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16/08/2012

às 19:15 \ Tema Livre

Hoje faz 35 anos que Elvis morreu. A legenda do Rei do Rock, porém, está vivíssima — e VEJA foi conferir de perto

REI EM UMA REPÚBLICA Elvis Presley: na música, no cinema, na postura de palco, ele foi a encarnação viva do sonho americano (Foto: LFI)

REI EM UMA REPÚBLICA -- Elvis Presley: na música, no cinema, na postura de palco, ele foi a encarnação viva do sonho americano (Foto: LFI)

 

Reportagem de Sérgio Martins, de Memphis, EUA, publicada na edição de VEJA que está nas bancas

 

O REI ESTÁ MORTO – VIVA O REI

Uma viagem ao nascedouro da música de Elvis Presley, no sul dos Estados Unidos, confirma a vitalidade de sua lenda. Passados 35 anos de sua morte, ele ainda é o ícone fundamental do rock

Robert Sullivan, 85 anos, caminha a passos pesados pelo auditório municipal de Shreveport, cidade do estado da Louisiana, no sul dos Estados Unidos. Foi ali, em 1948, que ele iniciou a carreira de técnico de áudio, no programa de rádio Louisiana Hayride, que disputava a audiência dos amantes do country com o Grand Ole Opry. E foi ali que ele testemunhou o nascimento de uma lenda – talvez a maior delas – do rock: em outubro de 1954, fazia sua estreia no Hayride um jovem de cabelos castanhos (que três anos depois seriam tingidos de preto) e um sorriso de lado que derretia as mulheres. Era Elvis Presley.

Ele vinha de uma experiência infeliz no Grand Ole Opry, cujo público era tradicional demais para sua música (do episódio, aliás, ficou uma dessas lendas de rejeição prematura que fazem parte do folclore de toda grande estrela: um executivo da rádio de Nashville teria dito ao iniciante que ele deveria largar a música e voltar a dirigir caminhões).

O jovem roqueiro levava dez horas para se locomover de Memphis, no Tennessee, onde morava, até Shreveport, onde fazia duas entradas no programa. “Em uma dessas noites, ele mal acabou de tocar e já saiu para viajar mais seis horas até Oklahoma, onde tinha outro show marcado”, conta Sullivan.

Mais de 1 bilhão de discos vendidos

Em uma conversa com o técnico, Elvis justificou todo esse esforço em termos que, a distância, soam absurdos: “Tenho de fazer isso enquanto sou jovem, porque daqui a um ano ninguém mais vai se lembrar de mim”.

Neste 16 de agosto, completam-se 35 anos da morte de Elvis Presley, e ele continua lembrado como nunca. Mesmo depois dos Beatles, de Michael Jackson e de Madonna, o cantor ainda detém o posto de maior ganhador de discos de ouro e platina de todos os tempos – são 131 ao todo.

Ele começou a gravar em um período no qual a aferição de números era nebulosa, mas estima-se que tenha vendido mais de 1 bilhão de discos.

dupla ilustrator

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Elvis deixou sua presença marcada a fogo no imaginário pop. Sem nunca ter excursionado fora de seu país (descontados aí uns poucos shows no vizinho Canadá), tornou-se uma figura global. Sua voz, sua postura de palco, sua indumentária são imediatamente reconhecíveis, e ele é o astro mais parodiado de todos os tempos.

No Brasil, neste ano, dois eventos vão celebrar a memória daquele que foi aclamado o Rei do Rock.

A exposição Elvis Experience incluirá 500 artigos pessoais do cantor, entre os quais o famoso e vistoso traje American Eagle, que ele usou no especial Aloha from Hawaii, de 1973. A abertura da mostra, em 5 de setembro, no Shopping Eldorado, em São Paulo, deve contar com a presença da viúva do cantor, Priscilla Presley.

 

HOMEM DE FAMÍLIA Elvis, criança, com seus pais (Foto: Michael Ochs Archive / Getty Images)

HOMEM DE FAMÍLIA Elvis, criança, com seus pais: uma infância pobre, marcada pelo período que o pai passou na prisão (Foto: Michael Ochs Archive / Getty Images)

Em outubro, São Paulo recebe Elvis Presley in Concert, da TCB Band, que tocou com Elvis de 1969 até sua morte – e vem acompanhada de projeções em vídeo do cantor. As três noites do show estão com lotação quase esgotada. Mostra e show confirmam o status de objeto de culto que Elvis conquistou antes de qualquer outro astro do rock. VEJA visitou a paisagem original do mito: as cidades de Tupelo, Memphis, Nashville e Nova Orleans, locais decisivos para a carreira e para a formação musical de Elvis.

“Este é o mistério da democracia. Seus frutos brotam em circunstâncias inesperadas e em solos pouco cultivados pelo homem”, disse o presidente Woodrow Wilson sobre Abraham Lincoln, o lenhador que chegou à Casa Branca. A despeito de seu título de realeza roqueira, Elvis Aaron Presley é também um desses frutos inesperados da democracia. Sua biografia tem aquela combinação de predestinação e adversidade que está na base do chamado sonho americano.

 

OU QUASE Com a mulher, Priscilla, e a filha, Lisa Marie, nascida em 1968: anos de opulência - o casamento, porém, foi problemático. Elvis recusava-se a fazer sexo com a mulher depois que ela teve a filha. Priscilla resolveu suas carências com um professor de caratê, e terminou saindo de casa em 1971 (Foto: SIPA PRESS)

OU QUASE Com a mulher, Priscilla, e a filha, Lisa Marie, nascida em 1968: anos de opulência - o casamento, porém, foi problemático. Elvis recusava-se a fazer sexo com a mulher depois que ela teve a filha. Priscilla resolveu suas carências com um professor de caratê, e terminou saindo de casa em 1971 (Foto: SIPA PRESS)

Em certa medida, seu rock’n’roll é a expressão do espírito confiante da sociedade americana no pós-guerra: ostensivamente barulhento, rápido, agressivo, mas repleto da mais inocente vitalidade. Não, Elvis não criou o rock’n’roll. Mas foi sua maior estrela. Nunca estudou música, mas tinha um impressionante conhecimento intuitivo das expressões populares do Sul americano: gospel, country, blues e rhythm’n’blues, todos os gêneros que serviram de base para o rock’n’roll.

Elvis não era compositor, mas colocou personalidade em tudo o que gravou. Tomem-se, por exemplo, as duas músicas que faziam parte do seu primeiro compacto na Sun Records, de Memphis. That’s All Right, de Arthur Big Boy Crudup, era uma das prediletas de Elvis desde os tempos em que morava em sua cidade natal, Tupelo. Num discreto lance criativo, ele acrescentou à letra um expressivo “weelll” na introdução.

GUITARRISTA DAS LENDAS O avião que levava o guitarrista James Burton e outros membros da banda de Elvis Presley de Los Angeles para Portland, no Maine, fez uma parada para abastecer - e foi então que eles receberam a notícia: Elvis havia morrido. Foi o fim de uma parceria que começou em 1969, quando Burton, que já havia recusado antes um convite de Elvis (estava gravando um disco com outra lenda, Frank Sinatra), afinal topou acompanhá-lo em suas temporadas em Las Vegas. "Na noite de estreia, a gente ouvia os gritos das fãs do camarim, e Elvis estava bem nervoso. Mas bastou dar dois passos no palco para ter o público na mão. Fez uma tremenda performance", lembra. Elvis incorporou várias músicas ao repertório por sugestão de Burton - foi assim com I¿m So Lonesome I Could Cry, do cantor country Hank Williams. Em 1997, Burton remontou a TCB Band, que acompanhara o Rei do Rock até a sua morte, para o Elvis Presley Experience, show em que o cantor é revivido em imagens no telão (a apresentação virá ao Brasil em outubro). "É impressionante. Elvis parece estar ali", garante Burton, hoje com 72 anos

GUITARRISTA DAS LENDAS O avião que levava o guitarrista James Burton e outros membros da banda de Elvis Presley de Los Angeles para Portland, no Maine, fez uma parada para abastecer - e foi então que eles receberam a notícia: Elvis havia morrido. Foi o fim de uma parceria que começou em 1969, quando Burton, que já havia recusado antes um convite de Elvis (estava gravando um disco com outra lenda, Frank Sinatra), afinal topou acompanhá-lo em suas temporadas em Las Vegas. "Na noite de estreia, a gente ouvia os gritos das fãs do camarim, e Elvis estava bem nervoso. Mas bastou dar dois passos no palco para ter o público na mão. Fez uma tremenda performance", lembra. Elvis incorporou várias músicas ao repertório por sugestão de Burton - foi assim com I¿m So Lonesome I Could Cry, do cantor country Hank Williams. Em 1997, Burton remontou a TCB Band, que acompanhara o Rei do Rock até a sua morte, para o Elvis Presley Experience, show em que o cantor é revivido em imagens no telão (a apresentação virá ao Brasil em outubro). "É impressionante. Elvis parece estar ali", garante Burton, hoje com 72 anos (Foto: Gilberto Tadday)

Blue Moon of Kentucky, de Bill Monroe, recebeu um andamento acelerado, que deixou uma canção por natureza interiorana mais próxima das metrópoles. Elvis falava muito diretamente com o público adolescente, e para isso foi essencial o apelo sexual não só de sua música, mas de seu rebolado no palco (celebremente censurado no programa de TV de Ed Sullivan). “A gente tocava de acordo com os movimentos do traseiro dele”, confessou certa vez o guitarrista Scotty Moore, que acompanhou Elvis por mais de uma década.

As meninas suspiravam pelo ídolo, e os rapazes tentavam imitá-lo: topete, casaco de couro e ar insolente. A febre Elvis atravessou o Atlântico, seduzindo os jovens Paul McCartney e John Lennon. “Os Beatles não teriam existido se Elvis Presley não houvesse aparecido antes”, reconheceu Lennon.

 

BOM MENINO MAU Elvis mexe as ancas dançando Jailhouse Rock (Foto: SIPA Press)

BOM MENINO MAU Elvis mexe as ancas dançando Jailhouse Rock (Foto: SIPA Press)

O Rei do Rock teve a mais humilde das origens. Nasceu em 8 de janeiro de 1935 em Tupelo, Mississippi. Hoje com 36 000 habitantes, a cidade só tem Elvis para oferecer ao visitante. Estão lá a casinha de dois cômodos onde ele nasceu e, reconstruída nas proximidades, a igreja da Assembleia de Deus onde ele cantava hinos religiosos. Os Presley viviam um nadinha acima da linha da miséria. Gladys, a mãe, era costureira. Vernon, o pai, era caminhoneiro – e chegou a passar oito meses na prisão por ter adulterado o valor de um cheque. A devoção religiosa da família acompanhou Elvis até o fim da vida. Ele gravou discos com cânticos, como Peace in the Valley. Peter Guralnick, provavelmente seu melhor biógrafo, especula que Elvis, se vivesse mais tempo, teria aos poucos se transmutado em um cantor de gospel.

O primeiro violão foi presente pelo aniversário de 11 anos. Fora da igreja, o garoto rezava para cantores de blues e country como Arthur Big Boy Crudup e Bill Monroe. Os Presley mudaram-se de Tupelo para Memphis em 1948, em busca de melhores condições de trabalho. As condições culturais, essas de fato melhoraram.

 

Posando com uniforme do exército: um astro sexy que acabou passando por careta (Foto: Elvis Enterprises)

Posando com uniforme do exército: um astro sexy que acabou passando por careta (Foto: Elvis Enterprises)

Elvis passou a frequentar a Beale Street, reduto boêmio da cidade, mergulhando no blues urbano de B.B. King e Furry Lewis (a Beale Street atual tem uma estátua de Elvis, mas não é nem a sombra do que foi: tornou-se reduto de bandas cover de rock farofa. A Memphis de Elvis ainda resiste em um inferninho chamado Wild Bill’s, na periferia da cidade).

Elvis pensava em se tornar motorista de caminhão, como o pai. Mudou seus planos quando entrou no estúdio da Sun Records e pagou 4 dólares para supostamente gravar um compacto para sua mãe, com as canções My Happiness e That’s When Your Heartache Begins. Uma secretária da Sun encantou-se com o jovem cantor e alertou seu chefe, Sam Phillips, para aquele talento potencial. Phillips, a princípio, manteve-se cético, mas recrutou o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black para que fizessem um teste com o novato.

O TEMPLO CAFONA Graceland, a mansão de Elvis: comprada pelo cantor em 1957, ela hoje é um museu para os fãs. Foi aberta para visitação em 1982 e recebe mais de 600000 pessoas por ano. A decoração tem muito da personalidade  de Elvis (Foto: Gilberto Tadday)

O TEMPLO CAFONA Graceland, a mansão de Elvis: comprada pelo cantor em 1957, ela hoje é um museu para os fãs. Foi aberta para visitação em 1982 e recebe mais de 600000 pessoas por ano. A decoração tem muito da personalidade de Elvis (Foto: Gilberto Tadday)

Elvis acabou contratado e se tornou um sucesso local. Phillips venderia seu passe por modestos 35 000 dólares à gravadora RCA, na qual ele afinal ganharia o status de astro maior do rock americano (com substancial ajuda do estúdio Paramount: Elvis consolidou sua imagem popular em 31 filmes).

O negócio já foi considerado uma mancada indesculpável de Phillips, mas, considerando que o futuro do jovem artista então era incerto, tratou-se de uma decisão razoável. Phillips saldou as dívidas da Sun Records e continuou a investir em novos talentos, como Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Johnny Cash.

 

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA Quando Elvis fez um show em Norman, Oklahoma, Jeff Lewis, nativo da cidade, estava lá. Tomou um choque: o homem gordo e inchado que subiu ao palco ­- e que morreria alguns meses depois, em agosto de 1977 - era muito diferente da figura esguia e rebolante que o fã tinha em mente. "Mas ele ainda tinha o mesmo vozeirão", diz Lewis, hoje com 45 anos. O fã tornou-se um dos muitos impersonators (imitadores) de Elvis. E ganha a vida com isso: divide-se entre apresentações em clubes noturnos e nas cerimônias da Rhinestone Wedding Chapel, uma casa de Nashville que celebra casamentos rápidos. A cerimônia custa em torno de 250 dólares (um pouco mais se os noivos quiserem fazer uma tatuagem na loja ao lado). Lewis também excursiona com um imitador de Freddie Mercury, numa turnê apropriadamente intitulada King & Queen

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA Quando Elvis fez um show em Norman, Oklahoma, Jeff Lewis, nativo da cidade, estava lá. Tomou um choque: o homem gordo e inchado que subiu ao palco ­- e que morreria alguns meses depois, em agosto de 1977 - era muito diferente da figura esguia e rebolante que o fã tinha em mente. "Mas ele ainda tinha o mesmo vozeirão", diz Lewis, hoje com 45 anos. O fã tornou-se um dos muitos impersonators (imitadores) de Elvis. E ganha a vida com isso: divide-se entre apresentações em clubes noturnos e nas cerimônias da Rhinestone Wedding Chapel, uma casa de Nashville que celebra casamentos rápidos. A cerimônia custa em torno de 250 dólares (um pouco mais se os noivos quiserem fazer uma tatuagem na loja ao lado). Lewis também excursiona com um imitador de Freddie Mercury, numa turnê apropriadamente intitulada King & Queen (Foto: Gilberto Tadday)

As explicações pretensamente políticas para o sucesso de Elvis tendem a menosprezar seu talento e carisma, transformando-o em usurpador branco dos ritmos criados pelos negros. Contraditoriamente, a paixão do cantor pela música negra parece tê-lo transformado em racista. Em sua autobiografia, o bluesman B.B. King põe essa bobagem no devido lugar. “Elvis foi um grande divulgador da minha música”, diz. É fato, porém, que a crescente politização do rock a partir dos anos 60 abalaria o estrelato de Elvis.

Ele continuou vendendo discos e fazendo shows de imenso sucesso, sobretudo em Las Vegas. Mas já não estava na vanguarda. Os ingleses do Led Zeppelin visitaram Elvis em Graceland, sua mansão em Memphis, mas foram exceção: para os artistas daquela geração, ele era ultrapassado e careta.

 

HOMENAGEM EM DUAS RODAS Com 150 integrantes, a gangue conhecida como Rolling Elvi roda por Nova Orleans há nove anos. "Éramos todos fãs de Elvis Presley e queríamos homenagear o rei de um modo original", diz Scott Galante, um dos fundadores do grupo. Trata-se de uma gangue de boa índole, que ajuda instituições de caridade e faz suas grandes reuniões em duas datas: o Mardi Gras, Carnaval de Nova Orleans, e o Natal. As motos vão de humildes lambretas a possantes Harley-Davidson, e os motoqueiros têm as mais diversas idades e tipos físicos. É obrigatório, porém, caracterizar-se com as roupas e o cabelão que são marca registrada do ídolo. Como é muito comum entre os inúmeros grupos de fãs que imitam Elvis Presley, essa é uma homenagem que tem jeito de paródia - mas é seriíssima

HOMENAGEM EM DUAS RODAS Com 150 integrantes, a gangue conhecida como Rolling Elvi roda por Nova Orleans há nove anos. "Éramos todos fãs de Elvis Presley e queríamos homenagear o rei de um modo original", diz Scott Galante, um dos fundadores do grupo. Trata-se de uma gangue de boa índole, que ajuda instituições de caridade e faz suas grandes reuniões em duas datas: o Mardi Gras, Carnaval de Nova Orleans, e o Natal. As motos vão de humildes lambretas a possantes Harley-Davidson, e os motoqueiros têm as mais diversas idades e tipos físicos. É obrigatório, porém, caracterizar-se com as roupas e o cabelão que são marca registrada do ídolo. Como é muito comum entre os inúmeros grupos de fãs que imitam Elvis Presley, essa é uma homenagem que tem jeito de paródia - mas é seriíssima (Foto: Gilberto Tadday)

Afinal, mostrara-se todo orgulhoso em seu uniforme militar, quando serviu no Exército, de 1958 a 1960 (aliás, foi na condição de pracinha que fez sua única viagem à Europa, servindo na Alemanha). Em 1970, piorou sua imagem ao visitar o presidente Richard Nixon na Casa Branca. Foi proclamado embaixador da juventude e aproveitou a ocasião para criticar os Beatles e os Rolling Stones por incentivarem o consumo de drogas (uma triste ironia, se lembrarmos que os barbitúricos foram um fator na morte de Elvis).

Para além da política, censura-se a breguice flamejante de Elvis em seus shows de Las Vegas nesse período. São dessa fase os macacões brancos que se tornaram os favoritos entre os imitadores (exceção notável: Bono, do U2, preferiu o casaco de couro preto de Jailhouse Rock quando homenageou Elvis na turnê Zoo TV).

RELÍQUIA CAPILAR Em 1986, Nick Spitzer, um antropólogo especializado na cultura musical americana, organizou uma série de shows sobre pioneiros do rock para o Instituto Smithsonian, onde trabalhava como curador. Um dos convidados, o guitarrista Paul Burlison, deu a ele um presente inusitado: um tufo de cabelos que, afirmou, saíra da cabeça de Elvis (segundo Burlison, ele e o ídolo frequentavam o mesmo barbeiro). A princípio, Spitzer deixava que amigos e visitantes tocassem os cabelos castanhos pintados de preto - mas, como a quantidade de fios começou a minguar, ele decidiu conservá-los dentro de um quadro que tem pendurado no banheiro de casa, em Nova Orleans. O antropólogo já ouviu até que o cabelo tem propriedades milagrosas e, sobretudo, afrodisíacas. "O episódio todo me fez lembrar o tempo em que a Igreja Católica vendia relíquias de santos", brinca Spitzer

RELÍQUIA CAPILAR Em 1986, Nick Spitzer, um antropólogo especializado na cultura musical americana, organizou uma série de shows sobre pioneiros do rock para o Instituto Smithsonian, onde trabalhava como curador. Um dos convidados, o guitarrista Paul Burlison, deu a ele um presente inusitado: um tufo de cabelos que, afirmou, saíra da cabeça de Elvis (segundo Burlison, ele e o ídolo frequentavam o mesmo barbeiro). A princípio, Spitzer deixava que amigos e visitantes tocassem os cabelos castanhos pintados de preto - mas, como a quantidade de fios começou a minguar, ele decidiu conservá-los dentro de um quadro que tem pendurado no banheiro de casa, em Nova Orleans. O antropólogo já ouviu até que o cabelo tem propriedades milagrosas e, sobretudo, afrodisíacas. "O episódio todo me fez lembrar o tempo em que a Igreja Católica vendia relíquias de santos", brinca Spitzer (Foto: Gilberto Tadday)

“Fui adolescente na década de 70 e conheci o Elvis gordo. Demorei a perceber seu talento como entertainer”, diz o antropólogo Nick Spitzer, estudioso da música popular americana. Não há como negar que a veia kitsch corria forte em Elvis, conjugando certo provincianismo regional à tendência universal que os novos-ricos têm para a ostentação. Isso é palpável em Graceland, hoje um roteiro de peregrinação para os fãs. Entre outras aberrações do luxo cafona, a casa tem um quarto com motivos havaianos, e a sala de TV é decorada com um imenso macaco de porcelana.

Não há muito brilho nos últimos anos de Elvis. A separação de Priscilla – que deixou Graceland na noite de Natal de 1971 – foi barulhenta e dolorosa. Elvis viveu cercado de uma turma de amigos e guarda-costas chamados de “a máfia de Memphis”, tipos parasitários que faziam os mais diversos serviços: arranjavam mulheres, pagavam contas, ameaçavam inimigos.

A OUTRA GRACELAND "Conhece Jennifer Lopez? Ela esteve aqui na semana passada. Shirley MacLaine também", bravateia Paul McLeod, 69 anos, dono e, digamos, curador de Graceland Too, espécie de museu não oficial dedicado à memória de Elvis Presley. O acervo está todo na própria casa de McLeod, em Holly Springs, nos arredores de Memphis (onde está a verdadeira Graceland). Esse curioso museólogo, que assistiu a mais de 100 shows de seu ídolo, atende os turistas até mesmo à noite, para exibir sua coleção de 35 000 vinis, 25 000 CDs e cacarecos diversos - incluindo, no jardim, uma réplica do Cadillac rosa de Elvis. Ele gosta de conduzir os visitantes pelo braço, dando longas explicações (nem sempre inteligíveis, por causa de uma dentadura meio solta). McLeod diz que já recusou ofertas na altura dos milhões de dólares pelo acervo. Mas o principal item do museu é ele mesmo - um dos mais extremados entre os fãs de Elvis

A OUTRA GRACELAND "Conhece Jennifer Lopez? Ela esteve aqui na semana passada. Shirley MacLaine também", bravateia Paul McLeod, 69 anos, dono e, digamos, curador de Graceland Too, espécie de museu não oficial dedicado à memória de Elvis Presley. O acervo está todo na própria casa de McLeod, em Holly Springs, nos arredores de Memphis (onde está a verdadeira Graceland). Esse curioso museólogo, que assistiu a mais de 100 shows de seu ídolo, atende os turistas até mesmo à noite, para exibir sua coleção de 35 000 vinis, 25 000 CDs e cacarecos diversos - incluindo, no jardim, uma réplica do Cadillac rosa de Elvis. Ele gosta de conduzir os visitantes pelo braço, dando longas explicações (nem sempre inteligíveis, por causa de uma dentadura meio solta). McLeod diz que já recusou ofertas na altura dos milhões de dólares pelo acervo. Mas o principal item do museu é ele mesmo - um dos mais extremados entre os fãs de Elvis (Foto: Gilberto Tadday)

Até hoje, em Memphis, há gente vivendo dessa singular profissão: amigo do Rei. “Quanto você pode pagar?”, perguntam sempre que encontram um jornalista interessado no passado de Elvis (não, nenhum deles pegou carona nesta reportagem). Ao ser encontrado morto no banheiro de Graceland, em 1977, Elvis estava, mais do que gordo, inchado – resultado de uma dieta à base de sanduí­ches de banana com manteiga de amendoim, bacon e doses pantagruélicas de tranquilizantes.

SUCESSO IMPREVISÍVEL Robert Sullivan trabalhava como técnico de som do Louisiana Hayride, programa de rádio ao vivo dedicado à música country e transmitido de Shreveport, quando por lá apareceu um garoto chamado Elvis Presley. "Sua primeira apresentação, em 1954, foi uma catástrofe. Ele chegou parecendo um caubói, com umas botas estranhas. E como suava", lembra Sullivan, hoje com 85 anos. "Mas, na segunda entrada, a plateia já tinha sido conquistada por ele." Poucas semanas depois, Presley já trazia para o estúdio um público jovem que jamais se havia interessado pelas atrações do Louisiana Hayride (e que voltaria a perder o interesse pelo show quando Elvis o deixou, um ano e meio mais tarde, no caminho para o estrelato). Sullivan se recorda de Presley como um grande conquistador. E não só de jovenzinhas: certa vez, ele teria exibido no estúdio um relógio caro que havia ganho de uma senhora. O técnico de som admite que nunca se deu conta do potencial de Elvis: "O menino era talentoso. Mas a gente achava que o sucesso dele iria durar no máximo um ano"

SUCESSO IMPREVISÍVEL Robert Sullivan trabalhava como técnico de som do Louisiana Hayride, programa de rádio ao vivo dedicado à música country e transmitido de Shreveport, quando por lá apareceu um garoto chamado Elvis Presley. "Sua primeira apresentação, em 1954, foi uma catástrofe. Ele chegou parecendo um caubói, com umas botas estranhas. E como suava", lembra Sullivan, hoje com 85 anos. "Mas, na segunda entrada, a plateia já tinha sido conquistada por ele." Poucas semanas depois, Presley já trazia para o estúdio um público jovem que jamais se havia interessado pelas atrações do Louisiana Hayride (e que voltaria a perder o interesse pelo show quando Elvis o deixou, um ano e meio mais tarde, no caminho para o estrelato). Sullivan se recorda de Presley como um grande conquistador. E não só de jovenzinhas: certa vez, ele teria exibido no estúdio um relógio caro que havia ganho de uma senhora. O técnico de som admite que nunca se deu conta do potencial de Elvis: "O menino era talentoso. Mas a gente achava que o sucesso dele iria durar no máximo um ano" (Foto: Gilberto Tadday)

O ídolo, o ícone – estes permanecem inalterados e esbeltos, com toda a exuberância sexy do melhor rock’n’roll.

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15 Comentários

  • RONILDO RODRIGUES DA SILVA

    -

    24/9/2013 às 11:26

    Elvis morreu faz tempo porem as musicas eram de ritmo muito bom. esse foi o motivo das pessoas ouvir em dia atuais , Elvis era uma pessoa popular e as pessoas gostava de sua maneira expressiva de interagir. rock ,bus,clant,gospel

  • Ataíde Marques

    -

    20/4/2013 às 17:38

    O espetáculo Elvis in Concert volta ao Brasil em Outubro. A grande imprensa não tem comentado muito o assunto (inclusive a Veja). Acho que o nome Elvis merece mais divulgação.

  • Ataíde Marques

    -

    20/4/2013 às 17:35

    Pelo menos até 1974, Elvis brilhou intensamente. Fez 4 shows com lotação total no Madison Square Garden em 1972. Fez um show transmitido para todo o mundo via satélite (fato inédito). E com uma performance sensacional. Em 1974 fez um grande show em Menphis. E nos anos seguintes fez shows de virada de ano com grandes cachês e grandes públicos.

  • Augusto Castilho

    -

    23/12/2012 às 15:02

    Espera aí,comparar o rei do rock com o Pelé, cara insuportável, arrogante e mau caráter (o Pelé!). Mau caráter sim! Um cara que posa de bonzinho e não deu atenção à sua filha legítima. É uma ultraje!

  • Gil

    -

    14/11/2012 às 15:17

    O Rei incomparável!!

  • suely delia

    -

    21/10/2012 às 11:14

    não morreu é a estrela maior que está agora nesse céu…

  • cristina mendes

    -

    10/10/2012 às 14:46

    amo ELVIS e sempre amarei VIVA O REI DO ROCK

  • Ailton Mattos

    -

    21/8/2012 às 22:29

    Elvis está no inconsciente coletivo popular do mundo. Carisma, talento, onde buscou na raiz em vários ritmos musicais o seu próprio estilo. Elvis foi o midas da música transformando em sucesso aé mesmo canções bobas dos filmes que fez. foi o primeiro astro da industria fonográfica, foi e é o ídolo de muitos ídolos (Beatles, Queem, U2…) 35 anos depois de sua morte ainda é um sucesso mundial e por isso nunca vai morrer. Longa vida ao Rei.

  • gilson

    -

    17/8/2012 às 18:42

    Ofender, aqui, não, Gilson. Se quiser reclamar da revista, escreva para veja@abril.com.br

  • Jane Araujo

    -

    17/8/2012 às 15:13

    ELVIS! ELVIS! ELVIS! The BEST! I love you! Espero seu show no Brasil! Pra esquecer a porqueira que rola por aqui.

  • Marcello Castellani

    -

    17/8/2012 às 14:32

    Sim. Elvis é uma voz que ficou eternizada. O mundo do rock pode ser definido entre antes e depois de Elvis Presley.

  • julio

    -

    17/8/2012 às 11:54

    Senhor Ricardo, não sei onde nem como, mas esse Rei tem algo muito próximo de um outro, nosso rei, Pelé.
    Inigualáveis, tanto um quanto outro pela arte e talento, Um com a voz, outro com a bola. Igualmente por alguns invejosos odiados… igualmente os de sempre odiosos de esquerda.

  • Sâmia Capoano

    -

    17/8/2012 às 1:38

    ELVIS… é simplesmente incrível, ela transcendeu um estilo musical, um ritmo e se tornou o ícone de toda uma geração….Adoro!!!

  • J.B.CRUZ

    -

    16/8/2012 às 23:22

    ELVIS NÃO MORREU, VIVE DENTRO DOS NOSSOS CORAÇÕES….

  • maria augusta elias

    -

    16/8/2012 às 21:04

    formidável esta reportagem, mais uma vez parabens!
    Elvis realmente é um fenômeno até hoje, valeu revista veja!

 

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