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Viu os exames? E agora?

Em artigo publicado na revista The Lancet, oncologista brasileiro alerta para dano psicológico em pacientes com câncer ao verem resultado de testes sozinhos

Por Cilene Pereira Atualizado em 17 out 2021, 09h25 - Publicado em 17 out 2021, 14h24

O acesso irrestrito a laudos e exames por parte dos pacientes tem elevado os níveis de ansiedade e atrapalhado não só a qualidade de vida mas a relação com os médicos. Esta é uma das conclusões apontadas pela análise do oncologista Max Mano, professor associado nas atividades de ensino em liderança médica da Academy of Leadership Sciences Switzerland e líder do grupo de tumores de mama da Oncoclínicas, recém publicada no periódico científico internacional The Lancet. O artigo traça o papel da tecnologia e das mensagens instantâneas na linha de cuidado aos pacientes oncológicos.

O médico correlaciona dados de diferentes pesquisas que mostram o impacto psicológico do acesso de pacientes a resultados de exames antes mesmo do profissional responsável pelo caso. Um trabalho feito nos Estados Unidos, por exemplo, revelou que um subconjunto dos 20 participantes teve problemas emocionais e preocupações depois de ler suas notas médicas. “Os laudos têm uma linguagem técnica que, muitas vezes, não é entendida pelo paciente ou é interpretada de forma equivocada, o que eleva o estresse, prejudicando sua saúde”, afirma Max Mano. Pacientes com câncer em estágio mais avançado estão entre os mais vulneráveis.

Houve levantamentos que focaram na percepção dos profissionais de saúde. Em um deles, quase metade dos oncologistas relatou que os relatórios de patologia e radiologia acessíveis ao paciente tiveram impacto negativo na comunicação. Em outros, os patologistas relataram sentimentos contraditórios sobre os pacientes acessando relatórios disponibilizados online. “Em resumo, para pacientes com câncer, a apreensão sobre o estado e o curso de sua doença pode afetar profundamente sua qualidade de vida. Este tipo de ansiedade é incessantemente alimentado pelo acesso irrestrito concedido a eles por prestadores de cuidados de saúde, em particular serviços de imagem, laboratório e patologia, às informações sensíveis e potencialmente emocionalmente devastadoras contidas nesses relatórios, que também são geralmente incompreensíveis para um leigo ”, ressalta o autor do trabalho.

Ferramentas de troca de mensagens instantâneas também têm sido usadas por pacientes de forma indiscriminada, atrapalhando a relação com o seu médico. “Entendemos que, na crise de ansiedade de ver um laudo que parece grave, o paciente procure o seu profissional, mas em alguns momentos não só o contato é improdutivo, pois o médico não teve acesso ainda ao resultado, como pode violar códigos sociais”, explica o oncologista brasileiro.

O trabalho do especialista toca em um questão bastante atual. Cada vez mais, os pacientes rechaçam a velha verticalidade na relação com o médico na qual o profissional detém a informação e o poder de decisão. As pessoas desejam e exigem serem informadas a respeito da própria condição e discutir o que fazer de forma horizontal com seu médico, sem hierarquia. Em alguns centros mais avançados, discute-se inclusive a mudança da denominação “paciente” por “cliente”.

E é ótimo que isso aconteça. Porém, até por se tratar de um movimento novo, pacientes e médicos precisam se acostumar a uma situação para a qual não há receita. “Se no consultório os oncologistas se valem de técnicas para reduzir a ansiedade de pacientes diante da necessária explanação sobre o status da doença, há de fato ainda muitas dúvidas sobre como lidar com o excesso de informação aos quais pacientes e seus familiares têm acesso”, diz Mano.

Uma das saídas, sugere o oncologista, seria a colocação de um período de embargo no qual o médico tenha acesso os resultados antes do paciente. Neste ínterim, os pacientes, especialmente aqueles com doença metastática, poderiam ser claramente informados sobre os potenciais danos psicológicos de acesso direto aos resultados do teste.

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