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‘Deepfake’, o novo e terrível patamar das ‘fake news’

Vídeos falsos, que simulam o rosto e a voz de pessoas, mas em produções de conteúdo falacioso, são o próximo passo das manipulações virtuais

Por André Lopes Atualizado em 13 jan 2021, 12h07 - Publicado em 18 out 2019, 06h00

Imagine por um segundo: um homem com total controle de bilhões de dados roubados. Todos os seus segredos, vida e futuro”, teria dito o criador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, em um depoimento gravado. “Devo tudo ao Spectre. O Spectre me mostrou que quem controla os dados controla o futuro”, completou. O vídeo supostamente vazado exibe Zuckerberg em um cenário familiar ao de outras de suas declarações — tratando de um assunto que certamente compete a ele. O problema: nada é o que parece ser. Um olhar mais cauteloso entrega a lorota. Ele está com uma postura mais travada que a usual, o rosto levemente desfocado, e faz loas a um tutor, ou seja lá o que for, totalmente desconhecido, o tal Spectre. Resumo da ópera: aquele cara não é Zuckerberg. Trata-se de um avatar criado pelos artistas americanos Bill Posters e Daniel Howemas usando a tecnologia conhecida como deepfake. A técnica lança mão da inteligência artificial (IA) para inserir rostos reais em cenas falsas com o objetivo de criar um vídeo com alguém dizendo algo que não disse. É um novo e péssimo degrau das fake news.

O filme do Zuckerberg de mentirinha viralizou, como quase tudo na internet que incomoda, mas vinha contida nele a ressalva fundamental — é uma contrafação, modo de alardear o perigoso potencial da estratégia de manipulação.

Não há uma data exata de nascimento das deepfakes — termo que junta a palavra fake (falso, em inglês) com a expressão deep learning (aprendizagem profunda; uma técnica de IA). No entanto, a popularização e o aperfeiçoamento do método começaram a ganhar atenção no fim de 2017, quando um vídeo pornô embusteiro, que trazia uma falsa atriz Gal Gadot, de Mulher­-Maravilha (2017), foi publicado no site Reddit. Desde então, uma série dessas maquinações, com celebridades e políticos, pipocou internet afora.

Mulher-Maravilha
FAJUTO – Gal Gadot, a Mulher-Maravilha (à esquerda): gravação inseriu o rosto dela em uma produção pornô (à direita) Divulgação/Reprodução

Uma análise da empresa de segurança digital Deeptrace, fundada em 2018 para elaborar defesas contra falsificações criadas por IA, revela que o número de deepfakes disponíveis na web quase duplicou entre o fim de 2018 e junho de 2019. De um total de 8 000, saltou para mais de 14 000. A grande maioria — 96% — tem natureza pornográfica.

Do lado, digamos assim, leve de suas promessas, as deepfakes têm potencial para o entretenimento. Tome-­se como exemplo o aplicativo chinês Zao, lançado neste ano. Com apenas uma selfie, ele permite pôr o rosto de usuários em cenas de filmes e séries famosas, ainda que seja perceptível a movimentação artificial da face. Edições satíricas, como a que transformou o ator Alec Badwin no presidente americano Donald Trump, mostram como se pode alcançar ainda maior veracidade. Já com softwares potentes, como o Synthesia, desenvolvido para a indústria cinematográfica e de publicidade, foi possível fazer o ex-jogador de futebol David Beckham falar nove idiomas com extremo realismo, em uma campanha publicitária, em 55 países, que alertava sobre os riscos da malária (leia o quadro abaixo).

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Redação/VEJA

“É necessário, contudo, olhar as deepfakes com a possível progressão de uso de qualquer nova tecnologia. Elas se tornarão sempre melhores e mais acessíveis”, disse a VEJA o engenheiro americano Sam Gregory, diretor da Witness, uma organização sem fins lucrativos que promove o uso de tecnologia na proteção dos direitos humanos. Mas talvez não haja risco maior do que o emprego das enganações animadas nas guerras políticas travadadas dentro das redes sociais. Há onze anos, quando Barack Obama chegou à Presidência dos EUA, um de seus grandes trunfos de campanha foi a forma como atraiu os eleitores jovens por meio dessas plataformas. A equipe do democrata havia descoberto como poderia utilizar os algoritmos para conquistar militantes on-line e pô-los na rua. Obama foi também o primeiro presidente americano a usar o Twitter, o primeiro a fazer uma live no Facebook, e ainda o pioneiro no Snapchat. De lá para cá, a coisa degringolou, dadas a avalanche tecnológica e a dramática polarização entre um lado e outro, a direita e a esquerda.

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No Brasil, o uso abusivo das redes foi ferramenta que ajudou na reeleição de Dilma Rousseff , em 2014 — a suspeita de disparo em massa de fake news foi investigada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Bolsonaro navegou na mesma onda e a incrementou, inspirado na fulminante ascensão de Trump em 2016, ao fazer uso de perfis falsos e robôs.

O amanhã que se desenha soa inexorável. “Dá para concluir que as deep­fakes são o próximo passo das manipulações virtuais”, disse a VEJA o alemão Matthias Niesser, professor de computação gráfica da Universidade de Munique. Para ele, as criações digitais são tão convincentes que se tornaram um nó de forte impacto.

Years and Years
NA FICCÇÃO – A série de TV Years and Years, da HBO: a manipulação digital engana eleitores e afeta a eleição na Inglaterra Divulgação/HBO

Nos Estados Unidos, o alerta vermelho já está aceso para as eleições do ano que vem. Cerca de 60% dos americanos acreditam que existirá interferência na disputa presidencial de 2020. Os congressistas do país requisitaram oficialmente ao Facebook, ao Twitter e a outras redes que tomem medidas contra os vídeos enganosos.

Entretanto, mesmo que fosse possível proibir as deepfakes, provavelmente já seria tarde demais. É o que constata, em entrevista a VEJA, o engenheiro americano Aviv Ovadya, fundador do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais da Universidade de Michigan (EUA): “A preocupação é com a desinformação criada”. O risco é que ocorra algo como a normalização de fatos absurdos — da crença no terraplanismo a movimentos extremistas. A ficção prevê algo nessa linha. Na série Years and Years (2019), da HBO, as deepfakes têm relevância numa fictícia eleição na Inglaterra, em torno de 2025, e nos anos seguintes.

E, mais uma vez, o aperfeiçoamento de uma nova forma digital de manipulação põe em xeque os alicerces da democracia. Para os especialistas consultados por VEJA, haveria duas maneiras de ao menos mitigar os efeitos: o desenvolvimento de algoritmos, por gigantes como o Facebook e a Google, que barrem os vídeos; e a via judicial, com a punição dos falsários.

  • Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657

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