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A tecnologia transforma

A pandemia enfatizou quanto o acesso digital é essencial, mas ao mesmo tempo mostrou que há muita gente de fora desse jogo

Por Tânia Cosentino* Atualizado em 18 dez 2020, 08h46 - Publicado em 18 dez 2020, 06h00

Muito vem se falando sobre a aceleração da digitalização de serviços em meio à pandemia, incluindo setores essenciais como educação e saúde. A tecnologia se tornou ainda mais importante neste momento desafiador, a ponto de impactar as relações sociais e profissionais da maioria dos cidadãos, sendo uma poderosa aliada para propiciar o trabalho e o estudo remoto, apoiar a transformação digital de pequenas, médias e grandes empresas e minimizar os efeitos do distanciamento físico imposto pelo novo coronavírus. Pois este período também evidenciou desigualdades nesse campo, já que boa parte da população brasileira não toma contato com tais avanços tecnológicos. E a falta de acesso à internet, ao celular e ao computador acaba por contribuir para ampliar o abismo entre os que têm e os que não têm diante de si as oportunidades descortinadas por essas ferramentas.

Um dos fatores determinantes para a produtividade é a adoção da tecnologia. Vale, portanto, prestar atenção à pesquisa “Conectividade Rural na América Latina e no Caribe — Uma Ponte para o Desenvolvimento Sustentável em Tempos de Pandemia”, elaborada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Ela mostra que, no Brasil, entre 53% e 63% dos cerca de 43 milhões de pessoas que vivem nas zonas rurais não acessam serviços significativos de conectividade — um exemplo da disparidade social e de acesso à tecnologia neste país de dimensões continentais. Reconhecendo isso, não tenho dúvida de que a economia digital, impulsionada pela tecnologia e pela inteligência artificial (IA), promoverá uma verdadeira revolução nos negócios e na sociedade e vai acelerar a retomada no Brasil.

O mercado profissional precisa estar preparado para mudanças rápidas, que exigem qualificação permanente. Enfrentamos dois grandes desafios. O primeiro é a formação e a capacitação de profissionais da área de TI, setor que conta com bem menos profissionais do que o país necessita. De acordo com um relatório da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação, o Brasil lança no mercado 46 000 pessoas com perfil tecnológico por ano, quando a demanda é de 70 000, e sobe. Devemos atrair mais jovens para a área de exatas, sobretudo mulheres, que representam escassos 15% dos profissionais de TI. O segundo desafio é promover requalificação profissional, ligando os que estão no mercado a novas chances de emprego e incentivando ao máximo o empreendedorismo.

“A economia digital promoverá uma revolução nos negócios e na sociedade e acelerará a retomada no Brasil”

É de extrema relevância estarmos prontos para a veloz transformação no mundo do emprego. Em todos os tipos de empresa, modelos de negócio, produtos e formas de engajar os clientes estão em franca mudança, empurrada pela tecnologia. Um estudo encomendado pela Microsoft à consultoria DuckerFrontier, realizado poucos meses antes da pandemia, analisou as consequências da inteligência artificial na economia, na sociedade e no mercado de trabalho brasileiros até 2030. Observou-se que a adoção massiva de IA traz ao mesmo tempo melhores vagas, ganhos substanciais de produtividade e aceleração do crescimento econômico. Com a inteligência artificial, enfatiza a pesquisa, há potencial para atingirmos, no setor de serviços corporativos, 103% mais postos de trabalho até 2030, em comparação com as estimativas do Banco Mundial e do FMI. Outras áreas que teriam ganhos importantes na criação de empregos seriam as de manufatura (+73%), comércio varejista, atacadista, hotelaria e alimentação (+44%) e construção (+42%).

Temos de percorrer um caminho para que seja possível a adoção maciça de tecnologia e a garantia da igualdade de oportunidades no acesso aos benefícios da inteligência artificial. Precisamos treinar nossa mão de obra para o trabalho do presente e do futuro, qualificando-a e requalificando-a. Outro ponto é fomentar a inovação, assegurando o acesso a tecnologias de ponta em empresas de todos os tamanhos. E, o que é a base de tudo, prover educação de qualidade à população. Para dar cabo dessas questões, anunciamos em outubro o Microsoft Mais Brasil, um plano voltado para impulsionar, entre outras coisas, a economia digital, a capacitação profissional e o empreendedorismo. No tocante à economia digital, expandimos nossa infraestrutura de nuvem com uma nova região de data center baseada no Rio de Janeiro.

Também anunciamos um novo esforço, em colaboração com a Vale e o Imazon, para proteger a Floresta Amazônica de desmatamento e queimadas ilegais, justamente fazendo uso de inteligência artificial. Ela é capaz de prever quais são as áreas mais vulneráveis a incêndios na próxima temporada de seca. Na seara da qualificação profissional, firmamos uma parceria com o Ministério da Economia para talhar a força de trabalho para o hoje e o amanhã, com orientação personalizada e uma série de cursos em nossa plataforma. Doamos créditos de nuvem para ajudar a melhorar o Sistema Nacional de Emprego, de modo que adote inteligência artificial para conectar as pessoas aos postos de trabalho em que se encaixem bem. Até 25 milhões de trabalhadores podem ser beneficiados. A tarefa de preparar a força de trabalho é gigantesca e não dá para pensar em executá-la sem uma união dos setores público e privado e das cabeças pensantes da academia. Não fazer nada não é uma opção, pois emperraria o desenvolvimento econômico e isso impactaria diretamente no bem-estar da população. Todas as iniciativas que acredito primordiais corroboram a crença de que a tecnologia não é o fim, mas o meio para empoderar cada pessoa e cada organização a atingir seus objetivos.

*Tânia Cosentino é presidente da Microsoft Brasil

Publicado em VEJA de 23 de dezembro de 2020, edição nº 2718

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