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Satélites prometem levar internet para as regiões mais remotas

A mais de 500 quilômetros de altitude, empresas de tecnologia competem para fornecer internet a todo canto do planeta

Por Sergio Figueiredo Atualizado em 23 out 2020, 11h04 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

“Que belo jeito de começar um domingo!”, exclamou o supervisor de produção Andy Tran na manhã de 18 de outubro, quando o foguete Falcon 9 decolou da plataforma 39A, a mesma de onde partiu a cápsula que, 51 anos atrás, levou o homem à Lua. Minutos depois, enquanto o foguete reutilizável retornava para a base, outro estágio da nave chegava ao espaço carregando a preciosa carga: sessenta pequenos satélites recém-saídos de fábrica. Por mais inusitado que o evento possa parecer, foi apenas mais um domingo qualquer para Andy e os demais funcionários da Starlink, uma divisão da SpaceX que foi criada pelo magnata Elon Musk com o audacioso objetivo de fornecer serviço de internet de banda larga de alta velocidade para todo o planeta. O projeto, de fato, é ambicioso. Antes do voo do ensolarado domingo passado, outras treze missões desse tipo partiram para o espaço com o mesmo objetivo.

ELE VÊ LONGE – Elon Musk: outro projeto bilionário – Alexander Becher/EFE

Com os sessenta novos satélites lançados, a Starlink tem agora mais de 800 em órbita — é impossível saber o número preciso, pois panes recorrentes obrigam os técnicos a derrubar os dispositivos defeituosos, que queimam na reentrada da atmosfera. De qualquer forma, as perdas são compensadas com lançamentos constantes. Estima-se que a Starlink fabrique pelo menos 120 satélites por mês e que já estaria perto da quantidade mínima necessária para fazer os primeiros testes no norte dos Estados Unidos e no sul do Canadá. Futuramente, se conseguir chegar a 42 000 unidades em órbita (o número considerado ideal para atender às ambições da Starlink), o serviço será planetário, praticamente um sonho de ficção científica.

Atender áreas remotas, como a Amazônia, no Brasil, o Serengeti, na África, ou mesmo um barco no meio do oceano Atlântico, é o objetivo mais nobre da Starlink, mas não o único. A companhia, que em breve deve buscar capital na bolsa de valores para reforçar o caixa do empreendimento, quer competir também nos grandes centros urbanos. Inicialmente, a recepção de internet será feita por uma pequena antena parabólica instalada pelo usuário, mas as aplicações portáteis futuras abrem um leque muito maior de possibilidades, incluindo o controle de máquinas e veículos autônomos 24 horas por dia, fronteiras de negócios que geram enorme interesse por parte de Elon Musk.

Assim como ocorreu com a divisão de carros elétricos Tesla, que ultrapassou a Toyota como a montadora mais valiosa do mundo, o serviço de internet por satélite é a nova aposta de Musk. Analistas de Wall Street apontam que o mercado total de banda larga, com todas as suas modalidades, tem potencial para gerar receitas de aproximadamente 1 trilhão de dólares por ano. A SpaceX é avaliada em cerca de 40 bilhões de dólares, mas só uma fatia disso está no transporte de carga e astronautas. A maior parte da companhia depende agora do sucesso da constelação de satélites, o que explica em boa medida o número elevado de missões enviadas ao espaço.

Não são poucos os obstáculos e os desafios colocados diante da Starlink. Como não poderia deixar de ser, a empresa não está sozinha na nova corrida espacial. A Amazon, de Jeff Bezos, acelerou seu projeto Kuiper, que consiste em colocar ao menos 3 200 satélites em órbita até 2026. Não é só. O consórcio anglo-­indiano OneWeb lançou cerca de setenta dispositivos, mas almeja ultrapassar a atual líder — isso tudo sem contar a concorrência de outros países, como a onipresente China, que também está atenta ao tremendo potencial do mercado de satélites. Além dos entraves concorrenciais, a Starlink convive com falhas frequentes em suas operações, algo bastante comum nesse tipo de atividade. Estima-­se que pelo menos quarenta satélites tiveram de ser derrubados por causa de pane geral ou mau funcionamento. Do ponto de vista financeiro, a perda é dramática. Um único aparelho tem custo estimado entre 250 000 e 500 000 dólares.

Outra preocupação que está no radar dos bancos e potenciais investidores é a licença para operar. O Canadá, que tem uma relação quase simbiótica com os Estados Unidos, demorou cinco meses para aprovar o teste em seu território, o que leva a imaginar a resistência que outras nações, especialmente as mais fechadas, poderiam oferecer, criando complexos marcos legais e impostos proibitivos. Afinal, se o serviço não for razoavelmente acessível em termos de custo, além de rápido e estável, ninguém irá assiná-­lo, por mais tecnologicamente avançado que seja. De certa forma, o desafio da Starlink está nas alturas, assim como seus satélites. A fronteira final é a órbita da Terra.

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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