida, trato de encontrar sua origem e derivados.
    Existe algum curso para etimologista?

    Grato:

    Leir.

  34. Francisco

    Ótimo artigo. Vivendo e aprendendo.

  35. manoel mariano de oliveira

    Posso estar errado, mas não concordo com SAUDADES e FELICIDADES. Saudade e felicidade no singular já significa tudo. Obrigado

  36. iva lopes

    Adorei esse site, encontrei por acaso no google e já adicionei como favorito.Aprender sempre é meu lema . Qual foi o erro em meu comentário por favor ?

  37. Brazilian

    Reconhece-se aqui pelos comentários o nível(louvável) de quem acessa esse site. Pena (e muita) que nossos estudantes não sabem ou não querem saber da riqueza disponível para enriquecer a nossa comunicação.

  38. Giovanna

    Adorei a maneira como abordam as questões. Sempre considerei fundamental mostrar as diferentes visões e interpretações de uso de certos termos,que, apesar de já consagrados na linguagem informal, ainda nos deixam em dúvida sobre a sua correção.

  39. Nelson Teixeira

    Qual amor mora em seu coração, suas almas?
    Parece pouco?
    É muito.
    Compreendeu?

  40. Maria de Fátima Santos Rocha

    Hoje pela primeira vez estou acessando esta página. Gostei muito. Vivendo e aprendendo.

  41. Cyro Passos

    Sempre li esta questão de Saudade ou Saudades, Felicidade ou Felicidades tomando como base que “não se pode haver plural quando se trata de estado de espírito”. Pensem nisto.

  42. JoseMoreira

    Não concordo com a tendência da análise. Para mim não é mesmo correto saudades nem felicidade. Não vou explicar o porque, pois iria só gastar tempo. Continuarei a cantar ” muita felicidade, muitos anos de vida”.

  43. JoseMoreira

    iva lopes – 09/09/2014 às 8:41
    Adorei esse site,(trocar por ponto) encontrei por acaso no google e já adicionei como favorito. (inserir espaço)Aprender sempre é meu lema .(tirar o espaço) Qual foi o erro em meu comentário (acrescentar vírgula)por favor ?

  44. Walter Faria

    Gostaria de saber se escrevo” que saudades ou que saudade de voces”? isso é um slogan para uma camiseta.

  45. Danilo

    “Mas eu me mordo de ciúmes (8)”

  46. JAIR SANTANA

    Qual seria o correto dizer: “fulano não corre risco de morte” ou “fulano não corre risco de vida”?
    Nenhum dos dois está errado, Jair. “Risco de vida” é preferível. Tratei disso aqui: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/risco-de-vida-ou-risco-de-morte/

  47. Hugo Gattoni

    Um dos melhores artigos que encontrei na Rede. Claro, objetivo e muito bem fundamentado. Parabéns (no plural!).

  48. Geraldo Fraga

    Muito bom!

  49. josé regis paz delira

    Bem, não tenho tanto domínio sobre a língua portuguesa, ao ponto de concordar ou discordar de outrens, à respeito da palavra “saudade, com ou sem plural” Na minha concepção, desde que aprendi à ler e escrever, que só uso a palavra “saudade”, no singular, pois no plural, me soa falso, como se realmente seja errado. Então, continuarei até morrer, falando ou escrevendo a palavra “saudade” no “SINGULAR”.

  50. graça

    Desde sempre, aprendi que tanto a palavra saudade quanto felicidade não vão para o plural.Vou continuar escrevendo e falando estas palavras no singular.
    Certo, Graça. É como eu disse logo no início do texto: “Em primeiro lugar (…) você tem o direito de ser fiel ao singular das palavras saudade, felicidade e ciúme. Não há erro nisso. Mas saiba que também não haveria erro se você as empregasse no plural”. Um abraço.