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Lançamento da primeira Ferrari 100% elétrica deixa no ar uma pergunta barulhenta

Os amantes dos ruídos do motor a combustão topam a radical mudança?

Por Natalia Tiemi Hanada Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 9 mar 2026, 11h45
  • O desenho do cavallino rampante é uma das marcas mais conhecidas do mundo. Celebre-se o equino de patas para cima emoldurado pelo brasão amarelo tendo como pano de fundo o vermelho de brilho inigualável — eis a Ferrari, um totem da civilização acelerada. Some-se ao mítico traço o ronco metálico e agudo do motor a combustão, na versão aspirada, e não tem para ninguém. Mesmo quem não gosta de carros há de admirar o pacote italiano. Nesse aspecto, o de uma revolução dentro da revolução, faz barulho o lançamento da Ferrari Luce — o primeiro modelo 100% elétrico da grife de Maranello. Os detalhes acabam de ser divulgados, embora apenas em maio a máquina será oficialmente apresentada e vendida a privilegiados, a um preço inicial equivalente a 3 milhões de reais.

    Os designers — liderados pelo mágico Jonathan Ive, o profissional escolhido por Steve Jobs para desenhar o iPhone — tiveram o cuidado de montar um painel de controle e volante sem exagero de tecnologia, com botões manuais, de ação mecânica, e não aqueles sensíveis ao toque. Não haverá, portanto, digitalização excessiva, um modo de frear as severas críticas dos amantes da companhia, que consideram um anátema pôr por aí, nas ruas e estradas, uma Ferrari movida a bateria, no avesso dos sonhos dos mais tradicionalistas. Mas é isso aí, o dado está lançado, e será inevitável uma colossal pergunta: uma lenda como a escuderia das escuderias combina com a eletricidade?

    FORA DA TOMADA - O Lamborghini Lanzador, que vinha com toda a pompa e circunstância: pouco interesse dos fãs
    FORA DA TOMADA - O Lamborghini Lanzador, que vinha com toda a pompa e circunstância: pouco interesse dos fãs (Lamborghini/.)

    Talvez não, mas é bom lembrar que o próprio fundador da empresa, Enzo Ferrari, no longínquo ano de 1947, deu a deixa: “Quero encantar meus clientes, seja lá qual for a tecnologia”. Deve-se lembrar que os modelos a gasolina seguirão saindo da linha de montagem artesanal, mas há um incômodo. Não por acaso, o chassi do Luce terá alumínio reciclado, que reduz vibração. A explicação: na falta do típico som de uma Ferrari — vruuuuum, vruuuuum! —, os ruídos comprometeriam a experiência do motorista. Dito de outro modo: se não há ronco, que então o deslizar seja sempre suave. O Luce tem extraordinários avanços, com potência e torque multiplicados, resultado de mais de uma década de estudos, mas não basta. “Para os fãs, o som de uma Ferrari é como sinfonia”, diz Fabio Delatore, professor de sistemas de controle e de eletrônica do Instituto Mauá de Tecnologia.

    É momento histórico, sem dúvida — mas a Ferrari parece andar na contramão, por apostar na força inquebrantável de seu nome, e talvez tenha razão em confiar no próprio taco. Ela dá as mãos a uma norma da União Europeia, que estipulou uma meta de 90% de redução de emissões de gases de efeito estufa até 2040, e adeus à fumaça fóssil que nos acompanha desde o início do século XX. “A nova geração, com preocupações ambientais e atenta à F1, que tem buscado o zelo para evitar poluição, teria interesse pela Ferrari Luce, mas parece ser atração insuficiente”, diz o empresário e piloto Luiz Razia, analista cuidadoso da indústria automobilística.

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    SOLUÇÃO HíBRIDA - O Bentley Flying Spur: a sensatez do meio do caminho
    SOLUÇÃO HíBRIDA - O Bentley Flying Spur: a sensatez do meio do caminho (Mark Fagelson/Bentley/.)

    Concorrentes da Ferrari que andaram namorando o campo elétrico, ao bater de frente com a realidade inescapável, tiveram de reduzir a marcha. A Lamborghini suspendeu o projeto do Lanzador, totalmente impulsionado por bateria, que viria à luz nos próximos meses e miou. “A curva de aceitação de carros movidos a eletricidade no público-alvo da Lamborghini está se achatando, próxima a zero”, diz o CEO Stephan Winkelmann. A saída entre os dois mundos tem sido o híbrido, solução sensata. A Bentley aposta no Flying Spur, que era para ser pilhadão, e ficou no meio do caminho entre o combustível e a tomada. No escaninho do luxo, o elétrico ainda é uma quimera — para o comum dos cidadãos, contudo, vai que vai. Circulam pelo planeta pelo menos 1,4 bilhão de veículos a gasolina, diesel ou álcool e 60 milhões de elétricos. Mas eles ganham espaço, a um ritmo de crescimento de 20% ao ano. Nunca é errado ficar de olho na Ferrari, ainda que ela deixe de roncar.

    Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985

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