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17/01/2013

às 13:18 \ Consultório

Dúvida de verão: existe a palavra ‘refrescância’?


“Caro Sérgio, estou aqui na refrescância do ar condicionado pensando: existe mesmo essa palavra, ‘refrescância’? No meu dicionário ela não aparece.” (Marjorie Lopes)

Não é curioso que Marjorie primeiro empregue com naturalidade a palavra “refrescância” e só depois pergunte se ela existe? Claro que entendemos sua dúvida: embora saiba que o substantivo tem assento consolidado em nosso vocabulário e se presta, portanto, à boa comunicação de uma mensagem, ela gostaria de saber se ele tem existência oficial, se é reconhecido pelos dicionaristas. Ou seja, se pode ser considerado “bom português” ou se não passa de uma gíria vira-lata.

A resposta está no meio do caminho. Refrescância é um neologismo brasileiro criado recentemente por publicitários – tudo indica que nos últimos anos do século 20, embora não me conste existir uma certidão de nascimento oficial – para vender pasta de dente. Ainda hoje é uma palavra que tem gosto especial pelo campo semântico da publicidade de produtos de higiene corporal, desodorantes incluídos. No entanto, caiu no gosto dos falantes e vem sendo empregada na linguagem comum em diversas situações.

A lógica da criação da palavra é evidente: numa analogia com pares de vocábulos como beligerante/beligerância, adolescente/adolescência e outros, de refrescante se fez refrescância. Tratava-se de uma licença poética (ou publicitária) que desprezava o termo refrescamento, detentor vernacular de uma acepção idêntica ou no mínimo semelhante: “ato ou efeito de refrescar(-se)”. Outros substantivos tradicionais que poderiam dar conta de tal sentido eram frescor, frescura e os embolorados fresquidão e refrigério. Por razões variadas, nenhum deles deve ter sido considerado tão refrescante quanto refrescância.

Até poucos anos atrás, era impossível encontrar a palavra em qualquer dicionário. Não é mais assim. O primeiro a acolhê-la foi o “Dicionário de usos do português do Brasil”, de Francisco S. Borba, lançado em 2002. O verbete refrescância ganhou a definição de “sensação de frescor” e um exemplo pinçado (significativamente) num texto da “Folha de S.Paulo” sobre marketing: “Refrescância e proteção. É esse o binômio que orienta toda a comunicação da Kolynos”. Registre-se que a marca Kolynos está fora do mercado desde 1997.

Por sua proposta de flagrar os usos correntes no português brasileiro atual, o dicionário de Borba é liberal por definição. No entanto, ganhou nesse caso um aliado de grande peso institucional quando o Houaiss, numa de suas últimas atualizações, passou a registrar o vocábulo, com datação de “cerca de 2000”: “qualidade do que é refrescante; frescor, fresquidão”. O Aulete também já reconhece a palavra. A assimilação completa de refrescância não está distante.

*

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6 Comentários

  1. Heraldo Figueiredo

    -

    20/03/2013 às 4:31

    Se vc desejar um bom dia a alguém à meia noite, está desejando que “todo o dia” seja bom e não somente o restante da noite. (Será que estou certo?)

  2. Jucilene

    -

    27/01/2013 às 23:36

    Caríssimo,
    é com muito gosto que, não tanto quanto gostaria, leio suas explicações e, boquiaberta, me surpreendo com a precisão com que data o momento em que uma palavra foi aceita pelos dicionaristas.
    Seria demais perguntar onde posso obter tal informação ou ela só é acessível a estudiosos e entendidos da língua como você?

    Agradeço muito a atenção.

    Jucilene

  3. sergiorodrigues

    -

    22/01/2013 às 19:21

    Obrigado, colega António. Deixei uma mensagem lá em seu blog. Grande abraço.

  4. António Pereira

    -

    19/01/2013 às 11:56

    Bom dia, Sérgio.
    Nas malhas que a pesquisa tece, cruzei-me hoje com o seu blogue. Felicito-o pelo excelente trabalho.
    Abraço desde Lisboa.
    António Pereira
    Blogues em que trabalho a tempo inteiro na promoção da língua portuguesa:
    http://acordo-ortografico.blogspot.com
    http://portuguesemforma.blogspot.com

  5. Gilberto Gaia

    -

    17/01/2013 às 17:20

    Ops, faltou dizer que, sim, antes a Kolynos, e talvez outras marcas de creme dental, usavam a palavra frescor…

  6. Gilberto Gaia

    -

    17/01/2013 às 17:17

    Então… antes era frescor, nunca refrescância (horrível!) como antes também era adjacências, ou arredores, ou arrabaldes, ou circunvizinhanças, jamais entorno (horrível!em torno é outra coisa, e o tempo do verbo é lido entórno, no sentido de virar, entornar, um copo com líquido); antes era parcial, ou se falava em mudanças de pontos ou itens de um determinado assunto, nunca pontual (horrível!que significa aquele que tem por hábito chegar no horário combinado); antes era colocar à disposição (palavra derivada do verbo dispor) e nunca disponibilizar (horrível! de um substantivo derivado de um verbo deram origem a outro verbo). Paro por aqui, mas a lista é longa!Evidente que a língua é dinâmica, sujeita a variações e mudanças, mas a falta de critérios mínimos para construção de palavras, principalmente partindo de quem tem obrigação de se expressar melhor, feito os publicitários, nos quais me incluo, é vergonhosa, gerando verdadeiros Frankensteins vernaculares…

 

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