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A obra-prima sou eu

Uma leva de museus “instagramáveis” surge para atender à geração que não consegue ficar sem dar uma selfie

Multidões passam em frente a autorretratos que revelam o ápice e a decadência do mestre Rembrandt e se postam diante da loucura expressa nas ferozes pinceladas de Van Gogh ao desenhar o próprio rosto. Detalhe: as pessoas estão de costas para essas obras-primas (as réplicas, na verdade), de celular em punho, para eternizar a si mesmas em cenários imbatíveis. No caso de Van Gogh, quem quiser estender a experiência pelo universo do holandês poderá se jogar na reprodução do singelo quarto onde ele viveu dias de agonia e alta produtividade em Arles, no sul da França. Um, dois, três e… clique de novo. Bem-vindo ao Museu das Selfies — a compulsão deste século XXI —, aberto em Los Angeles há um ano como parte de uma leva de museus que já têm até classificação: “instagramáveis”, posto que tudo o que está ali é pensado para sair bem na foto e, como não?, viralizar.

Criticada por uma ala de tradicionalistas que vê na ida ao museu um exercício de apreciação do sublime, essa nova onda fala às gerações Y e Z, uma turma de seus 30 e poucos anos ou menos que está em busca de ação e muitos registros. “Espaços feitos para tirar fotos já estavam pipocando nos Estados Unidos. Pensei: por que não criar um museu completamente dedicado ao assunto?”, disse a VEJA a russa Kate Kutepova, diretora do local. Um coirmão do exemplar americano também vem arrastando muita gente em Budapeste, na Hungria, com o tema Sweets & Selfies. O que isso significa? Paredes cobertas de cor-de-rosa com bananas pendendo do teto — o povo faz fila para bater foto — e uma piscina transbordando de granulados coloridos (nada de verdade, claro). Em Lisboa, nasceu O Museu Mais Doce do Mundo, exportado para São Paulo e, desde quinta-­feira 12, para o Rio de Janeiro. “Viemos para responder aos anseios dos jovens. Quer tocar? Toca. Quer tirar foto? Tira”, diz a publicitária e criadora Carla Santos, que reconhece: “Não temos a pretensão de competir com os museus tradicionais”.

DOCE EXIBIÇÃO – Museu recém-aberto no Rio: há quem leve mala com roupas para não repetir o visual

DOCE EXIBIÇÃO – Museu recém-aberto no Rio: há quem leve mala com roupas para não repetir o visual (Ricardo Borges/VEJA)

Seria difícil mesmo tentar fazer frente ao enigmático sorriso da Monalisa com uma sala decorada com cookies e um cartaz: “Aqui, são bem-­vindos os biscoiteiros” (para os não nativos digitais, biscoiteiro é o ser que posta muita foto para se exibir). É curioso ver por lá visitantes carregados de malas com roupas — a ideia é não repetir o look. As selfies compõem o caldo de cultura de uma garotada que aprende a clicar no smartphone antes mesmo de dar os primeiros passos. O hábito não é por si só um problema, desde que não se torne compulsão. Há indícios de que, se bobear, a coisa pode ultrapassar o terreno do razoável. Estima-se que 40% das pessoas que possuem smart­phone tirem cinco selfies por dia; outros 15% chegam a trinta autorregistros. “Esse exagero pode estimular personalidades profundamente narcisistas, substituindo a saudável interação social pela contemplação da própria imagem”, analisa o psicólogo inglês Phil Reed, coordenador de uma pesquisa sobre o fenômeno. A procura da selfie perfeita — do topo de um arranha-céu, na boca de um tubarão — custou 259 vidas até 2017, o último dado disponível dessa insanidade.

Os museus tradicionais não estão alheios à geração “selfiemaníaca”. “Sairão na frente os que entenderem que a postagem nas redes faz parte da emoção da visita para os jovens de hoje”, avalia a designer de experiências Verônica Marques, da ESPM. Muitos ainda resistem à ideia de ser liberais demais nas regras para fotografia e assim abrir uma brecha que afronte a paz de quem só está ali para contemplar. “Reparo que as pessoas gastam mais tempo tirando fotos do que sorvendo a arte”, afirma Benoît Parayre, diretor do Centro Georges Pompidou, em Paris, que, sim, permite a fotografia. Para tentar limitar um pouco o afã pelo clique, o Museu Van Gogh, de Amsterdã, criou “a parede da selfie”. Lá pode tudo, e haja autorreferência. No restante do museu, espera-se que o visitante exercite o hábito de guardar o celular. Não é má ideia nem é comportamento tão difícil assim.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653