Blogs e Colunistas

09/02/2012

às 13:17 \ Consultório

Chamar liquidação de ‘sale’ é coisa de bocó

Prezado Sérgio, vejo a palavra SALE nas vitrines das lojas e me pergunto: não seria melhor usar LIQUIDAÇÃO? Me parece uma tentativa desnecessária de sofisticação. Qual sua opinião? (François Coblentz)

Na minha opinião, François, isso é basicamente coisa de gente bocó. Talvez se pudesse chamar também de bovarismo, aquela condição – nomeada em homenagem à personagem Madame Bovary, do escritor francês Gustave Flaubert – de quem imagina para si circunstâncias de vida que não possui e passa a agir como se as possuísse.

Se digo que nossa anglofilia cotidiana – presente ainda no adolescente chamado de teen, no intervalo chamado de coffee-break e em mil situações do dia a dia – denota basicamente uma condição meio abestalhada é porque a questão, claro, é mais complexa do que isso. O lojista que opta por chamar sua liquidação de sale pode se defender alegando que assim exercita qualidades apreciáveis como esperteza comercial ou realismo psicológico: ao criar uma aura primeiro-mundista (leia-se americana) em torno de sua loja, a palavra importada estaria apenas cumprindo o papel de ajudar nas vendas. Bocó ele seria se não explorasse isso, certo?

O mesmo pode ser dito pela construtora ao batizar seu empreendimento imobiliário (ramo em que o francês e o italiano também têm seus encantos), pelo consultor corporativo ao escolher as palavras-chave que motivarão sua equipe etc. O que se busca nesses casos é uma sobra de sentido, um arco-íris de conotações que nenhuma palavra do vernáculo, justamente por soar trivial, pode conjurar.

Digamos que o argumento é sólido. Ainda assim, é profundamente bocó o contexto em que o inglês vira um idioma fetichista e sale, uma palavra mágica, capaz de transportar clientes simbolicamente para Miami ou Nova York, onde (eis a mensagem subterrânea de tal modismo) se vive uma vida plena, com palavras e coisas se casando à perfeição, e não este eterno ensaio que temos aqui.

Como problema propriamente linguístico, a praga do sale é desprezível: acreditar que a língua portuguesa esteja ameaçada por essa bobagem é cometer o erro – mais bocó ainda – daqueles políticos populistas que de vez em quando tentam emplacar leis para proibir o uso de palavras estrangeiras. Estrangeirismos funcionais são bem-vindos em qualquer língua. A fetichização do inglês não passa de um sintoma de fragilidade cultural e baixa auto-estima nacional, problemas que tendem a ser resolvidos pelo próprio desenvolvimento – econômico e sobretudo educacional – do país.

07/02/2012

às 15:59 \ Curiosidades etimológicas

Aeroportos são assombrados por velhos galeões

O aeroporto – palavra que um espírito afeito à poesia poderia decompor em algo como porto aéreo, ancoradouro do ar, cais dos ventos – carrega em seu nome para sempre o fantasma do mar que era indissociável do latim portus (“porto, abra, abrigada, enseada, angra, barra”), local seguro para os barcos ancorarem. Não há nada de surpreendente nisso: a própria ação de embarcar num avião continua a pagar tributo às velhas embarcações.

Existe alguma controvérsia sobre qual teria sido a primeira língua a unir o elemento indicador de ar (no caso do português, o antepositivo de origem grega aeros, “relativo à atmosfera”) à palavra porto, a fim de nomear essas grandes estações de embarque e desembarque que agora começam a ser privatizadas no Brasil.

O inglês americano reivindica o pioneirismo: a palavra airport teria aparecido em 1919 para se referir ao campo de aviação Bader Field, fundado em 1910 em Atlantic City. No francês, o primeiro registro de aéroport data de 1922, mas a palavra não seria um anglicismo e sim um neologismo criado por lá mesmo, segundo o Trésor de la Langue Française. De acordo com o filólogo Antenor Nascentes, nosso aeroporto, um termo de 1932, foi decalcado do francês e não do inglês.

05/02/2012

às 10:00 \ Crônica

Sete

Acordo de um pesadelo composto de uma palavra. Ela enche a noite inteira, transborda por toda a vida.

De manhã, pergunto à xícara que palavra será essa. Mas a única resposta vem do caminhão do lixo, que passa batendo lata.

Não faz sentido a palavra, se bem me lembro do sonho. É só um certo arrepio: o eco do seu silêncio no avesso do sussurrado sinônimo do seu oco. Passa como um raio e fica para sempre na retina, pré-estado de dicionário, caçoando de rima e ritmo.

Meio poesia em prosa, meio prosaica poesia, meio ainda grito ou senha, meio metrificadinha, que quantos meios houver serão quantos usaremos para tentar descrever aquilo que, sendo inteiro, são diversas inteirezas, podendo ser muitos meios e infinitas quartas partes.

Pré-linguística, pós-morte, ralo lógico, voragem, ela tudo funda e nada, nada, nada significa.

04/02/2012

às 9:20 \ Palavra da semana

Quando os Supremos (não) se tocam

Se a preposição latina super, de gloriosa carreira, queria, como se sabe, dizer “sobre, acima, além”, superus era o que estava acima de algo, em posição mais elevada, e superrimus, superlativo de superus, o que estava acima de todos os outros. Pois o adjetivo supremo, antes de ser supremus, foi superrimus. O que está mais alto entre todos.

As relações de sinestesia estabelecidas desde tempos imemoriais, nas línguas mais diversas, entre as ideias de altura, elevação, de um lado, e verdade, força e bondade, do outro, recobrem de sentidos positivos o adjetivo supremo, tradicionalmente associado a Deus.

Quando acontece de o Supremo Tribunal Federal fazer jus a toda a gama de conotações positivas que se grudam inevitavelmente ao seu nome, como no caso de sua decisão pró-CNJ, a língua também agradece.

*

A violência e a estupidez também podem ser supremas, claro. Como no caso da “prisão nacional” em que o governo cubano mantém a blogueira Yoani Sánchez. Se o governo brasileiro, para o qual ela acenou esperançosamente, tivesse seguido a concessão do visto (de 30 dias) a Yoani com meia palavra sobre direitos humanos, feito meio gesto, talvez a burocracia de Raúl Castro não persistisse no erro de, em pleno 2012, lhe negar pela 19ª vez permissão para deixar o país.

Yoani é uma cronista talentosa. Deve ser duro um país chegar à situação de declarar um grande risco para a ordem constituída uma cronista talentosa.

02/02/2012

às 14:42 \ Consultório

‘No aguardo’, isso está certo?

“Parece que virou praga: de dez e-mails de trabalho que me chegam, sete ou oito terminam dizendo ‘no aguardo de um retorno’! Ou outra frase parecida com esta, mas sempre incluindo a palavra ‘aguardo’. Isso está certo? Que diabo de palavra é esse ‘aguardo’ que não é verbo? Gostaria de conhecer suas considerações a respeito.” (Virgílio Mendes Neto)

Virgílio tem razão: uma praga de “no aguardo” anda infestando nossa língua. Convém tomar cuidado, nem que seja por educação: antes de entrarmos nos aspectos propriamente linguísticos da questão, vale refletir por um minuto sobre o que há de rude numa fórmula de comunicação que poderia ser traduzida mais ou menos assim: “Estou aqui esperando, vê se responde logo!”.

(Onde terá ido parar um clichê consagrado da polidez como “Agradeço antecipadamente sua resposta”? Resposta possível: foi aposentado compulsoriamente ao lado de outros bordados verbais do tempo das cartas manuscritas, porque o meio digital privilegia as mensagens diretas e não tem tempo a perder com hipocrisias. O que equivale a dizer que, sendo o meio a mensagem, como ensinou o teórico da comunicação Marshall McLuhan, a internet é casca-grossa por natureza. Será mesmo?)

Quanto à questão da existência, bem, o substantivo “aguardo” existe acima de qualquer dúvida. O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa não o reconhece, mas isso se explica: estamos diante de um regionalismo brasileiro, um termo que tem vigência restrita ao território nacional. Desde que foi dicionarizado pela primeira vez, por Cândido de Figueiredo, em 1899, não faltam lexicógrafos para lhe conferir “foros de cidade”, como diria Machado de Assis. Trata-se de um vocábulo formado por derivação regressiva a partir do verbo aguardar. Tal processo, que já era comum no latim, é o mesmo por meio do qual, por exemplo, do verbo fabricar se extraiu o substantivo fábrica.

No entanto, como a simples constatação da existência (e da correção gramatical) não dá conta de tudo que existe no reino das palavras, falta observar que, fórmula de polidez à parte, o substantivo aguardo (não confundir com o verbo aguardar quando conjugado no presente do indicativo, primeira pessoa do singular) é um termo que soa um tanto tosco, sobretudo na linguagem escrita, embora seu uso no código informal seja aparentemente inofensivo. Mais lapidados pelos chamados bons autores, seus sinônimos espera e expectativa o superam com folga em elegância.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

31/01/2012

às 13:50 \ Curiosidades etimológicas

A língua, a bunda e a ‘língua bunda’ de Lobato

“A bunda, que engraçada”, já sabia Drummond. “Está sempre sorrindo, nunca é trágica.” Dividida ao meio, tem uma nádega apoiada na linguagem chula e a outra na mais cândida intimidade. Informal sempre, deve-se evitá-la em discursos educados: preferir um clínico glúteos, um anódino nádegas, um inocente traseiro, um tatibitate bumbum, um cômico fundilhos, um pândego pandeiro, um pedante derrière ou mesmo um regionalista tundá – entre outras opções disponíveis num vocabulário vasto.

Afinal, não estamos falando de um “nome feio”? O mais risonho e infantil dos palavrões, mas ainda palavrão? Bem, quase isso. Bunda é um vocábulo que ainda não entregou suas últimas reservas de crueza ao sistema – ao sistema da língua asséptica, polidinha, carimbada. A população brasileira em peso sabe que, no fundo, é bunda mesmo a palavra definitiva para aquele volume musculoadiposo que os seres humanos têm na parte de trás do quadril, em graus variados de proeminência, ao sul de quem é dono dela. Por que, então, o vocábulo conserva-se maliciosamente sorridente, como queria Drummond?

Trata-se de um brasileirismo de origem africana. Veio do quimbundo mbunda, “quadris, nádegas” (sentido que tem também em Angola), e tomou em nosso vocabulário sócio-erótico-anatômico um assento que em condições normais estaria reservado a um filho do latim culus, como ocorreu em Portugal. O pioneiro no registro do vocábulo originado no quimbundo foi o dicionário Constâncio de 1836, o que quer dizer que a bunda já devia saracotear por aí sem certidão de nascimento pelo menos desde o século 18.

Como curiosidade, registre-se o uso que o escritor Monteiro Lobato (foto) gostava de fazer da expressão pejorativa “língua bunda” para designar o português inculto falado pela maioria da população brasileira – em consonância com o sentido de “ordinário, de baixa qualidade” que a palavra conserva até hoje.

Num dos contos de “Urupês”, Lobato menciona jornais populares nos quais “se estampam em língua bunda as facadas que Pé Espalhado deu no Camisa Preta…”. A expressão volta a aparecer em sua correspondência com Godofredo Rangel, reunida em “A barca de Gleyre”, onde a escritora Ana Maria Gonçalves encontrou recentemente uma coleção de declarações abertamente racistas do criador de Narizinho – racismo que tudo indica estar também na origem da locução “língua bunda”.

29/01/2012

às 9:00 \ Crônica

Despauté-Rio

Das palavras disponíveis em nossa língua para nomear o assombro diante do que não faz sentido, de tudo aquilo que não pode – ou não deveria poder – ser, sempre tive uma quedinha especial por despautério.

É o substantivo masculino despautério, nascido no século 19, que me vem primeiro à cabeça quando três prédios inteiros – um deles de vinte andares – viram pó de um minuto para o outro numa área nobre do centro da minha cidade, ao lado do Teatro Municipal.

A palavra presta dúbia homenagem a um velho gramático flamengo, Despautère (Despauterius em latim), muito popular na Europa nos séculos 16 e 17, que no entanto passou à história com a fama de confuso e dado a espalhar asneiras.

Quando o absurdo é apenas dito, o despautério vira sinônimo de tolice, dislate, besteira, no espírito da referência original ao tal filólogo. Mas é em sua acepção figurada – quando o absurdo que nomeia é um fato, um desatino não mais de julgamento individual, mas impregnado no próprio tecido do mundo – que despautério ganha mais força expressiva.

No entanto, é recurso que se deve usar com parcimônia. Como tudo que se banaliza, o assombro invocado por despautério tende a perder potência quando muito repetido. Edifícios que esfarelam, bueiros explosivos, turistas que despencam do bondinho pelo buraco na grade sobre o abismo, ônibus que ignoram sinais vermelhos, caipirinhas a R$ 20,00 em qualquer biboca, imóveis mais caros que em Manhattan ou Paris. Despauté-Rio.

Tem horas que só partindo para a invenção.

28/01/2012

às 9:00 \ Palavra da semana

Edifício, ou o samba do etimologista doido

Marcelo Piu/Agência O Globo

O etimologista estava tomando chope no Amarelinho e pensando nas fantasias que havia de inventar para o Carnaval que se aproxima quando ouviu o estrondo e tudo tremeu.

– Caiu um edifício! – gritou alguém.

Vinha dos lados do Municipal uma nuvem de poeira fina, parecendo lunar, a cobrir carros e turvar a atmosfera. As luzes dos postes boiavam fantasmagóricas dentro dela. O etimologista ficou em pé sobre sua cadeira.

Aedificium – pontificou – é o que foi edificado. De aedificare, aedis + facio, ou seja, casa + fazer: casafazer, fazer casa!

Ninguém lhe deu bola, evidentemente. Pessoas corriam de um lado para o outro, vozes se entrecruzando confusas, abafadas. Mesmo quando perplexas ou em desespero, abafadas: até o ruído do mundo parecia embaçado pelo pó verde e frio. Aqui e ali, destacava-se um grito de dor. Ouviu-se o som aquático de uma sirene.

Com a sanidade inteiramente desmoronada, o etimologista desceu da cadeira, sentou-se e ficou resmungando sozinho, nariz quase enfiado na tulipa meio vazia:

Aedis é base, pouso, ninho, residência. Como em edícula: edícula é casinha! Junte-se a isso o facio, facere, e está feito: fazer, fabricar, executar, cumprir uma ordem, dar forma a um projeto. Facio, matriz do fato e da fazenda, do ofício, do magnífico e também do malefício.

– Caiu um edifício! – gritaram de novo.

Porque na hora pensou-se que fosse um. Quem seria doido de imaginar três, se um já era o fim da picada? Nem mesmo o etimologista.

26/01/2012

às 12:52 \ Consultório

‘Como um todo’: modismo e redundância? Sim, mas…

“Costumeiramente ouvimos uma série de expressões, construções, as quais podemos incluir em algumas categorias – umas são ‘duvidosas’, outras, apenas uma questão de gosto (ou mau gosto), e outra categoria, a das expressões mais infelizes, é a das construções automáticas e estranhas, sobre cujas estruturas e legitimidade pouca gente se questiona. Recentemente, numa entrevista na TV, ouvi um sujeito dizer ‘…no país como um todo’. Isso existe? Em ‘no país’ já não fica subentendido o país inteiro, todo o território?” (Ricardo Fellman)

Antes de mais nada, reconheça-se que a consulta de Ricardo Fellman é a de um falante preocupado com uma praga que merece mesmo preocupação: a propensão que todos temos para cair na linguagem automática, no uso irrefletido de expressões que muitas vezes nos levam a proferir palavras vazias, de sentido escasso ou até, quando as examinamos de perto, incongruente. São as muletas discursivas, os arredondamentos rítmicos etc.

Isso é pecado? Depende de diversos fatores: hora, lugar, intenção, até mesmo grau de capricho com que cada um trata – e gosta de ser visto tratando – o idioma. A margem de liberdade individual corresponde à apropriação que cada falante deve fazer dos recursos disponíveis na língua, tornando-os seus. As necessidades de comunicação nunca caberão inteiras na função denotativa da linguagem, aquela centrada na simples transmissão de uma mensagem: o jogo inclui uma série de bordões, lugares-comuns, interjeições, gírias, vocativos, marcadores de ritmo.

Se for desejo do falante – seja por necessidade ou por prazer, no plano profissional ou no pessoal – investir em elegância, apuro e precisão, livrando sua língua na medida do possível de todos os automatismos, modismos e outras sujeiras, o primeiro passo é desconfiar de tudo mesmo. Desenvolver um olhar crítico como o de Fellman dá trabalho, mas é saudável. No entanto, deve-se tomar cuidado com os exageros. A expressão que o leitor condena parece estar realmente na moda: fala-se no país como um todo, na sociedade como um todo, quando muitas vezes bastaria dizer “no país” e “na sociedade”. Mas atenção: nem sempre!

“Em ‘no país’ já não fica subentendido o país inteiro, todo o território?”, pergunta Fellman. A resposta é: não necessariamente. “O maestro italiano desembarcou no país hoje de manhã” é uma afirmação diante da qual ninguém supõe que o visitante tenha posto os pés simultaneamente em todo o território nacional. No fim das contas, trata-se de um caso muito parecido com o da expressão “eu, particularmente”, já comentada aqui. Para saber se estamos diante de uma redundância besta ou de uma expressão funcional, é preciso analisar o contexto. Como naquele caso, a funcionalidade de “como um todo” me parece inegável em frases opositivas como esta: “Há bolsões de desenvolvimento, mas o país como um todo é atrasado”.

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Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

24/01/2012

às 13:28 \ Curiosidades etimológicas

Pirata: no mar das línguas, o empreendedor sem bandeira

O debate sobre as propostas de legislação antipirataria em discussão no Congresso dos EUA (leia um apanhado geral aqui) pôs em evidência um sentido relativamente novo para uma palavra antiga: pirata. Mas como foi que o corsário, o bucaneiro, bandido temido por séculos nos oceanos do mundo e que tem sua encarnação pop mais famosa no Jack Sparrow da série cinematográfica “Piratas do Caribe” (foto), como foi que o filibusteiro se transformou no pirata da era eletrônica?

Por metáfora, claro. Ou melhor, por uma série de metáforas, uma expansão gradual de sentido que teve como motores as ideias de rapinagem, ilegalidade, ousadia e oportunismo. Antes mesmo de se estabelecer no mundo digital, o sentido hoje em evidência estava maduro: o termo pirata passou a designar em algum momento do século 20 a atividade de copiar analogicamente obras artísticas – discos, livros etc. – sem o pagamento de direitos autorais. Antes ainda, já se registravam em português as acepções de ladrão (genérico), trapaceiro, malandro, arrivista e até namorador.

Todos esses sentidos são derivados do significado original de aventureiro dos mares com o qual a palavra desembarcou em nossa língua em princípios do século 16 – e quem quiser imaginar um desembarque de espada nos dentes, pode. Após uma tabelinha com o italiano pirata, ela vinha em última análise do grego peirates, “aquele que tenta (um golpe), que se arrisca” – palavra que, assim como os vocábulos perigo, perícia e experiência, tem relações de parentesco com o grego peirá, “tentar, empreender”.

Quer dizer que bem no fundo do pirata dorme um empreendedor? É curioso que, falando de pirate, o American Heritage Dictionary destaque entre seus traços distintivos o fato de que ele matava e pilhava por conta própria, isto é, sem estar a serviço de uma “nação soberana”. Ou seja: o que fazia do pirata um bandidão não eram propriamente suas ações, mas a falta de uma bandeira que as legitimasse.


 

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