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23/05/2013

às 16:00 \ Consultório

Devemos falar ‘lindo de viver’ em vez de ‘lindo de morrer’?

“Querido Sérgio, o que está havendo com a velha expressão ‘lindo de morrer’? Hoje é um tal de ‘lindo de viver’ pra cá, ‘linda de viver’ pra lá… Balançando entre a vida e a morte como todos os seres deste plano terreno, eu confesso que fico um pouquinho confusa! Outro dia falei que alguém era ‘lindo de morrer’ e me olharam feio, como se eu tivesse dito um palavrão. De onde veio essa mudança na nossa língua? Será que ela faz algum sentido?” (Maria Aparecida Simões)

Aqui do meu canto, só posso enviar a Maria Aparecida uma mensagem de solidariedade e lhe pedir que resista, resista bravamente. Fique à vontade usando a expressão que herdou de seus antepassados, “lindo de morrer”. Não faz sentido nenhum, por maior que seja a pressão social, ceder a um modismo vocabular tolinho como esse do “lindo de viver”. Força! O espírito da língua está ao seu lado.

Em primeiro lugar, convém esclarecer que, ao afirmar que algo ou alguém é “lindo de morrer”, queremos dizer que é tão bonito que se poderia morrer por ele. Claro que ninguém espera o cumprimento da ameaça ao pé da letra. O nome disso é hipérbole, o mesmo exagero encontrado, por exemplo, numa expressão como “morrer de rir” ou “morrer de susto”. Felizmente, não consta que haja uma campanha a favor de “viver de rir” e “viver de susto”. Na era dos modismos politicamente corretos, talvez seja questão de tempo.

Como achado poético não há nada errado em “lindo de viver”. Na canção “Copacabana boy”, Rita Lee diz: “O Rio continua lindo, lindo/ lindo de morrer/ lindo de viver”. O que tem sua graça. De todo modo, a cantora não pode ser acusada de inventar moda. Um passeio pelo Google deixa claro que a grande responsável pelo sucesso de “lindo de viver” foi Hebe Camargo (foto). A apresentadora de TV, que morreu ano passado, pode não ter criado a expressão, mas a transformou em marca registrada. “Quem morre não vê a lindeza que existe”, chegou a explicar sua preferência.

Até aí, com boa vontade, entende-se. Comunicadores gostam de lançar mão de bordões. O problema começa no momento em que se toma essa bijuteria vocabular como uma expressão mais “correta” e se passa, então, a corrigir quem usa a fórmula consagrada. Já se vê que a lógica por trás de “lindo de viver” é a do eufemismo, ou seja, a determinação de não mencionar a morte. O preço pago em expressividade, porém, é alto demais. A expressão espalhada por Hebe deixa a hipérbole totalmente sem sentido: viver não é atitude extrema, pelo contrário, é o normal, o esperado, o desejável.

No fundo, trata-se de uma grande bobagem. Quem gosta dela tem o direito de empregá-la, com base no princípio sagrado de que o uso que cada um faz da sua língua é pessoal – mas deve saber que, assim como julga os outros, também será julgado por isso.

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Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

21/05/2013

às 16:00 \ Curiosidades etimológicas

Que dia é hoje? E por quê?

É curiosa a história do batismo dos dias úteis em português. Por que hoje é terça-feira, ontem foi segunda-feira e amanhã será quarta-feira, como se não fizéssemos nada além de frequentar feiras de segunda a sexta? Será que antes da segunda-feira houve uma primeira feira, realizada no domingo? São dúvidas ingênuas, claro, do tipo que uma criança poderia formular, mas isso não quer dizer que a explicação seja evidente.

Em quase todas as línguas românicas, os dias úteis conservaram a herança latina da referência a corpos celestes – que se confundiam com deuses pagãos. No caso do dia de hoje, o homenageado é Marte: terça-feira é martes em espanhol, mardi em francês, martedi em italiano.

De onde veio, então, a nossa feia, burocrática terça-feira? Do latim eclesiástico feria tertia, ou seja, “terceiro dia”, por obra da impressionante fidelidade de Portugal aos ditames de Roma.

Conta o filólogo Silveira Bueno, recuando até os tempos do Papa Silvestre II (950-1003): “Mandou o papa que as nações cristãs abandonassem os nomes pagãos dos dias da semana e adotassem a nomenclatura da Igreja. Somente Portugal obedeceu”.

19/05/2013

às 9:00 \ Crônica

Etimologia imaginária (1): o diabo a quatro

O Diabo A-1 em 'South Park'

Dizem que Lúcifer, CEO da Hell Corporation, também conhecido nos corredores sulfurosos de sua companhia como Diabão, começou a se incomodar com a política de contratações da empresa, que todo dia punha para dentro uma multidão de novos funcionários sem que ele tivesse controle sobre tantos currículos. Eram demônios de infinitas classes, de assassinos com variados números de vítimas no currículo a meros espíritos-de-porco, de religiosos cafajestes a políticos famosos – o caos. Havia gente superqualificada em funções burocráticas e gente fraquíssima, canalhinhas de ocasião, à frente de departamentos inteiros. Por mais que isso obedecesse a um saudável critério de injustiça, era ruim para a produtividade.

– Que confusão paradisíaca! – deu para rosnar o mega-executivo do Mal.

Até que, certa manhã horrenda, ao acordar de um pesadelo com anjinhos rosados em sua suíte de magma no último andar do subsolo da Hell, Lúcifer abriu a janela e gritou um “basta!” que provocou três enchentes, sete secas e dezoito naufrágios aqui na superfície – tudo culpa do aquecimento global, disseram os meteorologistas, invocando sem saber uma das marcas de fantasia do Cão. Decidido a organizar de vez o furdunço, a primeira medida de Lúcifer foi convocar à sua sala o gerente de Recursos Desumanos, Damien.

– Quero um plano de carreira. Pra ontem.

– Não creio que um plano de carreira seja prioritário neste momento. Afinal… – disse Damien, mas não terminou. Sua cabeça começou a pegar fogo, com a previsão de apagar em quinhentos anos, e um novo gerente de Recursos Desumanos foi empossado em segundos. Era Asmodeuzinho, jovem e ambicioso.

– Quero um plano de carreira – repetiu Lúcifer. – Pra ontem.

Asmodeuzinho deu a resposta certa:

– Um plano de carreira, claro. Brilhante idéia. Ontem mesmo estará pronto.

E cumpriu a promessa. Quando chegou ontem, Asmodeuzinho entrou na sala do chefe carregando uma pilha de transparências roxas em suas patinhas manicuradas.

– Bolei um código alfa-numérico – explicou.

O resto é história. O Diabo A-1 ficou sendo, naturalmente, o próprio comandante supremo da Hell Corporation. Os níveis A-2 e A-3 foram ocupados por seus auxiliares diretos nas profundezas – além do próprio Asmodeuzinho, incluem-se nessa categoria Adolfo, o ministro das Relações Étnicas, Benitão, chefe dos bufões, e Zé Stalinho, encarregado do Departamento de Geleiras.

O nível seguinte na hierarquia, A-4, foi reservado aos mais graduados funcionários da Hell na superfície da Terra. Gente viva, ou melhor, muito viva. Vem daí a popular mas incompreendida expressão, que por ignorância é grafada como “diabo a quatro” e usada para qualificar situações que nem de longe têm a participação de um verdadeiro Diabo A-4.

18/05/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

O escrete de Felipão e a anglofilia brasileira

Felipão: equipe "reunida às pressas"? (Sergio Moraes/Reuters)

E Felipão convocou o escrete para a Copa das Confederações! Não sei até que ponto a palavra escrete, forma aportuguesada do inglês scratch e sinônimo de seleção, soa natural aos ouvidos das novas gerações. Em minha infância era um termo comum, propagado por radialistas e adotado em conversas de torcedores pelo país afora. O Google me informa que ainda é bastante empregado por aí, embora seu sabor de época seja inegável.

Trata-se de um dos muitos anglicismos que moldaram o vocabulário do futebol brasileiro. Alguns foram inteiramente abandonados, como quíper (goleiro). Outros caminham para a obsolescência, como beque (zagueiro) e córner (escanteio). Mas há também os que ainda gozam de ótima saúde, como craque. Todos, como escrete, são formas aportuguesadas de palavras inglesas.

O caso de escrete apresenta uma curiosidade ocasional. Scratch, como se sabe, quer dizer sobretudo “arranhão, risco”. Dicionários de inglês registram, além dessa, muitas outras acepções para o substantivo, inclusive em contexto esportivo, mas à primeira vista nada trazem que se encaixe bem ao nosso sentido de seleção. “Linha de largada numa corrida” não parece ser o caso.

No entanto, é exatamente a essa acepção que o Houaiss recorre para explicar nosso vocábulo, dizendo: “‘linha ou marca desenhada para servir de ponto de partida; linha de partida’, no sentido de que todos os competidores partem da mesma linha, do mesmo ponto, sem handicap”.

A explicação é claramente insatisfatória. Linha riscada no chão para servir de ponto de partida não tem nada a ver com futebol. Handicap, ainda menos. Volto aos dicionários de inglês e, revirando o Webster’s, encontro uma acepção meio obscura que enfim mata a charada: scratch team (com scratch no papel de adjetivo, não de substantivo) quer dizer equipe “reunida às pressas, sem muito critério”.

Sim, deu-se a transformação de um adjetivo em substantivo, mas isso é comum em nossa língua no caso de palavras vindas do inglês – o mesmo ocorreu com shopping (center) e outdoor (advertising), por exemplo. O sentido também foi alterado de negativo (“equipe reunida de qualquer maneira”) para positivo (“equipe reunida para determinada ocasião, mas, ao menos em tese, criteriosamente”). Uma das especialidades da anglofilia brasileira – sincera, mas um tanto desajeitada – é produzir leituras originais desse tipo.

16/05/2013

às 11:15 \ Consultório

O que a gravidez tem a ver com a gravidade

Grávida, mas leve: Leila Diniz em 1971 (foto de Joel Maia)


“Olá, Sérgio! Sempre quis saber se os vocábulos ‘gravidez’, ‘grave’ e ‘gravidade’ possuem um parentesco etimológico. Na prática, desejada ou não, a gravidez é um dos momentos mais graves da vida de uma mulher. Esse estado também exige que ela se readapte à força da gravidade, senão cai e a situação fica mais grave!” (Sabine Richter)

Brincando, brincando, Sabine acabou por dar conta dos principais descendentes – sim, todas essas palavras são primas – do adjetivo latino gravis, que significava em primeiro lugar “pesado, carregado”.

Aquele gravis acabou por adquirir no próprio latim, figuradamente, sentidos um pouco distintos, mas todos ligados à ideia de peso, que nosso adjetivo grave conserva até hoje. Uma pessoa grave é séria, circunspecta, vergada ao peso de suas preocupações. Uma situação grave é pesada, dura, carregada de possibilidades funestas que demandam a maior seriedade.

De gravis tirou-se, ainda no latim, o substantivo gravitas, gravitatatis, que vinha a ser antes de mais nada o próprio peso. Como acepções secundárias, a palavra tinha, além de todas as que se ligavam aos sentidos expostos no parágrafo anterior, a de “gravidez, prenhez”, na definição do dicionário Saraiva. Gravidus queria dizer prenhe. Gravidare era emprenhar.

Como se chegou a isso? Não tanto porque se considerasse a gravidez uma situação grave no sentido de preocupante, mas pela própria ideia original de gravis – creio que o peso da barriga de uma mulher grávida fale por si. Curiosamente, gravidez é uma palavra relativamente recente em português, datada de meados do século XIX e formada em nossa língua mesmo, pela junção do adjetivo grávido ao sufixo -ez, para tomar (sobretudo quando se fala de seres humanos) o lugar do velho substantivo “prenhez”.

Das palavras citadas por Sabine, gravidade na acepção de “atração que a Terra exerce sobre um corpo material colocado sobre sua superfície, em seu interior ou em sua vizinhança” (Houaiss) é a única ausência no repertório dos nossos tataravós romanos. Também motivado pela ideia de peso que deu origem a tudo isso, tal sentido teria que esperar até o século XVII para nascer – cerca de trezentos anos após a chegada da palavra gravidade ao português.

14/05/2013

às 11:16 \ Curiosidades etimológicas

A avacalhação, como o leite, vem da vaca

O verbo avacalhar, de onde saíram o adjetivo avacalhado e o substantivo avacalhação, aparece no Houaiss com três acepções básicas: desmoralizar; espinafrar (repreender duramente); e fazer com desleixo. Em todas elas, trata-se de ações muito presentes no dia a dia da vida brasileira.

Talvez por isso nossos dicionaristas afirmem com segurança tratar-se de um brasileirismo. Não parece ser o caso.

Primeiro vamos à origem da palavra, sobre a qual não há discordância: avacalhar é um termo formado – consta que em meados do século XX – a partir do substantivo vaca. Significa algo parecido com “tratar como se trata uma vaca” ou “tornar(-se) semelhante a uma vaca”.

Sobre o caminho que levou a fêmea do boi a ir parar nesse papel pejorativo os etimologistas guardam silêncio. No entanto, uma boa pista pode ser encontrada no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

Uma das acepções de vaca registrada por ele é “mulher muito gorda” – vizinha na constelação das palavras machistas, embora distinta, do sentido de “devassa, vagabunda” que vaca tem no português brasileiro.

Quando se junta essa “mulher muito gorda” à acepção de avacalhar como “deixar ou ficar descuidado, desleixado”, que o dicionário português registra e que também vale para o lado de cá do Atlântico, desenha-se um percurso coerente para o verbo.

Ele sugere que avacalhar pode ter nascido com um sentido semelhante ao nosso ainda não dicionarizado (e este sim brasileiríssimo) embarangar, isto é, “largar-se, descuidar da própria aparência”.

12/05/2013

às 9:00 \ Crônica

Tiquetaque, auau: viva a onomatopeia!

Onomatopeia é um nome feio: a alguns ouvidos, chega a sugerir vagamente uma erupção cutânea ou coisa parecida. Não é nada disso, como se sabe. Na verdade, trata-se de um fenômeno linguístico dos mais simpáticos, risonhos, democráticos: a formação de palavras pela imitação dos sons naturais. Exemplos de onomatopeia são as palavras tiquetaque, chuá, clique, atchim, pum, reco-reco.

São criaturas lúdicas, as onomatopeias. Com seus pés plantados na oralidade, dimensão mais primitiva de qualquer idioma, estão sempre a nos lembrar que uma língua não é só esse instrumento altamente sofisticado e abstrato sem o qual os adultos sérios não conseguiriam se relacionar direito com as coisas e suas representações.

Diante das onomatopeias, somos lembrados de que ainda vive em nós – e viverá para sempre – aquele bebê que, aprendendo a falar, chama cachorro de auau. (A própria palavra bebê, aliás, tem origem provável numa onomatopeia, como imitação – inicialmente francesa, bébé – da fala infantil.)

Nem sempre é fácil reconhecer uma onomatopeia à primeira vista. Algumas passam por um processo conhecido como gramaticalização, incorporando-se à corrente principal da língua de tal forma que dão origem a novas palavras e se integram à paisagem. Se o verbo tiquetaquear é evidentemente derivado de tiquetaque (também grafado como tique-taque e tic-tac), barulhinho feito pelos relógios pré-digitais, bem mais complicado é distinguir em chiar, por exemplo, o próprio shhh da chiadeira que a maioria dos etimologistas ouve nele.

Eis a grande beleza das onomatopeias: mesmo quando lidas, são ouvidas. Ainda que não se saiba de antemão o que querem dizer, adivinha-se. A arbitrariedade que mora no coração da maioria dos signos linguísticos (o que há de árvore na palavra “árvore” é rigorosamente nada) não se cria com elas.

Primitivas, moleques, subversivas, as onomatopeias comungam do princípio fundador da linguagem e são mais fortes do que parecem. Nossos dicionários se omitem sobre a possibilidade de um vocábulo como “ronco”, por exemplo, pertencer à família. Mas pertence? Bom, ronco tem linhagem nobre: descende do latim rhonchus, que por sua vez é filho do grego rhogkhós. Tudo certo, mas esse rhogkhós aí vem de quê? Cada um que julgue sua semelhança sonora com aquilo que nomeia.

11/05/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Inflação: o sinistro retorno dos preços inchados

"Subindo!" (Matthew Dixon/Getty Images/iStockphoto)

“Apatia do governo extingue chances de controle da inflação no curto prazo”, anunciava na quarta-feira o título da reportagem assinada por Adriano Lira aqui em Veja.com. Sinal claro de que, infelizmente, eu tinha encontrado não só a Palavra da Semana como uma forte candidata, dentro de mais alguns meses, a Palavra do Ano. A inflação – flagelo econômico que meu filho de 16 anos teve a felicidade de, até hoje, praticamente ignorar – está de volta ao centro das preocupações nacionais.

Quando se fala da origem da palavra inflação, é preciso mencionar duas etapas separadas por muitos séculos: na primeira nasceu o próprio vocábulo, vindo do latim; na segunda, por influência americana, nasceu a acepção econômica que hoje é dominante na linguagem comum.

A palavra foi registrada pela primeira vez em português em 1563, tendo como matriz o latim inflationis (“inchaço, edema, distensão gasosa”). Esse sentido médico foi o único que teve por muito tempo. No século XVIII, por metáfora, o substantivo inflação passou a ser empregado também como sinônimo de vaidade, presunção, falta de modéstia. Vem de longe a imagem do vaidoso como um indivíduo inchado.

No entanto, foi só no século XX – mais precisamente em 1926, segundo a datação do Houaiss – que pela primeira vez se registrou entre nós a acepção, destinada a se tornar sombriamente familiar para gerações de brasileiros, de “desequilíbrio que se caracteriza por uma alta substancial e continuada no nível geral dos preços, concomitante com a queda do poder aquisitivo do dinheiro, e que é causado pelo crescimento da circulação monetária em desproporção com o volume de bens disponíveis”.

Tudo indica que tal acepção tenha nascido – também por metáfora, como no caso da vaidade – no inglês americano, idioma em que há registro dela já em 1838, segundo o dicionário etimológico de Douglas Harper. Em francês essa expansão semântica só chegaria em 1919.

Por trás da ideia de inchamento ou expansão gasosa, tanto de partes do corpo quanto de preços, percebe-se o verbo latino flare (soprar). Sua carga genética – bem como a de seus filhos inflare, sufflare, insufflare – pode ser vislumbrada num grande número de palavras do português, da flauta à flatulência, de soprar a insuflar. E, claro, também no verbo inflar, forma culta da qual inchar é a variante vulgar.

Uma curiosidade adicional é que, embora o sentido econômico de inflação tenha demorado séculos para surgir, como se viu acima, seu antepassado mais remoto já tinha uma acepção secundária estranhamente próxima dele, numa espécie de sinistro prenúncio. Flare, “soprar”, também podia ser usado com o sentido de “fundir metal (para cunhar moeda)”.

09/05/2013

às 15:58 \ Consultório

As palavras democracia e demônio têm algo em comum?

“Olá, Sérgio. Tenho uma dúvida que, desde bem novo, nunca tirei. O radical grego ‘demo’, de democracia, tem alguma coisa a ver com o de ‘demônio’? Também reparei recentemente na palavra ‘demonstrar’, que pelo sentido que a gente usa não tem nada a ver com povo, mas, vi que, em alemão, ‘demonstrieren’ significa reclamar ou protestar. Será que é o mesmo ‘demo’ também? Obrigado.” (Paulo Hora)

As semelhanças que Paulo aponta entre as palavras democracia, demônio e demonstrar existem apenas na superfície. São casuais, meras coincidências, sem nenhuma sustentação etimológica. Vamos dar uma olhada na origem de cada um desses vocábulos.

Democracia, como pouca gente ignora, é um termo nascido no grego demokratía pela junção de demos (“povo”) e kratía (“força, poder”). Antes de desembarcar no português fez uma escala no latim tardio democratia e, provavelmente, também no francês démocratie, palavra existente desde o século XIV (o primeiro registro da nossa data de 1671).

A raiz das palavras demo e demônio, dois dos muitos nomes do diabo, também deve ser buscada na Grécia, mas o termo em questão aqui não é demos e sim daimon (“divindade, gênio”). Seu sentido entre os gregos antigos, bem diferente do atual, era o de espírito que atuava como mensageiro entre deuses e homens. A acepção de “espírito do mal, diabo” colou-se à palavra latina daemon na era cristã.

Já no verbo demonstrar, que o português foi buscar no latim demonstrare (“fazer ver, dar a conhecer, indicar, comprovar”), o caráter fortuito da semelhança com os termos democracia e demônio fica evidente quando se sabe que foi formado pela junção da preposição de com o verbo monstrare, de onde tiramos nosso “mostrar”, que aliás é seu sinônimo. O prefixo neste caso apenas reforça o sentido original, indicando o ato de mostrar de forma cabal, decisiva.

Quanto à acepção política de “protestar publicamente” que Paulo encontrou no alemão, e que também está presente no inglês demonstrate, trata-se de uma extensão de sentido tardia (ocorrida em inglês em meados do século XIX) baseada na ideia de “fazer ver, dar a conhecer” ao público o apoio que tem uma ideia: demonstration, nesse caso, é aquilo que por um processo de evolução semântica praticamente idêntico nós chamamos de manifestação. O fato de ser necessária alguma participação do povo (demo) para haver uma verdadeira demonstration não passa de coincidência.

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07/05/2013

às 13:52 \ Curiosidades etimológicas

Troço? Que troço é esse?

Troço é uma palavra brasileira informal que – como negócio, coisa e, no mineirês, trem – pode ser empregada em lugar de uma infinidade de coisas, sejam elas concretas ou abstratas. Dá-se a vocábulos de sentido tão abrangente e difuso o nome de palavras-ônibus.

O curioso é que o popular troço (pronuncia-se tróço) surgiu como variante de troço (trôço), uma palavra portuguesa antiga e respeitável, prima do espanhol trozo, de onde tiramos o verbo destroçar e o substantivo destroço – que nada têm de informal e podem frequentar os discursos mais elegantes sem contraindicações.

Esse troço (trôço), de sentidos variados, caiu em desuso na acepção militar de “cada uma das divisões de uma tropa”, que o espanhol trozo conserva, mas permanece vivo como nome de certa peça de canhão. Também pode ser encontrado em Portugal para designar “trecho de caminho”, entre outras acepções.

Já se vê que a ideia comum por trás de tudo isso é a de pedaço, trecho, fragmento de um todo. O filólogo catalão Joan Corominas diz em seu Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana que a matriz de trozo e troço é o catalão tròs, “pedaço”, ligado ao francês antigo trous, “fragmento de lança ou tronco”. Todas essas palavras são descendentes do substantivo latino thyrsus (“haste, talo das plantas”).

 

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