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26/05/2012

às 9:00 \ Palavra da semana

No Vaticano, o culpado era o ‘maior domus’

Cena de "Assassinato em Gosford Park", de Robert Altman

Tecnicamente, Paolo Gabriele, o homem acusado de vazar documentos secretos do Vaticano (leia a notícia aqui), não era o mordomo, mas uma espécie de camareiro do papa Bento XVI. Não importa: as funções são suficientemente semelhantes para que se justifique a piada.

Como se tornou habitual num daqueles romances policiais ingleses das primeiras décadas do século 20, período que o crítico Howard Haycraft chamou de “era de ouro” do gênero e que tem em Agatha Christie seu grande expoente, o culpado era o mordomo. Exatamente o que ocorre, por exemplo, em “O mistério da casa vermelha”, de A.A. Milne, com sua trama artificial e cheia de furos que o americano Raymond Chandler, um dos expoentes de um tipo muito mais realista de romance policial, dissecou com crueldade cômica no ensaio “A arte simples de matar”.

Além de reforçar um velho clichê literário, o episódio também faz justiça à etimologia da palavra mordomo, que, muito apropriadamente, o português foi buscar ainda no século 13 no latim – língua oficial do Vaticano.

Mordomo tem origem na expressão do latim medieval maior domus, “administrador da casa”. Domus significa “da casa” e maior é uma substantivação do adjetivo major, “maior”, com o sentido de alguém que ocupa posição superior, isto é, de mando numa determinada hierarquia – a mesma palavra que o inglês, após tabelinha com o francês, adotou mais ou menos nessa época como mayor, “prefeito”.

24/05/2012

às 15:12 \ Consultório

Por que assalariado = salariado, mas amoral ≠ moral?


“Caro Sérgio, em uma aula de história sobre Revolução Industrial, surgiu a dúvida quanto à palavra ‘assalariado’, que, a grosso modo, é definida como aquele que recebe salário. A questão é se esse ‘a’ no início seria um prefixo de negação (o que seria completamente incoerente com o significado) ou herança etimológica da palavra. Desde já agradeço.” (Douglas Tomaz)

A consulta de Douglas abre um fascinante baú, o da formação das palavras, onde nem tudo é o que parece. No vocábulo assalariado – registrado em português pela primeira vez no ano de 1600, assim como o verbo do qual deriva, assalariar – o “a” não é um prefixo de negação nem uma “herança etimológica”, isto é, um elemento que o tenha acompanhado desde a raiz latina. Trata-se de uma palavra formada no português mesmo, por um processo chamado tecnicamente de “derivação parassintética”.

O nome assusta, mas quer dizer algo simples: o processo pelo qual, de uma palavra, faz-se outra com o acréscimo simultâneo de um prefixo e um sufixo. No caso, a + salário + ar, em que a base é o substantivo vindo no século 13 do latim salarium (“quantia paga aos soldados para a compra de sal”).

O papel dessa partícula “a” não é exatamente de prefixação, mas de prótese: tal acréscimo de um elemento de composição de raiz prepositiva criou em inúmeros casos, a maioria deles ainda nos primeiros séculos de vida do idioma, variações de origem popular para verbos, sem lhes alterar minimamente o sentido: baixar/abaixar, quietar/aquietar, levantar/alevantar, cariciar/acariciar.

Mas existe o verbo salariar? Nos dicionários, sim, até hoje, embora seja pouco usado. De qualquer forma, ainda que os vocábulos salariar e salariado não tivessem vingado na briga de foice da formação do português, o raciocínio acima permaneceria o mesmo. Aos verbos abençoar e ajoelhar não correspondem bençoar e joelhar, mas neles o elemento “a” tem a mesma função que desempenha em assalariar e alevantar.

Se neste caso o “a” fosse, como Douglas chegou a cogitar, o prefixo de origem grega (também usado como “an”) que indica “privação, negação”, a palavra assalariado teria parentesco com analfabeto, acéfalo e amoral, carregando um sentido exatamente oposto ao que carrega: “aquele que não tem salário, desempregado”. Fica evidente de saída que não se trata disso. Mas esses não são os dois únicos papeis que o elemento antepositivo “a” desempenha na formação de palavras.

O “a” também pode vir dos prefixos latinos “ad” e “ab”: no primeiro caso, o mais comum, traz embutida a ideia de “aproximação” e gerou vocábulos como anúncio, alegação e agressão. Outra possibilidade é que seja uma herança do artigo árabe al, que nos legou palavras como azeite, açúcar e açucena.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

22/05/2012

às 15:32 \ Curiosidades etimológicas

A silhueta de ‘monsieur’ Silhouette

Um dos capítulos mais curiosos da etimologia é o dos nomes próprios de personagens históricos que se transformam em substantivos comuns. De vez em quando falamos de um deles aqui: boicote (de Charles Cunningham Boycott, militar inglês) e despautério (de Despauterius, gramático flamengo) são vocábulos que têm histórias saborosas.

O caso da palavra silhueta (“contorno, perfil”), que um dia os puristas condenaram como galicismo, não fica atrás. Como boicote e despautério, ela também nasceu de uma maledicência, registro ao qual nunca faltou apelo popular. Destoando dos termos acima, a ligação do sentido de silhueta com o personagem em questão é bem menos óbvia e até meio controversa. Seja como for, não se discute que teve origem numa homenagem às avessas.

O homem criticado era o político francês Étienne de Silhouette (1709-1767), que em 1759 exerceu por menos de um ano o cargo de controlador geral das finanças do país. Austero, tentou implementar uma reforma econômica ambiciosa, mas, administrador incompetente, limitou-se a esboçá-la e deixá-la incompleta. Isso deu origem à locução adverbial à la silhouette (“à moda de silhouette”), com o sentido de “de modo pobre, precário ou inacabado”. O sentido atual teria se desenvolvido a partir daí, influenciado ainda pelo fato de Silhouette ter como hobby traçar perfis humanos semelhantes ao da ilustração acima.

Essa história é contada pelo Trésor de la Langue Française, que, além de ser um dicionário de prestígio, merece crédito por falar a mesma língua de Étienne de Silhouette. No entanto, há variações em torno dela. O Webster’s etimológico também tem o direito de dar seu pitaco – silhouette estreou em inglês ainda no século 18, cem anos antes de desembarcar no português como silhueta – e faz uso dele para acrescentar detalhes ainda mais maldosos ao perfil do ministro francês.

Segundo essa versão, além de austero com o dinheiro público, o que o indispôs com a nobreza, o sujeito seria também um famoso pão-duro na administração de suas próprias finanças. “Desenhos de contornos, tão avaros de detalhes quanto Silhouette era com o dinheiro, ganharam seu nome”, anota o Webster’s. E acrescenta: “Foi sugerido até que uma de suas economias era decorar sua casa com esses contornos, que ele mesmo fazia, em vez de pinturas mais caras”.

20/05/2012

às 12:32 \ Crônica

Super-heróis

Todos frequentavam seus sonhos, Rogerinho que gritou sou imortal antes de se atirar na frente do caminhão a fim de detê-lo com a força das palmas, Tuca que pulou da janela do quinto andar em busca da teia que o transportaria ao outro lado da rua para glória perene sua e de toda a sua família, Lalau que desafiou o mar na ressaca, não qualificaremos a façanha, só o próprio Lalau poderia esclarecer com que heroicos propósitos fez isso, Verinha que se jogou num bueiro para conhecer o povo subterrâneo e ninguém nunca mais viu (deve ter se dado bem com eles, sabidamente tão esquivos), Lara que atacou com valentia o enxame de abelhas africanas brandindo sua Suzy, Baltazar aquele mirradinho que comeu veneno de rato para ressuscitar ao terceiro dia e ainda Pitoco, o louco, que amarrou o irmão recém-nascido à roda traseira do carro porque achou que seria muito divertido vê-lo chorar girando, ou girar chorando, e soltou o freio de mão na ladeira indo bater num ônibus lá embaixo, ainda não falamos do gordo Antônio Carlos, que se matou com um tiro no ouvido porque tirou seis em ciências, nem poderíamos nos esquecer de Vica, de gloriosa memória e extraordinário poder, que naquela manhã bem cedo, tendo chegado ao galho mais alto da mangueira antes de nós, abriu os braços e virou um míssil, capa vermelha esticada ao vento, na direção daquele que será para sempre um lugar de destaque na galeria das crianças encantadas, esses pirralhos vivos apenas em sonhos que emergem de vez em quando, parece que de anos em anos mas é engano, sorriem no fundo da cena diariamente, e apenas quando algum deles avança com seus caniços ralados intactos, seus dentes para sempre de leite, tentamos correr deles com um horror semelhante à vergonha, talvez um sorriso de pena, que num mecanismo clássico de transferência julgamos ser pena deles, mas que é pena de nós, envelhecemos, o mundo não era assim, só para eles era assim, já não dizemos com autoridade agora o mundo era bonito outra vez senão eu paro de brincar, já não brincamos, Vica, Verinha, Tuca, Baltazar, já não brincamos, mas todos frequentavam seus sonhos.

19/05/2012

às 10:00 \ Palavra da semana

Dilma e a verdade à moda grega

Já nos primeiros minutos do emocionado discurso que pronunciou na cerimônia de instalação da Comissão da Verdade, quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff apresentou uma curiosidade filológica surpreendente: “A palavra ‘verdade’, na tradição grega ocidental, é exatamente o contrário da palavra ‘esquecimento’”, disse ela. “É memória e é História. É a capacidade humana de contar o que aconteceu.”

Será mesmo? Diga-se, a bem da verdade, que a palavra verdade nunca significou, em termos filosóficos, exatamente o contrário de esquecimento na “tradição grega ocidental”, mas de fato existe uma verdade etimológica profunda na afirmação da presidente.

Nosso vocábulo verdade veio no século 13 do latim veritas, veritatis, mas o termo grego que os latinos traduziam por essa palavra era etimologicamente bem distinto: na língua de Platão (foto), aletheia carregava sobretudo a ideia de desvelamento, de descoberta, de retirada do véu da aparência para revelar aquilo que verdadeiramente é.

E o que a memória tem a ver com isso? Na mitologia grega, chamava-se Lete o “rio do esquecimento”, que provocava a perda de memória em quem bebesse de sua água. Aletheia (de a + lethe) era, na origem, a negação dessa amnésia, e portanto a afirmação da memória, provavelmente entendida como o próprio fundamento da razão. Como lembra o filósofo catalão José Ferrater Mora, “o sentido primário da verdade como aletheia não é (…) mera descoberta ou patenteamento, mas, sobretudo, a manifestação da recordação”.

17/05/2012

às 16:10 \ Consultório

Escopo com o sentido de ‘abrangência’ é tradução burra?

“Trabalho há muito tempo nas áreas de gestão da qualidade e gerenciamento de projetos. As normas e manuais estrangeiros falam em ‘project scope’ e os nossos apedeutas insistem em verter a expressão para ‘escopo do projeto’. Esse equívoco está presente até nas normas da ABNT. Eu uso o termo ‘abrangência’ e quando falo que escopo significa finalidade, muita gente boa pula da cadeira. Como resolver isso?” Paulo Roberto Granja

Para começar pela pergunta final de Granja: acredito que o único modo de “resolver isso” seja relaxar e reconhecer que o substantivo escopo ganhou uma nova acepção em português, um sentido emergente adquirido de forma um tanto constrangedora, a partir de uma tradução equivocada e preguiçosa do inglês, mas que hoje já circula com força suficiente para se impor.

Está certo o histórico da questão traçado pelo leitor. O substantivo masculino escopo, registrado em português desde 1677, tinha a princípio apenas dois sentidos: o literal de “meta, alvo, mira” e o figurado de “intuito, objetivo, desígnio”. Vindo do grego skopós por meio do latim scopus, estava ligado à ideia de ponto de vista, observação, mirada. Etimologicamente, o escopo é parente do telescópio, do microscópio e de outros vocábulos com a mesma terminação.

Ocorre que o inglês, que já no início do século 16 foi buscar a palavra scope no italiano scopo (mais uma vez, “meta”), conferiu-lhe de saída um sentido diferente: o de alcance, extensão, abrangência. Não fica muito claro como isso ocorreu – provavelmente deu-se outra interpretação à ideia de visão, com a troca do foco fechado num objetivo pela amplitude de todo o campo visual. O fato é que, em inglês, scope nunca significou objetivo. Apesar da origem comum, formava com nosso escopo uma armadilha para tradutores, um daqueles casos de “parece, mas não é”.

Armadilhas desse tipo, no entanto, são curiosas: quando multidões de tradutores caem na arapuca, ela deixa de ser considerada assim. Se tudo indica que a acepção de “gama ou limite de operações” é de fato um estrangeirismo semântico, produto de uma tradução servil, o fato de o Houaiss registrá-la – embora não o Aurélio, que costuma ser mais lento nesses casos – é um reconhecimento à amplitude de seu uso. Línguas mudam o tempo todo, e o erro também é um de seus motores.

Casos semelhantes de anglicismo semântico – hoje em estágios variados de aceitação, mas todos provavelmente destinados a um futuro pacífico – são o do verbo realizar com o sentido de “compreender, dar-se conta de” (to realize) e o do substantivo feminino planta na acepção de “instalação industrial” (plant). Não, eu também não gosto dessas palavras. Consolo-me com o fato de que não sou – ninguém é – obrigado a empregá-las em suas acepções anglófilas. Mas é como diz a velha tirada sobre as bruxas: que elas existem, existem.

15/05/2012

às 15:12 \ Curiosidades etimológicas

Onde se cruzam o trevo, o trivial e a trívia

Cary Grant numa encruzilhada de 'Intriga internacional', que de trivial não tem nada

Tudo começou, como tantas vezes ocorre na nossa e em muitas outras línguas, no latim. Três vias (tri + via), três caminhos, formaram um trivium, definido pelo dicionário Saraiva como “lugar em que se juntam três ruas ou três caminhos, encruzilhada”. Também se usa em português, há pouco mais de um século, um sinônimo que se aproxima etimologicamente do termo latino, embora por muito tempo tenha sido empregado sobretudo com sentido botânico: trevo.

Trivium – um vocábulo de vocação indiscutivelmente espacial, como se vê – deu origem no próprio latim ao adjetivo trivialis, onde fomos buscar no século 17 nosso “trivial”. Curiosamente, essa palavra latina foi empregada desde o início em sentido figurado, expressando um julgamento de valor em vez de uma localização: trivialis significava basicamente aquilo viria a significar trivial, ou seja, “que é do conhecimento de todos; corriqueiro, vulgar; que é muito usado, repetido, batido; que não revela maiores qualidades; ordinário” (Houaiss).

Isso se baseia na ideia de que só coisas vulgares ou grosseiras ocorrem nas encruzilhadas, “onde todo mundo pode passar”, como anota o Webster’s etimológico ao tratar do inglês trivial, outro descendente do adjetivo latino. O dicionário acrescenta: “A ideia de que as pessoas frequentemente se detêm nos pontos onde os caminhos se cruzam para passar o tempo em conversas inconsequentes também pode ter influenciado o desenvolvimento de tal sentido”.

E assim chegamos ao ponto em que o trivial se cruza com o substantivo trívia, uma palavra ainda emergente em português, à espera de um abrigo nos dicionários, mas já consolidada no vocabulário urbano jovem das últimas décadas. Trívia é um empréstimo do inglês trivia – forma abreviada de trivialities, “trivialidades”, surgida no início do século 20 – e tem o sentido de “conjunto de informações e curiosidades de pouca ou nenhuma relevância (mas saborosas)”. Trata-se, portanto, de um sinônimo da popular expressão “cultura inútil”.

13/05/2012

às 9:00 \ Crônica

A hipótese Brás Cubas

'Beethoven em seu leito de morte', de Josef Danhauser

Em seu leito de hospital, o velho escritor ergue a caneta Bic com suas últimas forças. Sabe que lhe resta pouco tempo, talvez horas, e se aflige mortalmente. Então é isso? Tanto para dizer, tanta coisa prometida, tão pífia realização? Passa mais de meia hora de olhos pregados na parede, cismando bestamente na possibilidade de, como Brás Cubas, terminar sua obra… do outro lado.

Escreve:

Brás abre o primeiro capítulo de suas memórias, chamado “Óbito do autor”, hesitando entre começar pelo princípio ou pelo fim, isto é, pelo nascimento ou pela morte. É claro que vemos aí a “pena da galhofa” que ele acabara de anunciar no prólogo – e se nada disso faz sentido para você, membro de uma geração que não lê Machado, azar o seu – mas nem por isso a questão do ponto de partida é menos crucial. É difícil levar qualquer empreitada a bom termo quando não se sabe o motivo de ter começado, claro. No entanto, não é esta uma boa definição da própria vida?

Seria? O escritor olha para a janela, com sua persiana eternamente fechada. Tenta se lembrar do êxtase provocado por uma certa manhã de sua infância, cheia de sol, pescaria e alarido. Sobre ela só consegue extrair da memória descrições posteriores, adultas, palavras. Reflexos de reflexos.

Meu problema, pensando bem, é mais grave que o de Brás. Se a vida do filhinho de papai nascido no Primeiro Reinado parecia a ele mesmo tão desprovida de sentido que o modo de ordená-la num livro passava a ser uma gratuidade, simples opção de estilo, o que dizer da vida de um moribundo que tentou filtrar tudo em palavras, só para descobrir, no fim, que elas o abandonaram feito filhos ingratos?

Sim: depois da morte de Ione, sua mulher, os três filhos do escritor sumiram no mundo. Nenhum deles foi visitá-lo no hospital, mas não é nisso que ele quer pensar agora.

O problema com a hipótese Brás Cubas, que seria a esta altura o único consolo, não é só o meu sólido ceticismo sobre a perenidade do espírito e toda essa lengalenga. No tempo longínquo em que eu ainda acompanhava Ione aos cultos kardecistas, de pura fidelidade conjugal, houve momentos em que meu agnosticismo chegou a vacilar diante da evidente honestidade daquelas pessoas, do seu fervor, e também de alguns fenômenos esquisitos para os quais eu não tinha explicação. Mas só balancei até o dia em que um dos frequentadores, de olho numa conversão e decerto sabendo-me um “homem de letras”, me emprestou um livro chamado “Parnaso d’além-túmulo”. Trata-se de uma coletânea de poetas mortos, um volume inteiro de versos psicografados. Li todinho mas, confesso, por puro espírito de porco: a partir do segundo poema eu tinha que me trancar no banheiro para rolar de rir sem que Ione percebesse. Lá estavam diversos grandes, Álvares de Azevedo, Bilac, Bandeira. Ou o editor dizia que estavam. Ocorre que os poemas eram toscos demais, bisonhos demais, obras de ginasianos de província. Minha conclusão foi que, caso aquilo não fosse uma grossa picaretagem, a pior coisa que podia suceder ao estilo de um escritor era a morte.

O escritor sorri por dentro, mas seu rosto permanece imóvel. Está cansado demais. A Bic cai de sua mão sobre o lençol branco em que se lê, em tinta azul desbotada, o nome do hospital.

E acabou.

12/05/2012

às 13:05 \ Palavra da semana

Jura que os juros estão caindo?

Al Pacino como Shylock, o agiota de Shakespeare

Na esfera econômica, a semana no Brasil foi marcada pela consolidação da tendência – puxada com pulso forte pelo Planalto – de queda nos juros bancários. Difícil crer, não? Mas juro que é verdade.

O trocadilho do parágrafo anterior é bobo, porque fácil, mas acredito que o álibi etimológico o justifique: os juros (também se pode falar em juro, mas a palavra é mais usada no plural) e o juramento pertencem à mesma família de vocábulos, ambos descendentes do latim jus, juris (“direito, justiça”). Mas qual é a relação?

O primeiro sentido de juro foi o de direito de propriedade. Só mais tarde surgiu a acepção de “rendimento gerado pelo próprio dinheiro”, com a possibilidade de haver contribuído para essa transição a ideia de juramento, isto é, o compromisso legal assumido pelo credor.

Já houve estudiosos que viram ainda uma influência do latim usura – termo ligado à ideia de uso e que deu no português usura, “agiotagem”, palavra de conotações negativas – na formação do sentido moderno de juro. Foi recobrindo os juros com a pecha da usura que a Igreja Católica passou séculos a injuriá-los e esconjurá-los – para invocar aqui mais duas palavras da família.

10/05/2012

às 13:32 \ Consultório

‘Fazer que’ ou ‘fazer com que’?

“As regras para uso de preposição antes do ‘que’ sempre me pareceram simples. Usamos a preposição que o verbo pedir (se pedir). Mas, recentemente, passei a reparar em um caso que estaria errado segundo essa regra, mas é usado em qualquer texto mais formal. Exemplo: ‘Eu gosto de usar a internet, o que faz COM que eu passe muito tempo em frente ao computador’. Não tenho dúvida de que o verbo ‘fazer’ é transitivo direto. Mas, então, de onde viria esse ‘com’? Quando tenho que escrever e me deparo com o caso, eu fico tentado a seguir a regra, mas fico com medo de estar errado ou de que quem vai ler ache que está errado.” (Paulo Hora)

A dúvida de Paulo é excelente e aponta para algo que, ao gosto do freguês, pode ser considerado uma complicação ou uma sutileza, uma anomalia ou uma riqueza de nosso idioma (é tudo isso ao mesmo tempo, claro). Estamos falando da preposição que, empregada depois de certos verbos transitivos diretos, “mais serve para lhes acrescentar um novo matiz de sentido do que reger o complemento desses mesmos verbos”, nas palavras de Evanildo Bechara em sua “Moderna gramática portuguesa”.

Vamos voltar alguns passos para deixar isso mais claro. A regra geral, como se sabe, é que só se emprega preposição após um verbo transitivo indireto: “Conto com sua ajuda” está neste caso, mas “Peço sua ajuda”, com seu verbo transitivo direto, não. “Confio em meus colegas” exige preposição, mas “Chamei meus colegas”, não. Até aqui não há mistério.

A situação começa a se complicar naqueles casos, não tão incomuns, em que o objeto direto aparece preposicionado. Isso pode ocorrer devido à opção estilística de pô-lo em destaque (“Amar a Deus”), à eliminação de uma ambiguidade (“Trata o empregado como a uma criança”), ou ainda – o único desses casos em que a preposição é realmente obrigatória na norma culta – quando o objeto direto é um pronome oblíquo tônico: “É só a ti que eu amo”.

Estamos vendo, portanto, que objetos diretos não são incompatíveis com preposições. Ocorre que, embora traga um objeto direto preposicionado, a construção mencionada pelo leitor não se encaixa bem em nenhum dos casos do parágrafo anterior. Em “fazer com que”, a função da preposição, como diz Bechara, é menos de regência que de modulação semântica: em contraste com os exemplos acima, tem impacto no sentido do verbo. Trata-se de um recurso expressivo que a língua põe à disposição do falante.

Em outras palavras, “fazer que” também está certo, mas não quer dizer exatamente a mesma coisa. A interpretação consagrada pelos gramáticos é a de que neste caso o com enfatiza o esforço empregado pelo sujeito da ação. Eu não excluiria também, ainda que secundariamente, uma razão de ritmo e eufonia. “A internet faz que eu passe muito tempo em frente ao computador” pode ser gramaticalmente correto, mas não soa lá muito bem.

O filólogo brasileiro Antenor Nascentes propôs para preposições desse tipo o nome de posvérbio. Outros exemplos citados por Bechara são “cumprir com o dever”, construção em que a preposição “acentua a ideia de zelo ou boa vontade para executar algo”, e “arrancar da espada”, com o de enfatizando “a ideia de uso do objeto”.

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