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Meio século do Big Bang: como o lançamento do Apple I inaugurou uma era

O primeiro computador pessoal de que se tem notícia revolucionou a tecnologia com a constatação de que a inovação não pode parar

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 17 mar 2026, 14h17
  • Em um canto da garagem bagunçada na casa dos pais de Steve Jobs, em Los Altos, no norte da Califórnia, havia um exemplar do número de janeiro de 1975 da revista Popular Mechanics, dedicado ao kit do primeiro computador pessoal, o Altair. Que méritos especiais tinha a geringonça da reportagem? Poucos. Eram peças que precisavam ser soldadas numa placa que pouco fazia. Mas marcou o nascer de um tempo. Bill Gates, de 20 anos, e Paul Allen, de 22, que tinham acabado de criar uma empresa de fundo de quintal no Novo México, a Microsoft, ficaram entusiasmados com o que leram e começaram a trabalhar em um sistema operacional para o Altair. Outros dois jovens, Steve Jobs, de 20, e Steve Wozniak, de 25, amigos fraternos depois de se conhecerem na sede da Hewlett-Packard, em Palo Alto, também amanheceram doidos com a novidade estampada — embora achassem a máquina muito feiosa. Aquela publicação virou fetiche em um clube que ambos frequentavam, o Homebrew Computer Club (Clube do Computador Feito em Casa).

    Wozniak vendeu sua calculadora HP-65 por 500 dólares, embora o comprador tenha entregado apenas a metade. Jobs se desfez de uma Kombi mequetrefe por 1 500 dólares. Tinham, portanto, pouca coisa de capital de giro. E então começaram a desenvolver a maquineta que, pela primeira vez, permitiria a digitação de algo — nem que fosse uma única letra — de modo a aparecer numa tela. Precisavam de um nome para a companhia. Pensaram em Matrix e Executek. Quase foram de Personal Computers Inc. Aí Jobs pôs na mesa Apple Computer. “Estava em uma das minhas dietas frugívoras, tinha acabado de voltar de uma fazenda de maçãs”, contaria depois. A dupla lidava com chips como quem tomava LSD. Nascia o Apple I, no primeiro dia de abril de um 1976 memorável, há exatos cinquenta anos, o ponto de eureca de onde estamos. A montagem daquela caixa capenga os deixou em êxtase. “A computação deixava de ser considerada ferramenta de controle burocrático para ser adotada como símbolo de expressão individual e libertação”, escreveu o jornalista John Markoff, ao analisar a convergência da contracultura com a tecnologia. Jobs era bicho-­grilo. Wozniak, um pouco menos — levava uma fita na cabeça, mas vestia-­se como um caixa de banco.

    Foi a gênese de uma revolução, que seria conduzida por Jobs, porque Wozniak preferiu ficar no acostamento. A Apple reinventou uma sucessão de indústrias: a dos computadores pessoais, com os exemplares iniciais e o Macintosh; a da editoração eletrônica, com o programa PageMaker; a da animação, com a Pixar; a da telefonia, com o iPhone. É bonito perceber, com olhar retroativo, que os avanços alinhavados pelo tempo brotaram daquela sementinha arcaica. O nascimento e a ascensão da Apple, a partir do momento zero, representaram o declínio da cultura dos amadores — foi como se Jobs e Wozniak tivessem matado os hippies que havia dentro deles. Ou, como na letra da canção de Bob Dylan, It’s All Over Now, Baby Blue, uma das primeiras que Jobs colocaria na playlist inaugural do iPod, lançado em 2001: “Deixe para trás esses degraus, algo te chama; esqueça os mortos que abandonou, não vão te seguir; o vagabundo que bate à tua porta está ali com as roupas que você um dia usou”, na tradução de Caetano W. Galindo.

    O Apple I — e sobretudo seu sucessor, o Apple II, de 1977 — era o início de um mantra que a empresa de Cupertino nunca mais abandonaria: a criação de máquinas cujas entranhas os usuários não deveriam abrir para mexer. Para Jobs, servia como credo religioso, como anotou o escritor e jornalista americano Walter Isaacson em Os Inovadores: “Os hardwares de sua empresa seriam rigorosamente integrados aos softwares do sistema operacional”. Assim foi e assim é até hoje, com os iPhones, por exemplo — a versão atual é a de número 17. Jobs foi sempre perfeccionista e gostava de controlar a experiência do usuário de ponta a ponta, em postura que conduz a Apple da alvorada ao pôr do sol, ainda hoje, no século XXI.

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    NO COMANDO - Tim Cook, o CEO herdeiro do fundador: falta-lhe algum charme
    NO COMANDO - Tim Cook, o CEO herdeiro do fundador: falta-lhe algum charme (Tommaso Boddi/Getty Images)

    Dito de outro modo: Jobs não queria permitir que alguém comprasse uma máquina da Apple para rodar nela o desengonçado sistema de outra empresa, ou que comprasse o sistema operacional da Apple para instalá-lo no hardware capenga de outro fabricante. Essa postura alimentou, durante muito tempo, a guerra fratricida que opôs Microsoft e Apple — como quem discute Beatles ou Rolling Stones, em tribos distintas. A companhia de Bill Gates teve a imagem colada um tanto mais aos nerds, ávidos por fazer com que tudo funcione, pouco importando o conjunto do pacote. A empresa de Jobs virou sinônimo de charme, algo sexy, de bela estética.

    POTÊNCIA - Loja da marca em Xangai: valor de mercado de 4 trilhões de dólares
    POTÊNCIA - Loja da marca em Xangai: valor de mercado de 4 trilhões de dólares (Future Publishing/Getty Images)
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    O embate não é mais assim. Os tempos mudaram — adeus aos anos 1980 e 1990 —, embora o atrito entre um PC e um Mac ainda exploda por aí, e quem escolhe um não gosta do outro. Há, contudo, cinco décadas depois daquele Big Bang, um incômodo no coração da Apple quando olha para o futuro. A faísca inovadora anda apagada. Depois de muito tempo — pelo menos desde a pré-história da computação pessoal, naquele 1976 mágico —, a Microsoft voltou a liderar uma transição tecnológica. Agora, ela está à frente da chamada inteligência artificial generativa. A mudança foi gestada em 2019, quando, por determinação do chefão global, Satya Nadella, a Microsoft investiu em uma startup então pouco conhecida, a OpenAI, que estava desenvolvendo um novo sistema de inteligência artificial, o ChatGPT — e o resto é história. Nos últimos anos, a Microsoft injetou bilhões de dólares na OpenAI.

    A Apple, de seu lado, parece bater cabeça — não tem um plano claro para IA, lança óculos de realidade aumentada, o Vision Pro, que ainda não vingou e, convenhamos, o atual CEO, Tim Cook, não tem, nem de longe, o charme e a assertividade genial de Jobs. “Deve-se ter em mente, contudo, que no início havia um mercado a ser desenvolvido, e os passos de toda inovação pareciam mais abertos”, diz Rafael Coimbra, editor-chefe da MIT Technology Review brasileira.

    REALIDADE AUMENTADA - Os óculos Vision Pro: acessório não colou
    REALIDADE AUMENTADA – Os óculos Vision Pro: acessório não colou (Apple/.)
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    Há saída, é evidente, e a engrenagem de pesquisa e desenvolvimento da Apple pode, sim, tirar um coelho da cartola. Lembre-se, ainda, que a marca na verdade se especializou em reempacotar o que já existia, grandiosamente, mas sem sair do zero. Antes do iPhone havia o BlackBerry. Antes do iTunes havia outras modalidades digitais para músicas. É possível que, agora, também a turma de Cook acompanhe a evolução da IA para então dar o pulo do gato. Parece estar perdendo o bonde, mas não. E então, logo ali na frente, a Apple pode fazer valer uma das frases prediletas de Jobs, que morreu em 2011: “Muitas vezes, as pessoas não sabem o que querem até que você mostre a elas”. Foi assim com o Apple I, vendido cinco décadas atrás por algo em torno de 600 dólares. Recentemente, um exemplar original foi leiloado por 900 000 dólares. Hoje, a Apple vale cerca de 4 trilhões de dólares — disputando o topo com Nvidia e Microsoft, à frente de empresas como o Google. É uma fascinante aventura do capitalismo e da inventividade humana, com cinquenta anos e corpinho de quarenta e nove. A espantosa linha evolutiva impõe uma reflexão: a inovação é compulsória — ainda que, para começar, seja preciso vender uma calculadora antiga e uma Kombi caindo aos pedaços.

    Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986

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