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08/11/2012

às 14:06 \ Consultório

Bem-vindo (ou bem vindo?) ao mundo kafkiano do hífen


“Caro Sérgio, gostaria de uma explicação sobre o hífen de bem-vindo após o novo acordo ortográfico. Toda vez que escrevo bem-vindo, alguém dá um jeitinho de fazer um comentário escrevendo ‘bem vindo’, como quem não quer me corrigir, mas já corrigindo. Como eu acho que não houve bom senso dos especialistas quanto ao uso do hífen, não encontro uma explicação clara e sucinta para o tema.” (Juliana de Vargas e Lucas)

Cara Juliana, você não encontra uma explicação clara e sucinta para o tema porque ela não existe. Tudo só pode ser obscuro e prolixo numa matéria regida por um ridículo emaranhado de cláusulas, cada uma com suas subcláusulas, cada subcláusula com suas exceções, cada exceção comportando uma boa dose de arbitrariedade.

No caso específico que você apresenta, nada mudou: ainda escrevemos bem-vindo, todos os que a corrigem estão simplesmente equivocados. Essa sanha corretora poderia ser só mais um exemplo de sabichonice, um mal infelizmente comum no mundo das palavras, se não fosse desculpável no caso do hífen. Este parece ter sido cuidadosamente projetado para provocar confusão.

Segundo o acordo, as palavras compostas com os advérbios bem e mal só levam hífen se o segundo termo for iniciado por h ou vogal. Eis por que bem-feito virou benfeito. Certo, mas por que bem-vindo não virou benvindo? Ah, porque, nesse caso, “mantém-se a noção de composição”. Entendeu? É claro que não. Não há diferença objetiva entre os dois casos, a arbitrariedade do critério é gritante.

O fato é que o uso do hífen em português, que já era puro Kafka, ganhou mais uma volta do parafuso. As mudanças recentes são perversas por dois motivos. O primeiro é a oportunidade que perdemos de limpar um terreno hostil a quem quer escrever com correção, mas não tem tempo ocioso nem motivação para trazer na ponta da língua a lista de afluentes do Amazonas com suas respectivas extensões, volumes de água e cidades ribeirinhas. O segundo é que o acordo faz letra morta da principal arma que, no cipoal de regrinhas minadas aqui e ali pela incoerência, tinham os falantes para não cometer erros de ortografia: a memória visual. Esta ficou obsoleta e precisará ser reconstruída pouco a pouco. Até que a próxima reforma ortográfica a revogue também.

Como confiar na memória agora que tanta coisa é o oposto do que era – mas nem tudo, aí é que está? Por que o hífen de paraquedas caiu e o de para-lama, não? Lá vem aquele curinga maroto outra vez: ah, porque aquela palavra, ao contrário desta, já perdeu a “noção de composição”. Sei…

Por que a água-benta ganhou um hífen, tornando-se palavra composta, mas a água mineral permaneceu uma locução? Em ambos os casos, trata-se de um substantivo comum seguido de adjetivo, sem que o par forme um sentido diferente da soma das partes: água-benta é água benzida, seu hífen é um sacrilégio. (Ou será que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa manda usar hífen apenas para a acepção regionalista de cachaça – outra decisão idiota, por supor a incapacidade do leitor para a compreensão de uma ironia primária, mas esta já vigente antes do acordo? Isso o Volp, que não traz definições, não diz. Os dicionários continuam seguindo por aí, mas não é sempre que concordam com as interpretações da Academia. Estamos em águas turvas.)

Poderíamos ir longe nesse caminho, mas não vale a pena. A quem estiver disposto a decorar pelo menos em parte a lista de afluentes do Amazonas, indico este resumo das novas regras do hífen. Meu conselho a quem não for professor ou estudante de português – nem estiver disposto a pagar o preço da desobediência civil, postura bastante defensável neste caso – é passar os olhos por elas, mas sem perder muito tempo. E a cada dúvida, aí sim, consultar um dicionário atualizado ou o Vocabulário Ortográfico no site da Academia Brasileira de Letras.

Daqui a dez ou quinze anos, com um pouco de sorte, teremos tudo na memória outra vez.

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26 Comentários

  1. Paulo

    -

    25/10/2014 às 20:30

    Quando pesquiso “para-lamas” no site http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23 diz que não existe. Se pesquiso “para-lama” diz que existe e que o plural é “para-lamas”. Que lixo de língua temos e que porcaria de site de suporte também temos!

  2. manuela chaves

    -

    29/09/2014 às 20:52

    em um cartaz o certo é? sejam bem vindos, seja bem vindo ou seja bem-vindo

  3. maria das graças garcêz

    -

    27/04/2014 às 9:26

    Sou professora há mais de vinte anos e sempre vejo benvindo ainda assim escrevo bem – vindo.Como explicar para meus alunos?

  4. Sergio

    -

    23/11/2013 às 18:46

    Sérgio, Rafael e Walfredo, Bravos! Perdoem os demais, a falta de tempo me obriga a ler de relance. Me foi dito que a reforma foi feita com a intenção única de tornar certo o que nunca era acertado nas provas dos alunos das “escolas” públicas. Alguém tem informação similar? Sérgio, seu texto é muito bem colocado. Rafael, a evidenciação do descalabro de termos José Sarney na academia valeu a leitura, apenas complemento que são raros os que merecem a cadeira que lá ocupam. Walfredo, seria fantástico podermos escrever como escreveu, faz sentido, e estamos carentes de sentido neste mundo. Agora, caso tenha se referido a “regras luzitanas” de forma não prejorativa, me permita uma discordância breve e limitada à realidade temporal do que nos aflige no momento: Sinto falta do trema e da elegância de como eram as regras antes da reforma, ainda que fossem importadas da terrinha. De tudo, o mais lamentável é termos que usar forçosamente regras definidas por “mortais” irresponsáveis e promulgadas por um ladrão comunista e semianalfabeto.

  5. Walfredo

    -

    30/08/2013 às 18:48

    Axo ke o brazileiro deve acordar e pasar a escrever seu proprio idioma, sem ifem, acentos e tantas outras regras luzitanas.

  6. Claudia

    -

    25/07/2013 às 10:35

    Valeu Sérgio! Obrigada pela ajuda! Até quando critica voce esclarece! K.

  7. Carlito Silva

    -

    22/07/2013 às 23:29

    Qual o Ifen-diota qeu inventou palavras com hífen?

  8. Juvenal

    -

    29/06/2013 às 11:35

    Apenas mais uma marca lamentável deixada por este (des)governo composto em sua grande maioria por pessoas também lamentáveis.
    Mas domingo tem futebol, então tudo bem… “BEM AMIGOS DA…”. Pão e circo. Só. Só não, tem muita incompetência dando o tempero…

  9. Gil Teixeira

    -

    21/05/2013 às 8:03

    Verdade, e mentira, seja, ou sejam?, ditas os mexilhões das palavras só serve, ou servem?, para lixarem a cabeça ao mexilhão (lindo!)

    Gil Teixeira

  10. Ana

    -

    26/04/2013 às 11:23

    Infelizmente, nós estudantes não podemos ignorar e deixar pra lá! Os concursos vão aproveitar estas brechas e exceções para nos enlouquecer. Uma pena e uma vergonha, ô vontade de ter sido colonizada pelos ingleses…

  11. José Milton de Farias

    -

    28/03/2013 às 20:30

    Explicação no mínimo magistral e exclarecedoras em todos os aspectos.
    Muitíssimo obrigado pela ajuda clara e objetiva…uma grande aula de português. Abraço fraterno e excepcional Páscoa a ti e família.

  12. www.farejadorfinanceiro.com

    -

    08/03/2013 às 14:27

    Foi feito um acordo ortográfico e em todo acordo a regra é que todos saem insatisfeitos.

  13. Victória Ximenes

    -

    15/02/2013 às 16:30

    Tirou minha dúvida, muito obrigado!

  14. Rafael

    -

    09/11/2012 às 13:09

    Sérgio,
    Parece que temos que atualizar aquela frase do Millôr, como é mesmo?, ah, lembrei: “o hífen não foi feito para humilhar ninguém”.
    Se antes o vilão da língua portuguesa era (que injustiça!) a crase, tudo indica que o hífen, graças à nova ortografia, usurpou o posto.
    Infelizmente, os piores prognósticos daqueles que se opunham ao acordo estão se materializando: a suposta unificação é uma piada, as contradições e arbitrariedades não param de vir à tona e aquele sentimento de ter sido engambelado por um belo conto-do-vigário (escreve-se ainda com hífen?) está revolvendo no estômago.
    Ao patrocinar essa insanidade, a Academia Brasileira de Letras conseguiu realizar a proeza de enodoar sua reputação com uma mancha mais infamante do que aquela que lhe tisnara o nome com a admissão de S. Ex.ª José Sarney.
    Uma glória, sem dúvida, a glória que fica, degrada, desonra e faz deplorar.
    Vale!

  15. Alan

    -

    08/11/2012 às 18:30

    É isso aí Sergio. Ir absorvendo por osmose, incorporando paulatinamente à medida que cada dúvida surgir. Bela crítica, valeu.

  16. Joe Silva

    -

    08/11/2012 às 17:46

    Excelente artigo.
    Realmente, a memória visual, advinda da leitura constante, é crucial para se escrever bem. Essas alterações autoritárias apenas penalizam os que mais estudam !

  17. Sylvio Haas

    -

    08/11/2012 às 17:33

    O hífen deveria ser sumariamente eliminado, assim acabaria esse festival de regras e exceções. Bem vindo, beija flor, porta bandeira, super homem, guarda chuva, guarda volumes, guarda florestal; grão de café, gafanhoto de marmeleiro, garça branca grande, garganta de ferro, e por aí vai.

  18. Alfredo

    -

    08/11/2012 às 17:26

    Sérgio, bem-feito como adjetivo, no sentido de feito com esmero, pelo Houaiss, continua com hífen, certo?
    Sim, Alfredo, embora o Volp não registre a grafia bem-feito (imagino que pregue “bem feito” quando se trata de qualificar um substantivo). Curiosamente, esse substantivo do Volp nem sequer existia no Houaiss, com grafia alguma, antes do acordo – hoje lá está o “benfeito”. Para se ver como, nesse momento de transição, nem os lexicógrafos se entendem, imagine o falante comum. Um abraço.

  19. Mauricio

    -

    08/11/2012 às 17:22

    Sérgio, abordei com meus alunos a questão da grafia de “compostos” iniciados por “bem-” e “mal-”, mas, em vez de simplesmente passar a eles a “regra” de hifenização, procurei debater a arbitrariedade de algumas formas, até mesmo para que eles não fiquem se culpando por não se lembrarem de alguma regra.
    O que mais me encuca nessa história do “bem-” e do “mal-” é o fato de “mal-entendido”, por exemplo, ser considerada palavra composta e não prefixada, mas a “lógica” da utilização do hífen é a mesma da utilizada para palavras prefixadas.

  20. thiago

    -

    08/11/2012 às 17:12

    No Aulete e no Houaiss a distinção entre água-benta (a do bar) e água benta (a da igreja) é bem clara. Que bizarro. Essa eu morreria sem saber.

  21. José Maria e Silva

    -

    08/11/2012 às 16:43

    Caro Sérgio, excelente a sua crítica sobre o hífen na nova ortografia. Também achei extremamente arbitrário esse capítulo da reforma ortográfica.

  22. Rose

    -

    08/11/2012 às 16:05

    Tenho tido dificuldade em “engolir” esse nova ortografia esdrúxula! Não acho que tudo deveria “cair” (para acompanhar o inglês? os teclados?) De quando em quando eu me rebelo e não adoto a nova! Afinal, se os demais países envolvidos no acordo não o adotaram, por que eu haveria de fazê-lo?

    Tenho uma dúvida que deixo também como sugestão para a análise Kafkaniana! pró-ativo e proativo. Era pró-ativo. Surgiu o proativo (por causa do inglês?) e, com a nova ortografia, claramente a primeira mantém-se correta.
    Agradeço se, da mesma forma houver esclarecimentos!
    Rose, na velha ordem ortográfica escrevia-se proativo, segundo o Houaiss. O que era mesmo um tanto anômalo, se considerarmos o exemplo de pró-americano, mas provavelmente uma influência do idioma do qual importamos a palavra muito recentemente. Agora o Volp informa que é pró-ativo, enquanto o Houaiss, em cima do muro, registra as duas formas. Um abraço.

  23. Richard de Andrade

    -

    08/11/2012 às 15:08

    eu não entendo como um país quer aumentar sua participação no mundo e dificulta não resolve esses problemas. e olhe que esse lance do hífen é só mais um dentre inúmeros que tornam o apredizado da língua uma tortura para estrangeiros. e para piorar, o governo ainda ficar estimulando o povo a aprender espanhol quando inglês é mais importante. é tudo contradição.

  24. Juliana Vargas

    -

    08/11/2012 às 14:50

    Muito obrigada pela atenção, Sergio. Fiquei muito feliz.

  25. Richard de Andrade

    -

    08/11/2012 às 14:49

    eu, nos textos do cotidiano, já nem ligo mais p

  26. Darazoom

    -

    08/11/2012 às 14:42

    Muito apropriada sua explanação, especialmente a recomendação final que, afinal, é só o que podemos fazer diante dessa barbaridade.
    É nisso que dá quando se junta um bando de desocupados para fazer mal (malfeito?) o que não precisava fazer, a tal de reforma ortográfica.
    A propósito: tenho o VOLP, mas é a edição de 2009; sinto calafrios quando penso que logo eles irão reformar a reforma…

 

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